Mostrando postagens com marcador Artur de Azevedo - Contos Possíveis (1889). Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Artur de Azevedo - Contos Possíveis (1889). Mostrar todas as postagens

sábado, 30 de março de 2013

Artur de Azevedo: "Um Capricho"


UM CAPRICHO 


Em Mar de Espanha havia um velho fazendeiro, viuvo que tinha uma filha muito tola, muito mal-educada, e, sobretudo. muito caprichosa. Chamava-se Zulmira.

Um   bom   rapaz,   que   era   empregado   no   comércio   da   localidade,   achava-a   bonita,   e   como estivesse apaixonado por ela, não lhe descobria o menor defeito.

Perguntou-lhe uma vez se consentia que ele fosse pedi-la ao pai.

A moça exigiu dois dias para refletir.

Vencido o prazo, respondeu:

- Consinto, sob uma pequena condição.

- Qual?

- Que o seu nome seja impresso.

- Como?

- É um capricho.

- Ah!

- Enquanto não vir o seu nome em letra redonda, não quero que me peça.

- Mas isso é a coisa mais fácil...

- Não tanto como supõe. Note que não se trata da assinatura, mas do seu nome. É preciso que não seja coisa sua.

Epidauro, que assim se chamava o namorado, parecia ter compreendido. Zulmira acrescentou:

- Arranje-se!

E repetiu:

- É um capricho.

Epidauro aceitou, resignado, a singular condição, e foi para casa.

Aí chegado, deitou-se ao comprido na cama, e, contemplando as pontas dos sapatos, começou a imaginar por que meios e modos faria publicar o seu nome.

Depois de meia hora de cogitação, assentou em escrever uma correspondência anônima para certo periódico da Corte, dando-lhe graciosamente notícias de Mar de Espanha.

Mas o pobre namorado  tinha que lutar com duas dificuldades: a primeira é que em  Mar de Espanha nada sucedera digno de menção; a segunda estava em como encaixar o seu nome na correspondência.

Afinal conseguiu encher duas tiras de papel de notícias deste jaez!

"Consta-nos que o Rev.mo Padre Fulano, vigário desta freguesia, passa para a de tal parte."

"O Ilmo Sr. Dr. Beltrano, juiz de direito desta comarca, completou anteontem 43 anos de idade. S. Sª, que se acha muito bem conservado, reuniu em sua casa alguns amigos."

"Tem chovido bastante estes últimos dias", etc.

Entre   essas   modestas   novidades,   o   correspondente   espontâneo,   depois   de   vencer   um pequenino escrúpulo, escreveu:

"O nosso amigo Epidauro Pamplona tenciona estabelecer-se por conta própria."

Devidamente selada e lacrada, a correspondência seguiu, mas...

Mas não foi publicada.

* * *

O pobre rapaz resolveu tomar um expediente e o trem de ferro.

- À Corte! à Corte! dizia ele consigo; ali, por fás ou por nefas, há de ser impresso o meu nome!

E veio para a Corte.

Da estação central dirigiu-se imediatamente ao escritório de uma folha diária, e formulou graves queixas contra o serviço da estrada de ferro. Rematou dizendo:

- Pode dizer, Sr. redator, que sou eu o informante.

- Mas quem é o senhor? perguntou-lhe o redator, molhando uma pena; o seu nome?

- Epidauro Pamplona.

O jornalista escreveu; o queixoso teve um sorriso de esperança.

- Bem. Se for preciso, cá fica o seu nome.

Queria ver-se livre dele; no dia seguinte, nem mesmo a queixa veio a lume.

Epidauro não desesperou.

Outra folha abriu uma subscrição não sei para que vítimas; publicava todos os dias a relação dos contribuintes.

- Que bela ocasião! murmurou o obscuro Pamplona.

E foi levar cinco mil-réis à redação.

