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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Valdomiro Silveira: "Cobras Mal Acostumadas"

COBRAS MAL ACOSTUMADAS
  
−  No  topo  daquele  morro,  vocês  ‘tão  vendo  o  cupim  macota  que  ficou  solteiro  no  meio do rapadão? Tem uma história. A bem dizer, não é do cupim a tal história: vem a ser de  uma urutu que se arranchou p’r ali ansim...

À  frente  de  sua  casa,  no  Capivari,  proseava  o  Querubino  com  dois  vizinhos,  João   Vermelho e Tararé, pouco antes do almoço. Iam os dois passando pela estrada, a caminho da  vila,  quando  ele  os  viu  e  os  convidou  a  portar.  Conversa  puxa  conversa,  falou-se  de  muita  coisa  e  também  de  alguns  homens  e  alguns  bichos.  No  ponto  em  que  estavam,  o  Tararé,  sempre caçoísta e brincalhão, reclamou com urgência:

− De cupim ou de urutu, pois que saia a história!

−  E,  a  bem  dizer,  não  é  só  da  urutu:  é  de  uma  vaquinha  nova  da  mana  Bernarda,  chamada Bem Feita, que tinha perdido a primeira cria.

− Daí?

− Daí... Mas porém o melhor é contar o que assucedeu desde o princípio, tim-tim por  tim-tim.

“A cria da Bem Feita (que, por sinal, era um bezerro lindo!), morreu picada de cobra.  Não se pôde saber onde se deu o acontecimento da mordida, pra campear e matar a cobra. Do  que  logo  se  tratou  foi  de  aporveitar  o  leite  da  novilha,  que  era  bastante  e  bom.  Dois,  três,  quatro dias, correu tudo em rumo certo: de manhã e de tarde ela aparecia por si mesma aqui  no canto, pra comer sua ração de milho e deixar meio balde de leite...

− Comia ração de milho, aqui no Capivari?

− Intão? Uma vaca de Querubino ou de mana Bernarda não havéra de comer ração de  milho? Você ‘tá fazendo galhofa, Tararé!

“No quinto dia a Bem Feita não veio de manhã, nem veio no sexto, nem no resto da  sumana: apontava p’r aí já despois do café, com jeito que parecia de envergonhada, e c’o peito  murcho  a  conta  inteira.  A  gente  perguntava,  uns  pros  outros,  admirada  e  espantada:  o  que  será? O que não será? E ninguém sabia de nada, pra dar reposta que valesse.

“De tarde, na hora da ração, o leite da novilha não rendia nada. Adonde é que rodava  aquele leite, quando se ‘tava bem vendo que ela não escondia nem não negava? Quem deu no  vinte, a final de contas, foi a própria mana Bernarda, ‘maginando e dizendo que naquilo havia  capiangage’. Peguemo’ a reparar nas idas e vindas da Bem Feita, entre meio do dia, e nada.  Fiquemo’  de  espreita  no  fechar  da  tarde,  que  era  quando  ela  quaji  galopeava  pra  aqui,  percurando a segunda ração, e nada. Resolvemo’, à vista dos autos, que eu fizesse uma ronda  cedinho, desde a premeira ruiva da madrugada, ante’ da vaquinha levantar da cancha. E o que  eu fui descobrir me deixou c’uma boca deste tamanho!

“Mal e malzinho que principiava o raiar, ela trepava p’r o morro acima, parava no  cupim,  encostava  no  cupim  e  berrava  que  era  uma  beleza.  A  urutu  vinha-se  arrastando  de  carreira, no mesmo sofragante, espichava o corpo cupim arriba, grudava a boca na maminha  mais cheia, esvaziava aquela, ‘garrava a chupar a outra, e ansim por diante. Quando a urutu  escorregava inté a grama, dando por acabada a mamação, a Bem Feita abaixava a cabeça pra  tal grama atoa que vocês ‘tão vendo, e levava uma temporada louca passando a língua naquele  pasto matado”.

− E daí?

−  Daí  me  perparei  co’a  minha  espingarda  baluda,  no  outro  raiar  carquei  fogo  na  cacunda da urutu, vim s’imbora pra casa c’o meu coração aliviado. Você ‘mó’ que também ‘tá  fazendo galhofa, João Vermelho?

− Não, Querubino: ‘tou querendo é só preguntar se a vaquinha não mandou dar parte  de você pro delegado. Em todo causo, veja que bato a mão dereita neste portal da sua casa...

− Você ‘tá duvidando? E você, Tararé, o que é que pertende co’essa risada que não  tem ânimo de abrir?

−  Eu,  nada.  Mas  porém  quero  que  você  veja  que  eu  bato  a  maão  dereita  no  outro  portal da sua casa...

O Querubino ia-se enfarruscando. Mas lembrou-se de que estava no seu e convidara  os dois vizinhos a chegar. Achou de melhor partido fazer como quem não vê ou, quando vê,  não ouve. E foi além:

− Pois intão agora vocês vão ouvir uma história mais importante do que essa. Não  querendo aquerditar, vocês podem ir apôs de prima Custódia, que mora aí perto, na Lagoinha,  e poderá dizer se eu aumento ou ejagéro alguma coisa. O Sá é melhor testemunha ainda.

“Prima Custódia, vivia muito agoniada, de certo tempo pra cá, por ver que o único  filho que Deus lhe deu, e que já ia compretando os cincos meses, cada vez esmagrecia mais. O  marido (pobre do Sá!) andava de curandeiro pra curandeiro, tinha inté levado a criança na casa  de um doutor afamado que só faltava fazer milagres: o doutor lhe disse que o pequeno não  tinha doença, ‘tava só padecendo fome, e receitou caldo de laranja e banana assada, pra ajudar  o  seio da mãe.

“Ora  aquilo não deixou de espantar  a  gente. Pois se prima Custódia era  mulher de  saúde, comia bem e punha o peito na boca do menino, a bem dizer, toda hora, como podia lá  ser que o menino vivesse esganado? Mas porém a gente via, ‘o mesmo tempo, que sempre a  criança largava do peito chorando e só assossegava c’um paninho açucarado na língua.

“Um  dia  que  o  Sá  não pôde  ir  serrar  no  mato  p’r  amór  de  a  chuva,  ‘tava  em  casa  fabricando um pio de nambuguaçu95, quando da cumieira caiu um embrulho no chão da sala.
O Sá pasmou de ver que o embrulho era uma jararaca; virou os olhos pra um lado e pra outro,  e o que achou mais à mão foi uma foice que tinha acabado de encabar. Deu um golpe c’a foice   no meio da jararaca, a jararaca partiu-se em dois pedaços, e de cada pedaço correu leite que  embranqueceu a sala de fora a fora.

“Ficou-se intão sabendo que a cobra mamava na prima Custódia, enquanto ela ‘tava  dormindo (e o sono de prima Custódia inda é pesado inté hoje), razão pela qual o Sazinho não  ia pra diante. Liquidada a cobra, o Sazinho pegou a engordar e não parou: agora, com perto de  onze meses, ‘tá um bicho! Paga a pena ver o Sazinho!”

O João Vermelho e o Tararé perderam a reverência, guaiaram duas gargalhadas de  botar o mundo abaixo. Antes, porém, que viesse o mundo abaixo, saiu-se o Tararé com uma  barbaridade:

− Já vi contada essa história mais bem contada, seo Querubino, você me discurpe.  Pra engambelar o inocente, e dar a perceber que era bico de peito o que ia indo, a cobra lhe  empurrava o rabinho na boca... Vira, mexe, você pregou na gente o segundo 1º de abril, duma  vezada só. Abastava o da Bem Feita, este agora esparramou que nem água de ladrão. E olhe:  entra também num portal da sua casa...

Quando  o  Tararé  bateu  a  palmada  no  portal,  não  teve  freio  nem  buçal  a  fúria  do  Querubino:

− Você, pra quem o 1º de abril principia no Ano Bom e arremata depois do Natal,  pensa que os outros são da sua iguala? Pra muita gente, nunca não hai na vida nem um dia de  mentirage’, a verdade se tem de dizer todo dia, haja o que houver: eu sou de gente ansim.

Em tom de zombaria, mas sem dúvida com prudência, o João Vermelho pôs água na  fervura:

− Bamo’ dar aqui o chega. Isto não é assunto que mereça faca e revorve’!

Despedidas meio secas. O Querubino não era queimador de campo, não gostou que  lhe tomassem por inventadas aquelas duas coisas: tinha amarrado um burro, deixou o burro  amarrado. Mas, de repente, caiu em si:

− Por via de bicho ruim, como é cobra, hei de ficar político, daqui pra diante, co’estes  dois desmiolados?

Os dois desmiolados já  iam dobrar o  cotovelo da estrada  real, e ouviram a voz do  Querubino,  levada  longe  e  mais  grossa  porque  saía  de  uma  boca  escondida  na  concha  das  mãos:

− Pra trás, Vermelho! Pra trás, Tararé! Venham beber o café mofado que eu tenho  agora:  e  um  dia  na  vida  vocês  hão  de  ter  visto  o  que  é  café  torrado  por  mana  Bernarda  e  bebido em tigela de pombinho!