Com tão má letra, porém, assinou, e tão pouco cuidado tiveram na revisão das provas, que saiu:

Epifânio Peixoto 5$OOO

Epidauro teve vergonha de pedir errata, e assinou mais 2$OOO.

Saiu:

"Com a quantia de 2$, que um cavalheiro ontem assinou, perfaz a subscrição tal a quantia de tanto que hoje entregamos, etc.

Está fechada a subscrição."

* * *

Uma reflexão de Epidauro:

Oh! Se eu me chamasse José da Silva! Qualquer nome igual que se publicasse, embora não fosse o meu, poderia servir-me! Mas eu sou o único Epidauro Pamplona...

E era.

Daí, talvez, o capricho de Zulmira.

* * *

Uma folha caricata costumava responder às pessoas que lhe mandavam artigos declarando os respectivos nomes no Expediente.

Epidauro mandou uns versos, e que versos! A resposta dizia: "Sr. E. P. Não seja tolo."

* * *

Como último recurso, Epidauro apoderou-se de um queijo de Minas à porta de uma venda e deitou a fugir como quem  não pretendia evitar os urbanos, que apareceram logo. O próprio gatuno foi o primeiro a apitar.

Levaram-no para uma estação de polícia. O oficial de serviço ficou muito admirado de que um moço tão bem trajado furtasse um queijo, como um reles larápio.

Estudantadas... refletiu o militar; e, voltando-se para o detido:

- O seu nome?

- Epidauro Pamplona! bradou com triunfo o namorado de Zulmira.

O oficial acendeu um cigarro e disse num tom paternal:

- Está bem, está bem. Sr. Plampona. Vejo que é um  moço decente--- que cedeu a alguma rapaziada.

Ele quis protestar.

- Eu sei o que isso é! atalhou o oficial. De uma vez em que saí de súcia com uns camaradas meus pela Rua do Ouvidor, tiramos à sorte qual de nós havia de furtar uma lata de goiabada à porta de uma confeitaria. Já lá vão muitos anos.

E noutro tom:

- Vá-se embora, moço, e trate de evitar as más companhias.

- Mas...

- Descanse, o seu nome não será publicado.

Não havia réplica possível; demais, Epidauro era por natureza tímido.

O seu nome, escrito entre os dos vagabundos e ratoneiros, era uma arma poderosíssima que forjava contra os rigores de Zulmira; dir-Ihe-ia:

- Impuseste-me uma condição que bastante me custou a cumprir. Vê o que fez de mim o teu capricho!

* * *

Quando Epidauro saiu da estação, estava resolvido a tudo!

A matar um homem, se preciso fosse, contanto que lhe publicassem as dezesseis letras do nome!

* * *

Lembrou-se de prestar exame na Instrução Pública.

O resultado seria publicado no dia seguinte.

E, com efeito, foi: "Houve um reprovado."

Era ele!

Tudo falhava.

* * *

Procurou muitos outros meios, o pobre Pamplona, para fazer imprimir o seu nome; mas tantas contrariedades o acompanharam nesse desejo que jamais conseguiu realizá-lo.

Escusado é dizer que nunca se atreveu a matar ninguém.

A última tentativa não foi a menos original.

Epidauro lia sempre nos jornais:

"Durante a semana finda, S.M. ,,o Imperador foi cumprimentado pelas seguintes pessoas, etc.

Lembrou-se também de ir cumprimentar Sua Majestade.

- Chego  ao paço, pensou ele, dirijo-me ao Imperador, e digo-lhe: - Um  humilde  súdito vem cumprimentar Vossa Majestade, - e saio.

Mandou fazer casaca; mas, no dia em que devia ir a Cristóvão, teve febre e caiu de cama.

* * *

Voltemos a Mar de Espanha:

Zulmira   está  sentada   ao  pé  do  pai.  Acaba   de  contar-lhe   a  que  impôs  a  Epidauro.  O  velho fazendeiro ri-se a bandeiras despregadas.

Entra um pajem.

Traz o Jornal do Comércio, que tinha ido buscar à agência de correio.

A moça percorre a folha, e vê, afinal, publicado o nome de Epidauro Pamplona.

- Coitado! murmura tristemente, e passa o jornal ao velho.

- É no obituário:

"Epidauro Pamplona, 23 anos, solteiro, mineiro. - Febre perniciosa."

O fazendeiro, que é estúpido por excelência, acrescenta:

- Coitado! foi a primeira vez que viu publicado o seu nome.


---
Nota:
Texto-fonte: Arthur de Azevedo: “Contos Possíveis”, de 1889 

Artur de Azevedo: "O Asa-Negra"


O ASA-NEGRA 


Quando, em 185... poucos momentos antes de nascer Raimundo, sua mãe curtia as dores do parto   e   curvava-se   instintivamente,   agarrando-se   aos   móveis   e   às   paredes,   mandaram chamar   a   toda   pressa   a   única   parteira   que   naquele   tempo   havia   na   pequena   cidade   de Alcântara.

A comadre prodigalizava, naquele momento, os cuidados da sua arte hipotética à mãe de Aureliano, que era mais rica.

Só   algumas   horas   mais   tarde   pôde   acudir   ao   chamado;   mas   já   não   era   tempo:   a   mãe sucumbira  à eclampsia; o filho salvara-se por um  milagre, que  ficou até  hoje gravado na tradição obstétrica de Alcântara.

O pobre órfão devia sofrer, enquanto vivesse, as terríveis conseqüências, não só da inépcia das   mulheres   que   assistiram   a   sua   mãe,   como   do   falecimento   desta.   Era   aleijado, entanguecido, e tinha a cabeça singularmente achatada, nas cavidades frontais, pela pressão grosseira de dedos imperitos. Um menino feio, muito feio.

* * *

Quando Raimundo entrou para a escola, já lá encontrou Aureliano, rapazito lindo, vigoroso e rubicundo;   mas   uma   antipatia   invencível   afastou-o   logo   desse   causador   involuntário   dos infortúnios que lhe cercaram o berço.

Aureliano, que era de um natural orgulhoso, não perdia ensejo de vingar-se da antipatia do outro. Não houve diabrura de que o não acusasse falsamente, e, como Raimundo não era estimado,  por ser feio,  não encontrava defesa, e estendia  resignado a mão pequenina às palmatoadas estúpidas do mestre escola. Isto acontecia diariamente.

O mestre, afinal. cansado de castigá-lo em pura perda, pois que as acusações continuavam da parte de Aureliano, expulsou-o da escola; e, como não houvesse outra em Alcântara, o bode   expiatório   cresceu   à   bruta,   sem   instrução,   não   tendo   achado   no   mundo   espírito compadecido que lhe levasse um raio de luz à treva da inteligência medíocre.

Mais tarde meteram-no a bordo de um barco, e mandaram-no para a capital, consignado a uma casa de comercio.

Aí encontrou Raimundo um protetor desinteressado, que lhe mandou ensinar primeiras letras e rudimentos de escrituração mercantil. A prática faria o resto.

Dentro   de   algum   tempo   o  menino,   que   já   contava   dezesseis   anos,   deveria   entrar,   corno ajudante de guarda-livros, para certo escritório de comissões; mas oito dias antes daquele em que devia tomar conta do emprego, morreu inesperadamente o seu protetor.

Entretanto, Raimundo apresentou-se, no dia aprasado, em casa do futuro patrão.

- Cá estou eu.

- Quem é você?

- O ajudante de guarda-livros de quem lhe falou o defunto Sr. F.

- Ah! sim... lembra-me... mas o meu amiguinho chore na cama que é lugar quente; o serviço não podia esperar, e eu tive que admitir outra pessoa.

E  apontou  para um   rapaz que,  sentado,  em  mangas  de  camisa, a uma  carteira  elevada, parecia absorvido pelo trabalho de escrita.