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Nota:
Valdomiro Silveira: "Mucufos" (1894-1905). Versão ortográfica do  apógrafo  de  Carmen  Lydia  de Souza  Dias, in: Alexandre de Oliveira Barbosa: "Edição anotada de Mucufos, coletânea de contos inédita de Valdomiro Silveira", da Universidade de São Paulo, 2007  

Valdomiro Silveira: "Na Beirada do Taimbé"

NA BEIRADA DO TAIMBÉ 

− Venha cá, nhá Candota: perciso de conversar com você como quem percisa de água  pra matar uma bruta sede. Faz muitos dias que a gente se vê só de longe, e acho eu que o perto  é  melhor  e  de  mais  fácil  acomodação  pra  se  entenderem  duas  pessoas  da   nossa  qualidade.  Escuite bem escuitado o que lhe vou dizer e me dê sua reposta já, ou logo, ou no vagar que  quiser.

De tal jeito, com palavras maneirosas e voz sossegada, o Zé Missia estava fazendo  chão  para  uma  planta  que  era  o  seu  lindo  sonho  de  anos  e  anos.  Anos  e  anos!  Resoluto  e  constante, afinal topara em nhá Candota, quando não tinha mais o direito de se gabar de moço,  a beleza, a graça e as melhores qualidades de uma boa companheira diante dos homens e de  Deus. E cubiçava-a para si...

Quarentão, mas desempenado, de tamanho do meio, mas carnudo e enxuto, firme no  andar e nas ações, costumava afirmar a quem o ouvia:

− Minha verdade é que nem a cana do meu punho – uma só. Hão de custar a trocer o  meu braço, a minha verdade é que ninguém será capaz de trocer!

Não  exagerava  nada:  sempre  foi  forçudo  e  verdadeiro.  Quase  menino  ainda,  socou  centenas e centenas de taipa, a cruzado por metro. Crescendo na idade e na sustância, torou e  rachou muito pau no mato, fez muita cerca de madeira e muito cocho, em roças e invernadas.  Desde que perdeu a voz de frango e mereceu mais atenção e respeito, começou a empreitar  serviços  de  todas  as  cores  e  qualidades:  o  feitio  de  uma  casa  de  pau-a-pique,  derrubada  de  tantos ou tantos alqueires, queimadas, destocamentos, plantações e colheitas. Antes de chegar  aos trinta anos, já tinha uma caixa de couro com fechadura de segredo e, dentro da caixa, um  pacotão de notas graúdas. Lá veio dia em que pegou nas tais notas, comprou o sítio de fulano  Borge  por  pouco  mais  de  nada,  criação  de  pêlo  e  pena,  carros  e  caçambas;  arranjou,  de  pancada, tudo quanto se quer no aviamento da lavoura, oito juntas de bois brasinos, que eram  uma boniteza, e até cavalo de figuração, grande e baio-camurça, que deu panca e fez barulho  nas cercanias.

Foi seu maior empenho, sempre e sempre, não deixar de cumprir promessa alguma.  Andavam  por  isso  de  boca  em  boca,  afora  outros  fatos  miúdos,  dois  de  espavento,  que  ele  gostava  de  ver  lembrados.  Certa  vez,  tendo  uma  partida  de  arroz  novo  para  vender,  fechou  negócio com o Xavierzinho por um conto e duzentos; sabedor disso, veio o Salustiano e lhe  ofereceu um conto e quinhentos: ele respondeu que já não tinha mais o arroz, porque o trato  estava feito com outro e só  faltava a troca do dinheiro pelo artigo. Noutra ocasião, deu o sim  de soltar uma casa, que possuía no lugar mais afastado da vila, por cem de cem ao Nato; não  havia  escrito,  era  tudo  conversado  só  de  beiço:  pois  apareceu  outro  pretendente,  o  Maneco   Reis,  que  pagava  doze  contos,  ele  não  se  entusiasmou  nem  ficou  murcho,  e  sustentou  a  combinação dos dez.

Embora não o tomasse a inchação da vaidade, pegava algumas veezs em si, pesava-se  por dentro e acabava decidindo que era um bom partido para nhá Candota. Atreveu-se até a  apalpar  o  assunto,  quando  saíam  da  missa,  num  domingo  de  Ramos;  o  povaréu  mexia-se  desajeitadamente  por  todo  o  largo  da  igreja,  nhá  Candota  distraía-se  com  facilidade,  e  ele  malhou  em  ferro  frio.  Não  perdia  vaza,  porém:  na  mais  pequena  aberta  de  conversação,  quando estavam apartados dos outros, encartava a sua bisca, e uma por uma fazia declarações  corteses, mas decididas. Nunca pôde ir muito adiante: aquele namoro parece que tinha uruca.

Seguiam  as  coisas  mau  rumo  agora.  A  vila  de  São  Simão  inteira  sabia  que  nhá  Candota  andava  conversando  com  um  tal  Chico  Peão,  sujeito  que  principiou  a  ser  visto  de  repente, da noite para o dia, e que não trouxera apresentação para ninguém. De peão não tinha  nada, como ele mesmo confessava: o apelido lhe viera do pai, que da infância à velhice lidou  com  animais,  e  de  quem  nada  mais  recebera  senão  o  apelido.  Mais  tarde  o  município  todo  entrou na certeza de que ele não mentia um pingo, quando contava aquilo...

O  Zé  Missia  atormentou-se.  Deu  de  espreitar  nhá  Candota,  por  aqui,  por  ali  e  por  acolá, de manhã e de tarde, na intenção de esvaziar o espírito e aliviar o coração. Jurou a si  mesmo, por segurança, que acabaria propondo o casamento, fosse lá como fosse. Um belo dia  cercou-lhe a passagem, como quem não queria estorvar, e só então pôde falar-lhe mais isto e  mais aquilo:

− Esse Chico Peão, nhá Candota, é home’ que tem estampa e nada amais. Arrebentou  de supetão na vila, trazendo animais e qualidade, arreios caros e um camarada sagaz  como  quê. Ninguém não sabe quem é semelhante home’, que o único trabalho que tem feito é jogar  carteado com os dinheirosos desta terra. Vejo dizer, mas de carregação, que dito cujo é ladrão  de cavalos e andou fazendo suas últimas façanhas lá pros confins do Carmo da Franca. Isso  vejo  dizer.  Pode  que  seje  errado:  não  quero  ter  contra  a  minha  alma  um  falso  testemunho  levantado do pé pra mão. Mas contanto que não hai filho de Deus que de tal Chico Peão possa  dar notícia branca ou preta!

Nhá  Candota,  moça  de  boa  tenência,  que  era  o  bate-enxuga  na  casa  dos  pais,  trabalhadeira  e  de  poucas  falas,  prestava  a  melhor  atenção  ao  Zé  Missia.  E  o  Zé  Missia,  ganhando  maior  coragem,  pegou  a  encarreirar  os  encartes  que  imaginara.  Aproveitou  a  ocasião o mais que pôde; principiou a dar uma no cravo e duas na ferradura:

− Você é capaz de formar uma idéia da vida que o Chico Peão lhe perpara, se vier a  casar com você? Tendo inté hoje vivido em casa de pai e mãe, na fartura e na paz, porque a  sua gente, e você mesma, veve do trabalho e no trabalho, você imagina que tudo correrá como  inté  hoje? Pois  olhe,  nhá  Candota:  eu  não  intimo  c’as  minhas  propriadades  nem  c’os  meus  haveres, mas você sabe muito bem que o meu sitinho não deve nada pra ninguém, é rendoso,  tem boas águas e  caminhos cuidados. Você sabe muito bem, além disso, que eu faço meus  negócios por fora e tenho botado de banda meia dúzia de patacas. E você sabe muito bem que  pissuí,  de  poucos  meses  pra  cá,  um  chãozinho  na  cacunda  do  Tijuco  Preto:  são  quinhentos  alqueires, num pedaço de mundo em que o pé de café, quando se encóva de esquadro, chora  por não ter mais espaço e lugar pra onde estender os braços e abrir as saias...

Nhá Candota não deixou de impressionar-se. Então havia terra, no mundo, em que o  cafeeiro crescia tanto que chegava a querer ir mais longe que o vizinho? Se os de São Simão,  do lado da serra, nas manchas de terra vermelha, já eram de admirar logo adiante dos campos  e cerrados, encorpando com toda a força, então de que vulto e maneira não seriam aqueles do  sertão? O Zé Missia atava o nó:  

− O que eu tenho, no fim das contas, não é meu, nhá Candota: será seu e já é seu,  porque eu tenho fá em Deus que você me vai aceitar pra marido. Não vai?

Ela virou-se para outro lado, por instantes, como querendo ouvir melhor o cacarejo  fino e reiterado de um joão-de-barro que conversava com a companheira, no galho mais alto  do cinzeiro próximo. As mesuras que o joão-de-barro e a companheira faziam com as asas,  cessaram logo: nhá Candota foi obrigada a voltar-se para o Zé Missia. Deste Zé Missia, afinal,  todos gostavam: o pai, a mãe, os irmãos e a caboclada. Ao passo que só ela, “que não valia  uma  pitada  de  rapé”,  só  ela  gostava  do  Chico  Peão!  E  as  últimas  notícias  que  lhe  haviam  chegado nem eram das melhores: à vista de certas ligeirezas de mão que o tal mostrara, da  teima com que algumas cartas só enveredavam para ele, e de pequeninas unhadas que se viam  noutras cartas, o delegado mandara chamá-lo e lhe dera dois dias para sumir da vila.   

O Zé Missia entrara em rumo diferente:

−  Nhá  Candota,  você  ‘tá  mas  é  na  beirada  do  taimbé92.  Não  hai  nada  que  lhe  sirva de segurança ou de valência, nessa parage’, se você não se forra fugindo do perigo.  A  pedra  é  uma  só,  muito  lisa,  sem  cotovelo’  nem  lajedo’  pros  cantos,  porque  não  tem  canto  nem  um.  Se  você  resbala  e  perde  o  pé,  não  hai  como  não  rode  pro  tombador abaixo e não vá direitinho inté o fundo do boqueirão. Não tem aí grama nem carqueja,  que  já  por  si  não  serve’  de  nada,  num  artigo  desses,  pra  você  pôr  a  mão  e  ‘o  menos  demorar  um  quarto  de  minuto  a  fúria  da  caída.  No  meio  do  percipício,  você  já  nem  é  mais  nhá  Candota,  é  um  pobre  corpo  sem  alma  que  vai  rolando  e  rolando  pro  purgatório...

Reforçou aquele discurso de pavor:

− Você ‘tá vendo o rebeirão do Tamanduá, lá em baixo, feito uma fita que num  ponto se esconde e noutro se amostra de repente, não é? Co’a seca braba que tem havido,  ele parece que se estrafega de reiva em cada volta e grita que nem um desesperado na  rasoura  das  tupavas.  O  rumor  do  rebeirão  inté  assusta,  e  você  daqui  nem  ‘tá  sentindo  nada,  não  é?  Pois  também,  quando  a  gente  cai  no  fundo  de  um  taimbé  desgrenhado,  ninguém não ouve nem não acode...

Despediu-se:

−  Nhá  Candota,  por  tudo  quanto  você  estima  no  mundo,  largue  mão  do  Chico  Peão! Se você não se aprecata e não arrecua em tempo, aquele anhanga é o seu taimbé!

Mas  no dia seguinte,  por volta das  oito  da manhã, vieram  contar  ao Zé  Missia  que  nhá  Candota,  em  companhia  do  Chico  Peão,  tinha  atravessado  o  Tamanduá  no  clarear.  Ele  saiu  de  si,  buscou  o  encosto  de  um  moirão  largado,  e  só  entendeu,  da  conversa que se acendeu cada vez mais em roda do moirão, uma ou duas coisas:

− Pra onde é que aquele desgracionado vai levando a santinha?

− Pro mundo...


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Nota:
Valdomiro Silveira: "Mucufos" (1894-1905). Versão ortográfica do  apógrafo  de  Carmen  Lydia  de Souza  Dias, in: Alexandre de Oliveira Barbosa: "Edição anotada de Mucufos, coletânea de contos inédita de Valdomiro Silveira", da Universidade de São Paulo, 2007  

Valdomiro Silveira: "Moça do Fandango"

MOÇA DO FANDANGO

Na bocaina do campo, já perto da mata, é que o Armando foi alcançado pela Rosinha.  Voltou-se, admirado, e sentiu logo um baque no coração, vendo-a toda demudada de feições,  com os olhos a chamejarem e um grande rubor de fúria nas lindas faces cor de rosa.

Não foi preciso dizer-lhe nada. Ela tentou compor os cabelos da testa, que o vento  desvairava,  como  a  fúria  lhe  desvairava  a  expressão  do  olhar,  e  falou-lhe  apressada,  entre  hesitações de gagueira nervosa e repentinos chuviscos de lágrimas:

− Adonde é que você vai p’r este caminho? Nem percisa arresponder, que a reposta  eu bem vejo naquela volta, pra arriba dos araticuns! Você assentou, duma vez, de me fazer de  chá de canela p’r amór de uma bugra à toa? Já ‘tá cansado de mim, quer-me apinchar pra uma  banda?

O Armando entrou a sossegá-la:

− Mas, Rosinha, que maluquice antão é essa? Pois a estrada não é pública? Antão eu  não posso trocar um carreiro, só porque sea Fulana ou sea Beltrana assiste naquele chão? Vou  pra cidade, vou com pressa, não tenho tempo de ‘tar escolhendo estrada.

− E garra logo a estrada mais comprida? É ansim que você ‘tá com pressa? Pois olhe:  não tenha tanta; quem vai devagar é que chega mais cedo.

− Rosinha, eu tenho sido um poço de paciência, não posso mais. Você me traz num  langará dos dianhos a troco desta ciumeira desatinada! Agora pega a falar nûa moça que eu  nem sei se é gorda ou se é magra, se é bonita ou se é feia. E eu hei de aturar de boca fechada  um desespero de vida ansim? Nem que eu não tivesse um pingo de vergonha...

− É, você tem rezão, tem sempre rezão. A coitada de mim que fique encantoada em  casa, chorando por seu respeito, passando amarguras velhas, enquanto o meu senhor dão vai  viver umas horas arregaladas c’a chavantinha chimbeva!

Houve, no rosto do Armando, uma grande movimentação de impaciência. Como um  arapaçu, que andava a trepar ligeiramente pelo tronco rugoso de uma sucupira, garganteasse,  de alegre, ao saltar para o entrecruzamento dos galhos, onde ferviam cupins em arranjos de  casa, o Armando olhou-o, como se nunca houvesse visto semelhante pássaro. Pacificou-se:

 − Isso não é verdade, meu bem. Você não aprova que eu tenha feito pó na porta da  Gabriela. Isso é pura canelage!

A Rosinha passou a manga direita nos olhos alagados de pranto:

− Mas já me tenham dito que você gosta da trigueira, e você pra mim não tem mesmo  muito  créito,  porque  olha  pra  uma  e  pra  outra,  volta  e  meia,  como  quem  quer  a  china  e  a  descascada, a guarapuava e a Nanica, e redondinha e a espigada...

− E eu é que tenho obrigação de agüentar o que você me quiser dizer, desaforos de  todo o porte, xingamentos e malcriações, como se eu fizesse algum crime contra você? Donde  foi que você me veio, sea Rosinha: foi do céu ou foi do inferno?

− Foi do inferno... Isso foi!

Ela sentou-se num solais do caminho. Os cajueiros e as pitangas em flor, ficando-lhe  sobranceiros,  cobriam-na  de  uma  brancura  de  sonho.  E  foi  quase  recostada  entre  as  hastes  frágeis, que a Rosinha, toda arquejante e cheia de arrepios pelo corpo formoso e pequenino,  começou a soluçar.

O Armando, agora, contemplava-a. Tinha-lhe pena. Se lhe pudesse ter amor! Quando  foi  embrandecendo  a  tempestade  de  choro,  ele  chegou  a  preparar-lhe,  como  quem  prepara  uma cama leve e cheirosa, frases de carícia e de mimo. Mas a Rosinha ergueu o rosto.

−  Eu  era  ruim,  não  era,  Armando?  Eu  ‘tava  na  desgraceira?  Mas  antão  não  fiquei  boa? Se eu já fui diabo e agora sou santo, você não devera de me dizer uma palavra tão doída,  que me corta ansim o meu coiração! Eu não era mesmo boa, mas tive amor por você, salvei-me dos meus pecados, caindo nos seus braços e querendo ser tudo que é direito no mundo, só  porque lhe quero bem!

Ainda lhe vinham soluços. Venceu-os, porém:

− Você não tem medo de Deus, Armando? Não acha que é falta de piadade largar à  toa ûa mulher que se arrependeu de seus passados como quem se arrepende da morte? Olhe,  Armando: não vá p’r esse caminho, de caridade, que isso me faz um desespero no fundo da  minh’alma!

− Ora isso vou: pois eu hei de agora trocer meu rumo por causa de uma libuzia sem  pé nem cabeça? Vou.

− Vá, pois vá! Você bem sabe o que faz...

Ele pôs-se a caminho, a toda a pressa. Não tornou para vê-la. Não quis ouvi-la mais.  O cheiro vivo das gabirobas atordoava-o, fazia-lhe uma quase vertigem o zumbir desordenado  das mamangavas e dos inchus errantes.

( −... Vá, que você nunca mais não me há de fazer outra, marvado!)

E um monótono grasnar de caracarás, perseguidos pela passarinhada miúda, pouco a  pouco o afastava de toda a lembrança destas coisas, para desejos novos, para alegrias novas,  para esperanças novas.