- Ah! murmurou despeitado o infeliz alcantarense.

O  outro levantou os  olhos,  e  Raimundo  reconheceu-o:  era Aureliano,  que  tinha  os  lábios arqueados por um sorriso verdadeiramente satânico.

* * *

Passaram-se alguns meses, durante os quais Raimundo passeou a sua penúria pelas ruas de S. Luís. Andava maltrapilho e quase descalço.

Arranjou, afinal, um modesto emprego braçal, numa agência de leilões. Só quatro anos mais tarde julgou prudente trocá-lo por um lugar de condutor de bonde.

Durante todo  esse tempo,  Aureliano,  o seu  asa-negra, moveu-lhe  toda  a guerra possível. Diariamente lhe chegavam aos ouvidos os impropérios gratuitos e as pequeninas intrigas do seu patrício.

Raimundo   convenceu-se   de   que   Aureliano,   rapaz   simpático   e   geralmente   estimado   na sociedade em que ambos viviam, nascera no mesmo momento em que ele, como um estorvo ao mecanismo da sua existência. Era o seu asa-negra.

* * *

Foi no bonde que Raimundo viu pela primeira vez os olhos negros e inquietos de Leopoldina.

Não se descreve a paixão que lhe inspirou essa morena bonita, cujos contornos opulentos causariam inveja às louras napéias de Rúbens. A rapariga tinha nos olhos a altivez selvagem e nos lábios a volúpia ingênita das mamelucas. O seu cabelo grosso, abundante e negro, prendia-se,   enrolado   no   descuido   artístico   das   velhas   estátuas   gregas,   deixando   ver   um  cachaço que estava a pedir, não os beijos de um Raimundo anêmico e doentio, porém as rijas dentadas de um gigante.

Pois Raimundo, que não era nenhum Polifemo, um belo dia conduziu ao altar a mameluca bonita, e até o instante da cerimônia esteve, coitado, vê não vê o momento em que Aureliano surgia inopinadamente de trás do altar-mor, para arrebatar-lhe a noiva.

Infelizmente assim não sucedeu.

Nos primeiros tempos de casado, tudo lhe correu às mil maravilhas; mas pouco a pouco a sua insuficiência foi se tornando flagrante. O seu organismo fazia prodígios para corresponder às exigências da esposa, cuja natureza não lhe indagava das forças.

As mulheres ardentes e mal-educadas, como Leopoldina, quando lhe faltam os maridos com a dosimetria do amor, confundem a miséria do sangue com a pobreza da casa. Questão de disfarçar  sentimentos,   e   de   aplicar   o  abstrato   ao   concreto.   Leopoldina,   que   até  então   se contentara   com   a  aurea   mediocritas  relativa   do   condutor   de   bonde,   começou   um   dia   a manifestar apetites de luxo, a sonhar frandulagens e modas.

De então em diante tornou-se um inferno a existência doméstica de Raimundo. Ano e meio depois de casado, ele evitava a convivência da esposa, jantava com os amigos, e só aparecia em casa para pedir ao sono forças para o trabalho do dia seguinte.

* * *

Mas, de uma feita em que se viu forçado a ir à casa em hora desacostumada, surpreendeu Leopoldina nos braços hercúleos de Aureliano.

Excitado   pelo   desespero,   cresceu   para   eles  frenético, espumante; mas os quatro   braços infames desentrelaçaram-se das criminosas delicias, e repeliram-no vigorosamente.

O pobre marido rolou sobre os calcanhares, e caiu de chapa, estatelado, sem sentidos.

Quando voltou a si, os dois amantes haviam desaparecido.

Raimundo não derramou uma lágrima, e voltou cabisbaixo para o trabalho.

Ao chegar à estação dos bondes, o chefe de serviço repreendeu-o, fazendo-lhe ver que a sua falta se tornara sensível. Despedi-lo-ia, se não fosse empregado antigo, que tão boas provas dera até então de si.