Quando chegou, entretanto, ao fim da grande reta onde a estrada se partia, voltou-se.  A Rosinha sumira-se. Ao longe, bem ao longe, em toda a extensão percorrida, para trás donde  a deixara, ninguém. Nem a poeira, que anuncia ou trai uma vinda ou uma retirada, pairava no  ar...

Torou  então  a  moita  de  capoeiras.  Apenas  um  leve  rasto  acusava  a  passagem  da  moça.  Seguindo-o,  internou-se  algumas  braças  na  frescura  da  mata.  Viu-a  logo  de  longe,  ajoelhada. Chegou-se-lhe diante: viu que pedia de um laço de cipó-cambira trançado à pressa,  e toda se arroxeava no começo do estrangulamento. Cortou-o de repente: e o corpo, entregue a  si mesmo, caiu entre as folhas tenras de uma samambaínha nova.

O Armando, a agitá-la, a sacudi-la revocando-a à vida, murmurava ansiado:

− Ah! Senhor Deus do céu! Que ûa mulher ansim é um perigo! Inda quando a gente  quer bem...

Lá  se  foi  ela,  um  dia,  muito  triste,  a  cavalo  e  com  dois  camaradas  e  com  animais  adestros, muito bem tratada, e cheia de esperança porque ia esperá-lo em outra terra, onde não  morasse a Gabriela, nem outra igual que lhe fizesse sombra e lh’o tirasse.

Ia desaparecendo na dobrada do morro, e o Armando falou pra quem o quis ouvir:  

− Não  é mesmo? O que é que  a  gente há de fazer, senão mandar s’embora pra ûa  mulher do fandango?

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Nota:
Valdomiro Silveira: "Mucufos" (1894-1905). Versão ortográfica do  apógrafo  de  Carmen  Lydia  de Souza  Dias, in: Alexandre de Oliveira Barbosa: "Edição anotada de Mucufos, coletânea de contos inédita de Valdomiro Silveira", da Universidade de São Paulo, 2007  

Valdomiro Silveira: "Paixão de Raiz"

PAIXÃO DE RAIZ

−  Aquilo  é  que  era  mulher  (dizia  o  Agostinho,  do  Mandaguari):  nem  bem  o  dia   clareava, já lá ia pro terreiro tratar das galinhas e do resto da criação. Dormia comigo na cama,  e amanhecia c’os porcos no chiqueiro! Muitas vezes, quando eu acordava,  e o sol ainda se via  a uma altura pequena, já o café ‘tava pronto, a casa varrida e o feijão no fogo. Aquilo é que  era mulher!

Foi realmente  grande perda, a morte de nhá Gertrude: quem a conheceu, há de até  hoje repetir que era de dar tristeza um acontecimento assim. Apesar de terem já passado uns  três  anos,  o  pessoal  do  Mandaguari  ainda  a  pranteava.  Nhá  Gertrude  deixou  umas  quatro dúzias de comadres esparramadas pelo mundo: umas que a procuravam meio às escondidas, pra lhe pedirem que batizasse o pobre dum anjinho que não tinha pai; outras, que mandavam  os  filhos  já  viçosos  à  casa  dela  dizer  que  a  queriam  por  madrinha:  outras,  afinal,  que  propunham no meio duma conversa, como se visse por acaso de talho:

− E não é que nhá Gertrude bem podia levar o meu caçula pra pia?

Ora se levava, isso nem havia dúvida! Pois porque é que não havia então de levar? 

Uma  coisa  tão  fácil  que  nem  mudar  uma  palha!  E  as  mães  das  crianças  ficavam  muito  satisfeitas, muito alegres: esta nhá Gertrude era deveras uma alma de santa! No seu coração  batia decerto um pouquinho do coração de Nossa Senhora!

E  pra  dar  esmolas?  Parece  que  trabalhava  só  pro  gosto  de  no  domingo  repartir  as  economias com os pobres que viajavam pelo sítio. Até aí por volta das duas da tarde, quem  chegasse ia servido dalgum dinheiro, tão certo como três e dois serem cinco. Depois, o cobre  ficava vasqueiro e por fim sumia, que ela também não era uma ricaça. Mas nunca foi capaz de  cantar pra um pedinte: − Vá-se com Deus , agora não se tem! – Nunca! Dava-lhe então de  comer, dava-lhe qualquer peça de roupa, dava-lhe quitandas, dava-lhe caninha. Ninguém saía  descontente.

Boca  abençoada  era  a  da  nhá  Gertrude.  Não  falava  da  vida  alheia,  quando  a  murmuração  era  coisa  bem  correntia  até,  nos  costumes  da  vizinhança!  Se  estavam  tosando uma pessoa ausente, ela barganhava de conversa tão logo, que os maldizentes estuporavam de  vexame. Morder na honra das famílias foi malvadez que nunca ninguém conseguiu perto dela,  porque, se principiava o nhe-nhe-nhe, no mesmo instante ela recordava: − Olhe, seu fulano,  que vancê tem mulher e tem filhas! Ninguém ‘tá livre dûa mal-falada! – E o tal sujeito ficava  na embatucação.

Pois  bem:  morreu...  Está  morta:  o  que  se  há  de  fazer?  Quem  pode  tudo  assim  determinou:  resta  que  a  gente  se  conforme  com  as  vontades  de  quem  pode  tudo,  principalmente porque não há outro caminho a seguir. Pra que tamanhas lamentações, agora?  Diz que o chorar alivia, e é certo, mas o queixar-se e o lamuriar é que não adianta nada. Que  rumor então era esse que o Agostinho andava levantando, volta e meia, com dizer que aquilo é  que era mulher? Glória a Deus nas alturas, e paz aos homens e às mulheres que estão na terra  e debaixo da terra! Por estas falas, mais ou menos, é que o Rodrigo aplacava as choradeiras do  Agostinho, todo santo dia.

E o Agostinho não arredava pé daquele triste costume. Se lhe contavam que a porca  de um tal tinha parido tantos leitões, que eram muito bonitos, ele recordava que nhá Gertrude,  pra cuidar duma barrigada de leitões, estava sozinha; se lhe noticiavam que a peste de gogo  deu na galinha carijó da filha mais moça, ele suspirava, dizendo, ato contínuo, que em vida de  sua defunta mulher nunca tinha acontecido isso no galinheiro do sítio, onde os cochos de pau-santo  viviam  então  sempre  cheinhos  d’água;  se  via  passar  a  égua  lobuna,  lembrava-se  na  mesma  hora  de  nhá  Gertrude  (não  haja  trocas  de  sentido!),  porque  nhá  Gertrude,  quando  montava  na  supradita  égua,  estava  satisfeita  que  nem  uma  santa  no  altar,  ainda  que  semelhança  seja  meia  hereje.  A  égua  saía  numa  guinilha  miúda  e  muito  engraçada  e  nhá  Gertrude ia só cambeando o corpo em riba dela! Ai! Tempo, tempo que não havia de voltar  mais!

Não lhe dissessem que dona Sicrana era boa, que dona Beltrana era decidida, porque  no mesmo repente ele contestava:

− Qual história! Qual nada! Como nhá Gertrude nunca há de vir outra a este vale de  lágrimas!

E pra provar que este vale de lágrimas é realmente de lágrimas, um punhado delas  corria  devagar  e  devagarzinho  por  aquelas  rugas  compridas,  que  se  tinham  formado  em  continuação  das  olheiras;  passava  a  cacunda  da  mão  direita  pra  enxugar  a  água  amarga,  e  fincava  o  olhar  em  qualquer  ponto  da  casa,  como  se  estivesse  querendo  ver  uma  coisa  que  ninguém via, com ânsia ecom desespero.

Mas apareceu-lhe um casamento. E quem não havia de ser a noiva? – a filha mais   cresçuda  do  próprio  Rodrigo,  uma  chibantona  e  tanto,  que  dava  sota  e  basto  nas  funções  daquele pedaço de mundo. O Rodrigo, quando lhe praticou em tal assunto, foi logo explicando  as coisas tim-tim por tim-tim, dando o nome aos bois, como dizia:

−  Você,  seo  Agostinho,  já  não  é  criança,  isso  é  verdade.  Com  certeza  já  anda  nos  corenta e cinco, pra mais, que não pra menos. Mas isto não osta: a Malvina também já não ‘tá  mais nos cueiros, é coisinha mais nova que a Antonia, e a Antonia, por ser simple, como você  sabe, não se pôde arranjar até agora, com vinte e oito que já tem. Pra você viver sozinho neste   canto, ‘tá aí o que não dá certo: um home, seja como for, percisa sempre duma companheira, e  companheira de virar e romper. Se você entender que a Malvina lhe serve, eu não contrario o  casamento.

Fez-se tudo em pouco tempo: o Agostinho foi-se acostumando a olhar pra noiva com  bons olhos, reparando-lhe nos modos desempenados e na prosa larga, e muito mais em certo  luxinho que a moça fazia nas sobrancelhas, quando parecia duvidar do que se lhe afirmava.  Era  uma  tentação!  Depois,  arrumadeira  da  vida:  sabia  moquear  um  peixe  como  ninguém,  serzir com todo o cuidado a meia mais puída, cortar e costurar, dar o melhor ponto a um arroz,  plantar e quebrar um milho com destreza, e até (ninguém nunca o tinha visto, mas era coisa  afirmada  de  certeza  pelo  Agostinho)  fazia  rendas  entusiasmadas,  como  essas  que  os  turcos  vendem com faixas de papel vermelho.

Moveu-se o bairro em peso, pra assistir ao casamento. Foram chamadas umas moças  dos Campos, as mais cumbas que havia no sertão pra dança da quadrilha, que não se sabia por  estes  mambembes;  veio  o  sanfonista  melhor  que  morava  na  vila,  pra  tocar  a  música  da  tal  dança; apareceu a rapaziada mais afiada pro fandango, e cada violeiro levado do sarro; não  faltou a negraria que esquenta os sambas por perto da Ilha Grande, e o maior tocador de caixa  dos arredores, o João Velho: e até, pra ficar tudo completo, mexeram da Onça uns homens que  inventaram agora um folguedo diferente, muito vagaroso e esquisito, a dança do corvo.

Lugar houvesse pra tanto povo! As moças dos campos de par a par c’uns rapazinhos  engravatados que também surgiram como por maravilha, encheram os olhos da gente da casa  e do bairro: dançaram depois umas rodadas, coisa de admirar! Um cantador do Capivara, que  pegava no pinho com maneiras muito macias, encarreou nada menos que uma dúzia de modas  desconhecidas;  cantou  algumas  pelengas  sentado,  fez  o  que  quis  da  viola  e  da  caipirada,  passarandagens  difíceis,  cada  sorte  de  assustar:  ponteava  que  era  um  encanto,  e  chegou  a  apresentar  certos  toques  que  nunca  se  tinham  ouvido,  com  batido  de  papilotes  na  caixa  do  instrumento e voz ensurdecida de cordas.

Não faltou nada bom na festança. O Rodrigo, que era um sujeito de melúria, jeitoso  como ele só, teve artes de justar um doutor na vila, pra fazer um discurso: e veio o doutor, e  fez  um  discurso  bem  arranjado,  gabando  o  mais  que  podia  o  noivo  e  a  noiva,  falando  em  felicidades  e  flores,  palavras  muito  bonitas  e  que  caíram  muito  direito  naquela  ocasião.  O  coreto que se cantou depois do discurso, esse então nem se fale! – foi de arripiar os cabelos: o   Agostinho, que é um homem de coração maneiro, como ele mesmo sempre conta, ficou até  c’os olhos cheios d’água.

A noiva estava numa puba em demasia: tinha vestido cor de rosa (diz que as noivas  agora  não  precisam  mais  trazer  vestido  branco),  uma  capela  grande  de  flores  de  laranjeira,  tanto das que vêm da loja como das apanhadas no pomar, uns brincos de ouro e lequinho de  penas também cor de rosa mais claro, sapatos de cetim, cheios de histórias... Uma boniteza!

O Agostinho, pra dizer que estava muito senhor dom, não estava: mas encomendou  roupas novas, botou-se todo na estica, de barba aparada e cabelo repartido no meio, c’um par  de  botinas  que  alumiava,  e,  no  peito  da  camisa,  dois  botões  de  brilhantes  tão  grandes,  que  pareciam aquelas últimas estrelas que se apagam quando o dia vem rompendo.

Chegou  a  hora  dos  noivos  se  acomodarem.  Mas  muito  tempo,  ainda  muito  tempo,  enquanto não clareou, o sapateado do fandango e o rufo louco da caixa bateu sem parar e em  cheio nas covancas e arrastou-se bem longe pelo embromado escuro das capoeiras.

O  Agostinho  não  esperou,  na  casa  do  sogro,  que  passassem  os  três  dias  de  hospedagem. Mandou logo cedo arrear a tropa. A neblina era grande, mas viu-se, daí a um  pouco, o primeiro raio de sol, como uma fina lança de fogo, atravessar a cerração: e ouvia-se  ainda a moda última do João Velho, na roda do samba, quando se levantou na estrada o rumor  da ferragem dos animais em marcha.

Ia  a  Malvina  montada  num  baio  açafranado,  um  cavalinho  marchador  e  faceiro,  manso como um cachorro e engraçado no pisar como não se achava outro na comitiva. 

A par c’o Agostinho caminhava um fulano Lope, seu compadre e amigo desde moço,  que lhe falava bem da Malvina e ao mesmo tempo lembrava as boas qualidades da defunta  Gertrude:

− Coiração delicado ‘tava ali, não hai dúvida mas contanto que sá Malvina também é  ûa moça às direitas. Já se vê que você que você tirou duas vezes a sorte grande!

Depois,  como  dobrassem  o  espigão  e  o  pendente  da  outra  banda  fosse  mais  forte,  agarrou o baio da Malvina uma andadura esquipada, muito bonita e doce, que fazia dançar  dum belo jeito o roupão da cavaleira. O Lope virou de conversa:

− Agora, falando um pouco de verdade, o Rodrigo não fez cainhage nem ridiqueza  c’a filha: aprontou-lhe uma rica festa, vestiu-a feito uma rainha, e ainda por cima de tudo lhe  dá de presente um cavalo daquele feitio! Bom cavalo, compadre, repare bem: é tocar-lhe um  pouco  na  rédea,  pega  num  picado  lindo  que  dá  gosto;  é  afrouxar  a  mão  outro  pouco  e  descansar-lhe  o  corpo  em  riba,  sai-se  desvirilhando  numa  balancinha  que  parece  uma  rede.  Não dá trabalho nem um, tem todo o preceito!

Mas o Agostinho ficara ainda em nhá Gertrude. E foi c’uma voz carregada de tristeza  que ele respondeu ao outro:

− Qual! Como a Gertrude não hai! Aquilo é que era mulher! 


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Nota:
Valdomiro Silveira: "Mucufos" (1894-1905). Versão ortográfica do  apógrafo  de  Carmen  Lydia  de Souza  Dias, in: Alexandre de Oliveira Barbosa: "Edição anotada de Mucufos, coletânea de contos inédita de Valdomiro Silveira", da Universidade de São Paulo, 2007   

Valdomiro Silveira: "Na Rua do Bosque"

NA RUA DO BOSQUE

Já  se  chamou  do  pito  aceso  aquela  rua,  e  não  foi  à  toa!  Nunca  se  viu  recanto  de cidade  onde  houvesse  gente  mais  levada  das  carepas,  que  ali.  Aos  domingos  e  dias  santos,  nem bem o folgazão do sol dava de iluminar a barra do céu, já por lá se reunia um povão de  caboclos, que nem formiga, virando para um lado e para outro, dizendo lérias às tiribas que  não faltavam naqueles cochicholos empinhocados, pintando a saracura.  De tudo se via então:  namoros descabelados com umas certas mocinhas que já estavam entre a igreja verdadeira e a  igreja verde; cumprimentos rasgados de uns tais a umas tais, que todas se requebravam, no  corpo  e  nos  olhos,  e  até,  para  que  se  representasse  também  o  trágico,  muitas  vezes  a  boca  esguia  de  uma  facada  golfava  sangue  aos  borbotões  pela  areia,  ou  desabrochava  de  uma  garrucha, que dantes ninguém tinha visto, a flor amarela e fumacenta de um tiro.

Navegava pelo bairro, sempre roncando valentia e pisando no ponche dos mais, um  fulano  Bernardes,  que  era  homem  de  más  entranhas,  a  julgar-se  pelo  que  fazia,  pelo  que  prometia e, principalmente, pela fulva expressão de ódio que lhe reviam os olhos, onde quer  que os fitasse: fulva se lhe tornava ela, ainda mais, porque os seus cabelos louros, anelados em  voltas longas, desciam-lhe até a meio da testa, emaranhados e revoltos. A voz era-lhe quase  um  rugido,  tanto  se  avezara  a  falar  por  monossílabos  aquele  demônio  desguaritado,  ao  que  então se dizia, de uma biboca qualquer do Rio Pardo, em que não havia com quem armar uma  briga que valesse a pena do esforço.

Ganharam-lhe medo os freqüentadores da rua. Quando o viam de longe, tratavam de  evitá-lo com cuidado, com maoir cuidado ainda em razão dos melindres que mostrava, pois  era corrente que uma vez, como um mineiro lhe fugisse, entrando de sopetão em casa da moça  que assistia perto do espraiado, ele tirou-o à força lá de dentro, sacudindo-o umas tantas vezes  em  plena  rua  e  ensinando-lhe  que  um  homem  não  deve  temer-se  de  outro  homem.  Se  se  armava algum cateretê, e o Bernardes surgia na função, ninguém queria servir-lhe de parceiro,  e fazia-se preciso que ele mesmo Bernardes saísse a campear um no meio da rapaziada.