O   alcantarense   ergueu   a   cabeça.   Os   olhos   desvairados   saltavam-lhe   das   órbitas   com lampejos estranhos. E respondeu coisas incoerentes. Estava doido.

Dali a uma semana, foi para Alcântara, requisitado por um tio, derradeiro destroço de toda a família.

Pouco tempo durou, iludindo a vigilância do parente, saiu de casa uma noite, e atirou-se ao mar, afogando consigo as suas desgraças nas águas da Baía de São Marcos.

* * *

Dois  dias   depois  deste suicídio,  a Ilha do  Livramento, árido  promontório situado  perto  de Alcântara,   em   frente   àquela   Baia   de  São Nilarcos,   regurgitava   alegremente   de   povo. Realizava-se   a   festa   de   Nossa   Senhora, e  os fiéis  afluíam, tanto   da   capital   como   de Alcântara, à velha ermida solitária.

Aureliano,   alcantarense   da   gema   e   figura   obrigada   de   todas   as   festas   e   romarias, compareceu também ao arraial, exibindo publicamente a sua personalidade, que se tornara escandalosa depois do adultério de Leopoldina.

No Maranhão as paredes não têm somente ouvidos, como diz o adágio: têm também olhos.

* * *

Conquanto   o   céu   anunciasse   próxima   borrasca,   Aureliano   resolveu   deixar   a   Ilha   do Livramento e embarcar, ao escurecer, numa delgada canoa, em demanda de Alcântara, onde tencionava pernoitar. A empresa era sem dúvida arriscada; mas lá, na colina escura que se refletia   vagamente  nas   águas   negras  da   baía,  esperam-no  os  braços  roliços  da viúva do doido.

Embarcou.

Acompanhava-o apenas um remador, que desde pela manhã tomara a seu serviço.

* * *

Em meio da viagem, soprou de súbito rijo nordeste, e o mar, que até então se conservara plácido   e   próspero,   encapelou-se   raivoso.   Em   três   minutos   as   ondas   esbravejavam   já terrivelmente, e a canoa, erguida a grande altura, e de novo arremessada ao pélago, num estardalhaço de vagas, recebia no bojo quantidade de água suficiente para metê-la a pique.

- Cada um cuide de si! bradou o remador, atirando-se ao mar, e oferecendo combate heróico à impetuosidade das ondas. Nadava que nem Leandro.

Aureliano viu-se perdido. A canoa mergulhava. Ele não sabia nadar, o desgraçado! Preparou-se para morrer...

A embarcação submergiu-se.

O náufrago agitava instintivamente os braços e as pernas, esperando talvez que o desespero lhe ensinasse milagrosamente uma prenda que nunca aprendera.

Debalde!

Foi   ao fundo,  vertiginosamente. Voltou  de novo à tona d'água,  chamado  à vida pelo  seu sangue de moço. Bracejou... tentou bracejar... A sua mão encontrou alguma coisa fria. Muito fria... que flutuava. Agarrou-se a esse objeto salvador... boiou muito tempo com ele... e com ele finalmente foi arremessado à praia...

O cadáver de Raimundo salvara Aureliano.


---
Nota:
Texto-fonte: Arthur de Azevedo: “Contos Possíveis”, de 1889 

Artur de Azevedo: "Os Dois Andares"


OS DOIS ANDARES


Um dos mais importantes estabelecimentos da capital de província onde se passa este conto, era, há vinte anos, a casa importadora Cerqueira & Santos, na qual se sortiam numerosos lojistas da cidade e do interior.

O   Santos   era   pai   de   família   e   morava   num   arrabalde;   o   Cerqueira,   solteirão,   ocupava, sozinho, o segundo andar do magnífico prédio erguido sobre o armazém.

No primeiro andar, que era menos arejado, moravam os caixeiros, e se hospedavam, de vez em quando, alguns fregueses do interior, que vinham à cidade "fazer sortimento", e bem caro pagavam essa hospedagem.

* * *

O principal caixeiro era o Novais, moço de vinte e cinco anos, apessoado e simpático.

De uma janela do primeiro e de todas as janelas do segundo andar avistavam-se os fundos da casa do Capitão Linhares, situada numa rua perpendicular à de Cerqueira & Santos.

Esse Capitão Línhares tinha uma filha de vinte anos, que era, na opinião geral,  uma das moças mais bonitas da cidade.

Helena (ela chamava-se Helena) costumava ir para os fundos da casa paterna e postar-se, todas as tardes, a uma janela da cozinha, precisamente à hora em que, fechado o armazém, terminado o jantar e saboreado o café,  o Novais por seu turno se debruçava à janela do primeiro andar.

O caixeiro pensou, e pensou bem, não ser coisa muito natural que, desejando espairecer à janela, a rapariga deixasse a sala pela cozinha, a frente pelos fundos, e logo se convenceu de que era ele o objeto que a atraía todas as tardes a um lugar tão impróprio.

As duas janelas, a dela e a dele, ficavam longe uma da outra, e o Novais, que não tinha olhos de lince, não podia verificar, num sorriso, num olhar, num gesto, se efetivamente era em sua intenção que Helena se sujeitava àquele ambiente culinário.

Uma tarde lembrou-se de assestar contra ela um binóculo de teatro, e teve a satisfação de distinguir claramente um sorriso que o estonteou.

Entretanto, a moça, desde que se viu observada tão de perto, fugiu arrebatadamente para o interior da casa.

O Novais imaginou logo que a ofendera aquela engenhosa intervenção da ótica; ela, porém, voltou à janela da cozinha, trazendo, por sua vez, um binóculo, que assestou resolutamente contra o vizinho.

* * *

Ficou radiante o Novais, e lembrou-se então de que certo domingo, passando pela casa do Capitão Linhares, a filha, que se achava à janela, cuspiu-lhe na manga do paletó. Ele olhou para cima, e ela, sorrindo, disse-lhe: - Desculpe.

Agora via o ditoso caixeiro que aquele cuspo tinha sido o meio mais simples e mais rápido que no momento ela encontrou para chamar-lhe a atenção.

Não era um meio limpo nem romântico; original, isso era.

* * *

A princípio, não passou o namoro de inocentes sorrisos, porque os binóculos, ocupando as mãos, impediam, naturalmente, os gestos; mas, passados alguns dias, tanto ela como ele pegavam no binóculo com a mão esquerda e com a direita atiravam beijos um ao outro.

* * *

Aconteceu que o Novais apanhou um resfriamento e foi obrigado a ficar alguns dias de cama, ardendo   em   febre.   Quando   se   levantou,   pronto   para   outra,   o   seu   primeiro   cuidado   foi, necessariamente, mostrar-se a Helena. Esperou com impaciência pela hora costumada, que nunca lhe tardou tanto.

Afinal, às cinco e meia correu à janela; mas, antes de abri-la, ocorreu-lhe espreitar por uma fresta... Ficou pasmado!  A moça lá estava, de binóculo, a atirar beijos de longe!.  - Mas a  quem?... Ela não o via, não o podia ver: a janela estava fechada!... Quem era o destinatário daqueles beijos?...

Uma idéia atravessou-lhe o cérebro: o Novais debruçou-se a janela contígua e olhou para cima...   O   seu   patrão,   o   Cerqueira,   na   janela  do   segundo   andar,   munido   também   de   um binóculo, namorava a sua namorada!...

A coisa explica-se:

O negociante, surpreendendo, alguns dias antes, os beijos da rapariga, supôs que eram para ele e correspondeu imediatamente.