Rosnavam  que  tinha  feito  ûa  morte  cá  para  os  lados  de  canoas,  além  da  divisa,  e  mudara  de  vida  de  repente,  passando  de  homem  de  tramas  a  boiadeiro,  deixando  crescer  a  barba,  pintando  o  cabelo  de  ruivo,  quase  de  fogo,  e  espontando  os  dentes  a  lima.  Boca  do  povo!

Mas ninguém não sabia que o Bernardes se chamava Chico Romão, não tinha mulher  nem famílias e era situante no Jaguari, perto do Cercadinho. Plantava sua cana, seu arroz, seu  milho, e ia vendê-los ao Guaçu, com um trabalho demasiado, principalmente quando subiu o  preço da pinga e o açúcar estava por empenho. Tinha tido uma soneira louca pela tal Maria  Nenê,  a  que  depois  deu  em  droga:  e  como  não  acharam  bom  o  casamento,  em  casa,  foi-se  ficando solteiro, pensando bem que é melhor a um triste arrastar sua vida sozinho pelo mundo,  que  juntar-lhe  a  pobre  coitada  dûa  moça  que  tem  todo  o  direito  de  achar  quem  lhe  queira  deveras, como ele Chico Romão quisera à Maria Nenê.

Vivia então com a mãe e a Venturosa, única irmã, linda que nem três dias de sol e  mais alegre que um periquito. Afez-se àquele viver sossegado, de animal que faz sua tarefa  todos os dias, do romper da madrugada ao cerrar da noite, e recolhe ao pouso, amolentado e  bambo. E haviam-se-lhe fechado as aspirações, uma por uma, no âmbito estreito da lavoura,   que desejava ver sempre areada e próspera, tal qual um bando de araguaris que emigra, num  grasnar esperançado, para muito ao longe, e volta mais tarde, entretanto, a habitar outra vez a  mata natal, donde já não anseia mais por sair porque viu lá fora o perigo, sentiu as privações,  as fomes, as sedes, as invernias e o terror.

Ora,  uma  vez,  como  viajasse  para  Santa  Cruz,  a  tratar  um  carro  de  bois  com  um  conhecido antigo e se demorasse uns três dias na viagem, achoou gente de menos, na volta: e  quem faltou foi a Venturosa. A mãe, com os peitos apertados pela raiva e pela dor, contou-lhe  que aquilo fôra coisa-feita, ao depois que o Sarapião escrevia pelo bairro, porque desde então  a moça não tivera mais sossego, acabando por fugir com ele. O Sarapião era um diabo. Deus   que nos perdoe! Viera desses mundos de terras que não se conhecem, e lidava nos empreitos.  Diziam que era casado, mas que largara a mulher sem mais nem menos, como quem larga um  gato ou um jaguariva numa casa desamparada. Boca do povo!

Nem  um  barulho,  nem  um  ameaço:  o  Chico  Romão  escutou  a  conversa  com  o  coração  em  tropel  desordenado,  mas  o  rosto  não  se  lhe  demudou,  nem  a  alma  perdeu  a  compostura.  Perguntou,  à  mãe  e  aos  vizinhos,  por  onde  seguira  o  Sarapião  e  a  Venturosa.  Ninguém podia responder ao certo, porque a fugição foi de noite, mas o rasto dos cavalos era  na estrada do Cocais, caminho de Casa Branca.

No dia seguinte o Chico Romão ensilhou o melhor cavalo que tinha, um chita veloz  feito um raio, e abriu-se. Virações p’r amór da lavoura, segundo todos disseram. E ficou por  isso.

Da  capela  para  diante  não  teve  mais  notícia  alguma  da  irmã  e  do  outro.  Em  uma  vendinha à beira da estrada, antes das mais casas da  povoação, soube que o Sarapião (aquele  jogador  de  vermelhinha,  foi  como  lhe  falaram)  tinha  passado  por  ali  a  cavalo,  dias  antes,  trazendo engarupada ûa moça bonita e tanto, descascadinha e de olhos espertos, alegre e viva  que parecia um feitiço. Não deu fé maior daquilo: fez que não se incomodava com semelhante  dito, deu a entender que a nova não lhe importava. Saiu da vendinha, andou corre-correndo as últimas casas das saídas do povoado: nada mais.

Resolveu ficar de espera no bairro do Senhor Menino, andar o mais que pudesse, até  um dia topar os dois fugitivos, e falava sempre consigo mesmo:

− Deixe estar, que aquele canhambora desavergonhado há de me pagar bem doído!

Chegou  esse  dia:  transpunha  a  porta  da  igreja  do  Rosário,  quando  viu  grande  ajuntamento  de  povo  nas  cercanias  da  cadeia,  em  roda  de  dois  homens  que  traziam,  aos  ombros e pendente ao comprido de um varal, um morto qualquer.

Acostumado aos solilóquios o Chico Romão pegou a perguntar de si para si:

- Que diabo de sinagoga será aquela, atromentando um defunto fresco? E esse pobre  coitado que vem no catiguá, que nem uma paca, que será, quem não será?

Foi-se  aproximando  do  grupo  a  ver  quem  era  o  matado  (com  certeza  haviam  feito  algum crime), e a primeira fisionomia que lhe bateu na vista foi a do próprio Sarapião, um dos  carregadores do corpo, que ia meio penso, de cansado, e suando em bica.

Começou o Chico Romão a tremer, a tremer, e por um triz não o agarrou logo ali,  cheio  de  fúria,  como  um  demente.  Mas  teve  mão  em  si,  esperou  que  todo  o  reboliço  esmorecesse, o auto fosse lavrado, e mais tarde, assim que o Sarapião deu de ir embora, o foi  acompanhando de longe, com toda a cautela, fingindo um passeio à toa.

O  Sarapião  caminhou  pouco:  enveredou  para  a  esquina  do  urias,  passou  a  casa  do  capitão  Vicente,  afundou-se  na  rua  da  Estalage.  Quando  chegou  a  uma  casa  pequenina,  de  janela de rótula, e bateu, quem lhe apareceu foi a Venturosa, já no meio desfeita a cabo de tão  poucos dias, com os olhos empapuçados de choro e os cabelos despenteados. O Chico Romão  bem que sentiu piedade, bem que teve ímpetos de voar à irmã, arrancá-la de tão triste morada:  mas  lembrou-se  da  traição  que  lhe  fizeram,  conteve-se.  Também  o  Sarapião  não  esquentou  lugar na casa, rompeu logo.

Caminhava  agora  para  o  lado  do  cemitério,  o  Chico  Romão  seguia-o  de  longe;  endireitou no rumo da igrejinha da Boa Morte, o Chico Romão lá ia feito uma sombra; fez  direção para a rua do Bosque, o Chico Romão não torceu nem uma linha. Entrou numa casa,  fechou a porta: e o silêncio da rua, quebrado a essa hora apenas pelo áspero ranger daquela  porta preguiçosa, reatou-se de novo, como uma grande tristeza de desamparo e de ruína. O  Chico  Romão  olhou  demoradamente  para  aquela  casa  quieta,  querendo  adivinhar  o  que  passava dentro, e depois, a afastar-se, murmurava escumando de raiva:

− Antão é aí que você mora, roubador de moça? Eu hei de lhe mostrar como é que o  urutu se vinga de quem um dia pisou na cacunda dele. Espere só!

O Sarapião não teve que esperar muito tempo.

Era  num  dia  primeiro  do  ano.  A  caipirada  repontara  dos  sítios,  desde  pela  manhãzinha,  e  a  cidade  estava  dura.  Havia  uma  congada  como  nunca,  de  creoulos  entusiasmados  e  cantadores  loucos  de  bons.  Assim  que  rompeu  a  alvorada,  já  se  ouviu  a  cantoria que vinha descendo da estação, arrastada e lângüida: 

“Senhor rei, bamos embora,
 ai!  
 Senhor rei, vamos embora!”

Cada congo era um brinco. Aparecia um, vestido de cetim e todo cheio de fitas, que  puxava  a  dança;  quando  proferia  as  últimas  palavras  do  verso  e  agitava  desabaladamente  o  adufe82,  viam-se-lhe  encher  os  olhos  de  água  e  a  boca  tremer  convulsa,  de  pura  comoção.  Outro,  que  todos  contavam  ter  fugido  de  uma  fazenda  do  norte  e  era  o  melhor  pulador  do  bando, não dava uma volta sem olhar para todos os lados, com os olhos sempre possuídos do  susto  selvagem.  E  um  se  notava  entre  os  mais  corpulentos  e  reforçado,  que  cantava  com  soberana soberbia, passando a todo instante a mão enorme sobre as plumas que lhe arfavam  festivamente  na  cabeça.  O  rei  congo  era  um  velho:  ficava  já  quase  imóvel  entre  os  companheiros, pensativo e cansado, talvez a cismar que  em breve a coroa teria de passar  a  outro, a um outro que ali estava, de olhar muito audaz a romper de um rosto esguio, e que,  como é costume entre os príncipes herdeiros, em todos os reinos, já mostrava sua ambição e  sua valentia nas mais pequenas conversas.