Helena, que era paupérrima e ambiciosa, fez consigo esta reflexão prática:

- Que feliz engano! Apanhei um marido rico! O Novais é um simples caixeiro... o Cerqueira é o chefe de uma firma importante. . . Aquele namora para divertir-se... este casa-se...

E o seu coração passou com armas e bagagens do primeiro para o segundo andar.

* * *

Três meses depois, Helena casava-se com o patrão de Novais, e ia morar no segundo andar, convenientemente preparado para recebê-la.

Ela e o caixeiro encontravam-se diariamente ao almoço e ao jantar. Os patrões, a patroa, o guarda-livros, os hóspedes e o Novais comiam em mesa comum.

Durante os primeiros dias que se seguiram ao casamento, não se atrevia Helena a encarar o ex-namorado, mas pouco a pouco foi se desenvergonhando, e por fim já lhe dizia: - Bom dia, seu Novais! - Boa tarde, seu Novais!

* * *

Certa manhã em que o rapaz acordou muito cedo e foi para a janela antes que abrissem o armazém, viu cair-lhe na manga do paletó um  pequeno círculo de saliva, muito alvo, que parecia um botão.

Olhou para o segundo andar, e deu com os olhos em Helena, que lhe disse muito risonha: - Desculpe -, e em seguida lhe deu uns bons dias sonoros e argentinos.

O cuspo da moça avivou-lhe as recordações do seu namoro pulha; mas o Novais teve juízo: não abusou da situação...

* * *

O Cerqueira, que um ano depois de casado foi pai de uma linda criança, não gozou por longo tempo as delícias da paternidade; morreu.

Morreu, e a viúva, passado o luto, casou-se com o Novais, que se tornara o "braço direito da casa".

O moço a princípio protestou briosameate, rejeitando a posição que a fortuna lhe deparava; mas, como era feito da mesma lama que a maioria dos homens, cedeu às seduções e ás lágrimas de Helena, e passou do primeiro para o segundo andar.

* * *

Aí está por que a casa Cerqueira & Santos é hoje Santos & Novais.


---
Nota:
Texto-fonte: Arthur de Azevedo: “Contos Possíveis”, de 1889

Artur de Azevedo: "A Ritinha"


A RITINHA 


Naquela noite  o Flores entrou em casa oprimido  por um sentimento penoso, que não podia definir.Tinham-lhe dito que estava no Rio de Janeiro a Ritinha, aquela interessante menina que há trinta anos, lá na província, fora o seu primeiro amor e a sua primeira mágoa.Andou morto por vê-la, não que lhe restasse no coração nem no espírito outra coisa senão a saudade que todos   nós   sentimos   da   infância   e   da   adolescência,   -   queria   vê-la   por   mera curiosidade.Satisfizera o seu desejo naquela noite, quando menos o esperava, num teatro. Ela ocupava quase um camarote inteiro com a sua corpulência descomunal.

Mostrou-lha um comprovinciano e amigo:

- Não querias ver a Ritinha? Olha! Ali a tens!

- Onde?

- Naquele camarote.

- Quê! aquela velha gorda?...

- É a Ritinha!

- Virgem Nossa Senhora!  - E aquele homem  de óculos azuis, que está de pé, no fundo do camarote? É o marido!

- Qual marido! É o genro, casado com a filha, aquela outra senhora muito magra que está ao lado dela. O marido é o velhote que está quase escondido por trás do enorme corpanzil da tua ex-namorada.

O Flores, estupefato, contemplou e analisou longamente aquela mulher, que fora o seu primeiro amor e a sua primeira mágoa.

ão podia haver dúvida: era ela. O olhar tinha ainda coisa do olhar de outrora. Com aqueles destroços ele foi reconstituindo mentalmente, peça por peça, a estátua antiga. Tinha a visão exata do passado.Representava-se uma comédia. Ritinha ria-se de tudo, de todas as frases, de todos os gestos, de todas as jogralices dos atores com uma complacência, de espectadora mal-educada e por isso mesmo pouco exigente.Aquelas banhas flácidas, agitadas pelo riso, tremiam convulsivamente dentro da seda do vestido, manchado pelo suor dos sovacos.