Quando  a  congada  chegou  à  rua  do  Bosque,  não  houve  mais  passagem  para  uma  criança que fosse: a grama das beiradas das casas ficou amassadinha? A bica por onde vinha a  água da chácara do capitão Vicente sumiu no meio do povo. A mulher do Sarapião, que era  uma  paranista  bonitona,  estava  à  porta  da  casa  e  olhava  a  congada,  junto  do  marido  e  dos  filhos: e todos tão entretidos, que ninguém viu a hora em que o Bernardes chegou a cavalo,  sabe Deus como! – em frente àquele povo. Logo que reconheceram, ficou a cangada quieta,  como por um milagre, e foi só o negralhão soberbo quem se afrontou a dizer:

− Bamo’ co’isso, que aqui não aconteceu nada!

Mas o Bernardes não tinha que ver com aquele prosa. Olhou-o, sacudiu os ombros.  Aproximou-se da porta do Sarapião, mirou-o e remirou-o bem, perguntou-lhe sufocado:

− Você me conhece, Sarapião? Não conhece, eu bem ‘tou vendo! Pois olhe: eu sou o  Chico Romão, aquele do Cercadinho, o irmão da Venturosa, que você tirou da casa da mãe e  ponhou nûa meiágua, lá pra esses fundos. Conhece agora? 

O Sarapião não respondia. E o Bernardes tomou-o pelo peito, falando rouco:

− Quem deve paga, Sarapião. Você paga hoje a conta velha. Como você não presta,  eu ‘tou sentindo, é a sua mulher que fecha as contas.

Aferrou  a  mulher  do  Sarapião  pelos  braços,  com  uma  força  sobre-humana.  Nada  valeram gritos e queixas, de nada serviu a defesa frouxa daqueles braços que se enfraqueciam  pelo terror. Não houve quem punisse por ela, nem quem dissesse coisa com coisa.

O Bernardes correu as esporas no chita, saiu pausado e rindo-se. Quando se alongava,  quando torcia a esquina que vai ao largo da boa morte, ouviu uma palavra dolorida e raiventa:

− Ai! A minha mulher é tão de bem, meu Deus de misericórdia!

Entreparou, voltou-se:

− A minha irmã também era boa, desgracionado!


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Nota:
Valdomiro Silveira: "Mucufos" (1894-1905). Versão ortográfica do  apógrafo  de  Carmen  Lydia  de Souza  Dias, in: Alexandre de Oliveira Barbosa: "Edição anotada de Mucufos, coletânea de contos inédita de Valdomiro Silveira", da Universidade de São Paulo, 2007   

Valdomiro Silveira: "Os Guaxes"

OS GUAXES

Naquele tempo o laranjal da Serrinha não estava no ermo, como agora, que não vale  uma  pitada  de  rapé:  tinha  bem  boa  casa  de  morada  pra  uma  banda,  perto  d’água,  criação  grande, e dali a pedaço, longe umas cem braças da casa, a gente via a roça de cinco alqueires,  onde os milhos já embonecravam, prometendo uma colheita e tanto. O ano era de fartura, lá  isso era, em todas as coisas, até nos próprios arvoredos do mato.

Foi  situante  no  lugar  um  tal  Chico  Marzulão,  sojeito  estimado  e  bem  visto  dos  vizinhos,  casado  c’ûa  mulher  das  melhores  deste  sertão,  não  desfazendo  nas  outras.  Mas  o  merecimento de mais porte que seu Chico tinha, pra dizer uma certeza certa, era ser pai da  moça mais chibante que se tem conhecido até hoje por aqui em roda. Nhá Lina se chamava  aquele  anjo,  segundo  o  esquisito  apelido  que  lhe  botou  o  Reimundo,  que  lhe  queria  tanto  como a sombra quer ao sol: porque, afinal, onde é que já se viu heresia assim, dar nome de  morador de céu pra uma criatura do mundo dos pecadores?

O Reimundo, que sempre foi um ventana pra vida, trabalhador que nem alimal (com  perdão da palavra), ficou embeiçado por ela, desde que a viu uma tarde, passando por ali e  pedindo por acauso uma xicra de café: ela, nhá Lina, trouxe o café em pessoa, enquanto a mãe  o hospedava, proseando co’ele, e o Reimundo sentiu-se logo quente das orelhas, e de olhos  turvos  como  quem  firma  a  vista  em  qualquer  luz  muito  forte.  Ela  era  destrocida,  não  se  avexava a dois arrancos: veio lá de fora, onde as mulheres são desembaraçadas como quê, e  também entrava direito na conversa, até rindo, quando chegava a casião.

Daí por diante, já se sabe, o Reimundo ‘garrou por ela um rabicho em demasiado: ê!  rabicho! Cortava na subida e na descida, e dava só aquelas ânsias! Percurou saber quem era a  moça, o pai e a mãe da  moça: colheu logo que o pai foi sempre dos que não admitem que  ninguém lhe pisasse no ponche; e a mãe, de respeito a conta inteira. Morava lá pros fundos da  Pedra  Branca,  e  pegou  a  tecer  pela  Serrinha,  fazendo  como  quem  vinha  pra  vila,  voltando  quaji em seguida, feito um andante de costume.

A princípio nhá Lina pouca atenção pôs no rapaz: mourejando todo o santo dia, ela  não tinha um pequeno tempo de seu pra bispar as pessoas que mexiam pela estrada; despois,  por  ele  às  vezes  parar  muitas  horas  nas  proximidades  da  casa,  c’uma  espingarda  troxada  a  tiracol, observou que tal parada devera de ser coisa: e, reparando que o tal senhor dão era bem  parecido,  pensou  o  que  pensam  as  da  mesma  idade  que  ela,  até  agora,  e  foi  ficando  triste,  como  reza  a  história,  até  reconhecer  consigo  mesma  que  se  ia  tornando  dele  de  tudo.  Sea  Maria Rita, ûa mulher de muito tino, que sabe da vida de meio mundo pra esses centros de  sítios todos, diz que é mesmo deste feitio que o diabo tenta os outros; ela, que diz, é porque  tem expriência, e a expriência é a mestra da vida: remate que põe sempre em suas prosas, e é  verdade.

O Reimundo achou lado de visitar a familiage de seu Chico Marzulão, com desculpa  de  ofrecer  ûas  marrãs  e  uns  capadetes  gordos:  chegou  à  porta,  preguntou  pelo  velho,  arengaram muitas horas, pechincharam de mais, e por fim tramaram uma berganha, soltando o  Reimundo dois capadetes por um poldro castanho redomão, que era uma pintura, de estampa  linda, cola e crina compostas, tábua do pescoço e ancas bem feitas, escanelado, ardoroso que  nem o demo. No sábado que veio, trouxe os porcos, tomou um café, mais um isto, mais um  aquilo, e foi-se embora no romper da lua, levando o cavalo adestro, e sentindo o rumor louco  do coração dentro do peito.

Passados meses, negócio vai, negócio vem, deu um vomitório pra mãe da namorada,  afim  de  ver  se  saía  ou  não  o  casamento:  a  velha  remancheou,  gaguejou,  fez  mesuras,  fez  rodeios, e ele contemplou-se despachado. Tem daqui, tem dali, achou de talho a nhá Lina, um  dia, e falou-lhe de vereda se queria ser a companheira dele: a nhá Lina arrespondeu que sim,  que queria, − era só pedir pro pai.

E agora.

Topou  no  outro  dia  com  o  Chico  perto  do  monjolo,  trançou  as  pernas  em  riba  do  selim, que a égua sabina em que estava montado era um cachorro, de mansa, e conduziu o  intento da conbersação até fazer o pedido. Seu Chico pode-se dizer que enfiou. Não: enfiar,  não enfiou, mas embatucou, que é quaji, tanto faz dá na cabeça, como na cabeça dá.

Vira,  mexe,  vira,  mexe,  acabou  seu  Chico  por  explicar  que  decerto  não  cabia  a  proposta,  não  havia  arrumação,  porque  a  moça  era  de  santo,  por  uma  promessa  que  ele  Marzulão e a dona fizeram, duma intendência que ela, menina ainda, se achou às portas da  morte, por via dum sarampo arrenegado.

E quem é de santo, não hai quem não saiba, tem sempre desastre na vida, e morre por  desastre.

O Reimundo, nem bem seo Chico lhe deu adeus, chegou os garfos à catirina, e saiu  ventando  pela  estrada  a  fora,  c’uma  zunideira  nos  ouvidos  e  um  peso  na  cabeça,  que  até  mostravam jeito de doença. Arrebentou na vila, quando menos esperava, navegou que nem um  mantecato pelas ruas, sem apear em parte alguma, e fez chão pelo escurecer, aborrido, já sem  altura.

Mas daí a uns par de dias, pilhando outra vez a nhá Lina de talho, foi-lhe fazendo  suas queixas e exclamações: e a nhá Lina, que pissuía um coração mole e vivia pendurado dos  olhos  dele,  jurou,  no  fim  de  contas,  que  havia  de  ter  toda  a  firmeza;  e  pediu-lhe  que  a  esperasse, com firmeza por igual, porque a gente deve de acreditar piamente no ditado: não  hai bem que sempre ature, nem mal que nunca se acabe.

Sea Maria Rita não é à toa que dá a entender que os namorados, quando chegam a  este ponto, vão descendo, descendo, de tentação em tentação, até ficaram c’um pé na terra e  outro  no  inferno.  Mas  qual,  seo  Maria!  Inferno  é  aqui  mesmo  na  terra:  pois  vassuncê  quer  maior pena e mais grande sofrimento que estar um pobre coitado c’a boca n’água e morrendo  à sede, ver uma canoa?

O  partido  conservador  estava  de  cima,  e  o  seo  Chico  Marzulão  era  um  chimango  peitudo. Os liberais cá do mato arreceberam cartas lá de baixo contando por notícia que mais  mês menos mês, o imperador ia chamá-los pro poder: de maneiras que as eleições desse tempo  iam ser brabas.

Assim que elas foram vesprando, o afamado Chico Dia mandou avisar aos daqui que  havia de trazer um ajutório que servisse direito; Marzulão, que era colega do Chico Dia, meio  irmão de criação dele, até, ficou entusiasmado, que gaguejava e chorava quando vnha de jeito  falar-se  na  subida  dos  seus.  E  chegou  muitas  vezes  a  bufar,  inchando  o  papo  que  nem  um  arurá assanhado.

− Deixe correr o aço, que esses saquaremas hão de ver de que pau é a canoa, quando  eu  tiver  voz  ativa  e  for  sobdelegado  aqui  no  distrito!  Esses  danados  cuidam  que  batuque  é  reza, imaginam que marimbau é gaita. Eles hão de encontrar forma pro pé!

Veio o falado dia. Regulando seis da manhã, ou pouco mais, a gente do Chico Dia  passou pelo alto das três ilhas. Cada qual dos caboclos trazia bandeirinha branca nûa mão e  bacamarte na outra, e garrucha dum lado da cintura, e faca do outro lado, − e caminhavam  alegres, numa pagodeira. O Chico Dia, amontado num saino de oito pés, ia na frente do povo:  e se porventura o saino queria descair na balança, relava-lhe no sofragante as chilenas pras  paletas  que era um regalo.

Seo Chico Marzulão, já de conchavo antigo, perparara a matula de noite, porque era  vindouro  na  terra  e  não  tinha  casa  pra  assistir  no  povoado.  Ao  clarear,  arreou  seu  macho,  esperto que era um raio, e foi-se encontrar co’a caboclada do Chico Dia na volta do caminho.  No instante em que rompeu juntico deles, como por um milagre, todo o povaréu gritou que  parecia uma demência:

− Aí, companheiro sacudido! C’uma parceirada em que tenha muitos desse calibre é  que os cascudos verão bóia! Viva o Marzulão! Fogo no Marzulão!

E  umas  par  de  garruchas  afloresceram  de  pólvora  queimada,  arriba  das  cabeças  de  todos. Aquilo eram salvas ao seo Chico e aviso à liberalada da vila: ouvidos os tiros, passada a  primeira  impressão,  houve  um  reboliço  pras  ruas,  que  não  acabava  mais,  e  só  asserenou  quando apareceu no alto, pra lá da igreja, aquele mundão de gente.

Êta! Eleições brabas! Até hoje são faladas!

Ora por essa casião as laranjas estavam que era uma calda, muito maduras e muito  doces.  E  no  laranjal  da  Serrinha,  pegado  c’o  quintal  de  seo  Chico  Marzulão,  juntava  uma  guaxaria  que  nem  se  podia  contar.  Mal  e  malzinho  que  apontava  o  sol,  já  se  ouviam  pela  capoeirama a fora os pios chupados e o rumor das asas de semelhantes pass’os. 

O Reimundo, logo que viu seo Chico passar o morro que ia acabar na estrada real,  veio devagar, encarapitado em sua sabina, c’o coração bate-que-bate, pedir pra nhá Supriana,  mulher do dito cujo, licença pra espichar fogo nos guaxes, que na certeza andavam gordos e  magníficos pra um arroz com tranqueira. Nhá Supriana, foi ele pedir, foi dar a licença: e o  freguês  torou  de  rumo  pro  laranjal,  que  era  aí  adiante,  pra  baixo,  na  virada  do  morrinho  lançante que verte pro córgo.

Daí a pouco os tiros principiaram, um em cima do outro, que não paravam mais: a  mó’ que a troxada só descansava enquanto ele puxava os aviamentos da mucuta e enchia os  dois  canos.  Nhá  Supriana,  ouvindo  tamanho  barulhão,  assustada  a  mais  não  poder,  poribiu  dois  crioulinhos,  que  brincavam  no  terreiro,  de  irem  pra  aquela  direção:  e  encafuou-se  no  quarto,  serzindo  ûas  meias  de  algodão,  sossegada  já,  por  pensar  que  nhá  Lina  andava  pra  cozinha, lidando co’as panelas, e não corria risco nem um.

Nhá Supriana, em seu trabalho, dava de cantar a vida inteira. Naquele dia como nos  outros, enquanto a agulha ia e vinha dum pedaço de algodão pra outro, saíam da boca da dona  aquelas  modinhas  cheias  de  saudade,  aquelas  modinhas  que  aprendeu  quando  era  frangota  ainda, cobiçada de um bandão de moços e amante já de seu Chico Marzulão, que ao mesmo  tempo gostava dela, que era um desespero. A agulha ia e vinha, o pensamento de nhá Supriana  também ia e vinha: às vezes o pensamento andava mais depressa, outras vezes era a agulha, −  e a tarde estava caindo, sem barulho, vagarenta. 

Houve uma hora, apesar de tudo, em que nhá Supriana se lembrou do mundo.

Prestou atenção pro rumo da cozinha, não sentiu nhá Lina lidar mais; pegou a escutar  na linha do laranjal, não percebeu mais tiro nem um. Levantou-se, chegou à cozinha: nada de  nhá Lina; campeou p’r a casa inteira, nada. E ficou de repente tomada dum susto: que estes  caçadores, Nossa Senhora da Penha, chegam a pôr chumbo numa caça mesmo em frente dos  outros.

Mas assim que apareceu na janela do quintal: que gritou por nhá Lina, que nhá Lina  arrespondeu e veio quaji correndo; assim que viu, pra um recanto do rocio, passar o Reimundo  meio arcado, com feitio de escondimento, no instantinho em que um coitelo riscava chita c’as  asas abertas no meio da varanda: nhá Supriana achou-se mais assustada, à toa, a bem dizer,  mas tremendo tal e qual um passarinho meio chamuscado.

Não  disse  nada  pra  nhá  Lina,  entrou  pra  dentro  do  quarto,  e  fez  um  choro  largo  e  muito  delorido,  em  silêncio,  como  quem  purga  pecado.  No  meio  do  choro,  entretanto,  lembrava-se do que fora no tempo de solteira, do juízo que tivera, e o pensamento do passado  ia e vinha, como poucas horas antes, que nem a agulha de um pedaço de algodão pro outro  pedaço.  Chorou,  que  foi  uma  loucura:  e  assim  que  seo  Chico  voltou,  já  sobre  a  noite,  encantado c’as eleições, nhá Supriana lhe falou perto da orelha, c’os beiços frios e os olhos  queimando:

− Olhe, seu Chico, o primeiro desastre já foi, agora espere pro outro!

E contou-lhe o que assucedera.

Quem tinha razão era sea Maria Rita: quando os namorados chegaram a certo ponto...

Pois  não  aconteceu  o  segundo  desastre.  Seu  padre  vigário  botou  a  bênção  de  casamento nos dois, num dia despois da missa, apesar que moça de santo deve de ser de santo  toda a vida. Quando  a comitiva dobrou a aguinhadas pedras, já perto da  casa, no fundo do  laranjal, e um casal de guaxes passou pelo ar, gritando, que não tinha mais jeito, o Reimundo  falou pra nhá Lina, em segredo:

− Aquilo é que é pass’o bom, nhá Lina!
  
Ela ficou sem dizer nada. Ficou, mas  em compensação, pôs-se vermelha como um  juá  manso,  na  roçada,  assim  que  o  guatambu,  sem  dó,  foi  descobrir  as  ervas  mais  altas  e  também o descobriu.

Coisas que a gente vê neste guanhã de mundo! 


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Nota:
Valdomiro Silveira: "Mucufos" (1894-1905). Versão ortográfica do  apógrafo  de  Carmen  Lydia  de Souza  Dias, in: Alexandre de Oliveira Barbosa: "Edição anotada de Mucufos, coletânea de contos inédita de Valdomiro Silveira", da Universidade de São Paulo, 2007