O   genro,   que   se   conservava   sério   e   imperturbável,   lançava-lhe   uns   olhos   repreensivos   e inquietos através dos óculos azuis. Ela não dava por isso.

- Que diabo vieram eles fazer ao Rio de Janeiro? perguntou o Flores.

- Nada... apenas passear.. . estão de passagem para a Europa.

* * *

E   aí   está   por   que   o   Flores   entrou   em   casa   oprimido   por   um   sentimento   que   não   sabia definir.Quando ele se espichou na cama estreita de solteirão, e abriu o livro que o esperava todas as noites sobre o velador, não conseguiu ler uma página. Todo o seu passado lhe afluía à memória.Ele e Ritinha foram companheiros de infância. Eram vizinhos,  - brincaram juntos  e juntos cresceram. Tinham  a mesma idade.Depois de dezessete anos, aquela afeição tomou, nele, nela não, um caráter mais grave: transformou-se em amor.

Mas Ritinha era já uma senhora e Flores ainda um fedelho.

Como o desenvolvimento fisiológico da mulher é mais precoce que o do homem, raro é o moço que ao desabrochar da vida não teve amores malogrados.

Foi  o que  sucedeu  ao  nosso  Flores.  Ritinha  não  esperou  que  ele  crescesse e aparecesse: tendo-se-lhe apresentado um magnífico partido, fez-se noiva aos dezoito anos.

O desespero do rapaz foi violento e sincero. Ele era ainda um criançola, mas tinha a idade de Romeu, a idade em que já se ama.

Um pensamento horroroso lhe atravessou o cérebro: assassinar Ritinha e em seguida suicidar-se.

Premeditou e preparou a cena: comprou um revólver, carregou-o com seis balas, e marcou para o dia seguinte a perpetração do atentado.

Deitou-se, e naturalmente passou toda a noite em claro.

Ergueu-se pela manhã, vestiu-se, apalpou a algibeira e não encontrou a arma.

- Oh!

Procurou-a no chão, atrás do baú, por baixo da cômoda: nada!

* * *

- Para  que precisas tu de um revólver,  meu  filho? perguntou a mãe do rapaz, entrando  no quarto.

- Está com a senhora?

- Está.

- Mas como soube...?

- As mães adivinham.

Flores não disse mais nada: caiu nos braços da boa senhora, e chorou copiosamente.  

Ela, que conhecia os amores do filho, deixou-o chorar a vontade; depois, enxugou-lhe os olhos
com os seus beijos sagrados, e perguntou-lhe:

- Que ias tu fazer, meu filho? Matar-te?

- Sim, mas primeiro matá-la-ia também!

- E não te lembraste de mim?... não te lembraste de tua mãe?...

- Perdoe.

E nova torrente de lágrimas lhe inundou a face.

- Ouve meu filho: na tua idade feliz um amor cura-se com. outro. O que neste momento se te afigura   uma   desgraça   irremediável,   mais   tarde   se   converterá   numa   recordação   risonha   e aprazível. Se todos os moços da tua idade se matassem por causa disso, e matassem também as suas ingratas, há muito tempo que o mundo teria acabado. Raros são os que se casam Com a sua primeira namorada. O que te sucedeu não é a exceção, é a regra. O mal  de muitos consolo é.

- Eu quisera que Ritinha não pertencesse a nenhum outro homem!

- Matá-la? Para quê? Ela desaparecerá sem morrer... nunca mais terá dezoito anos... A idade transforma-nos tal qual a morte. Não imaginas como tua mãe foi bela!

O velho Flores, pai do rapaz, informado por sua mulher do que se passara, e receoso de que o filho,   impulsivo   por   natureza,   praticasse   algum   desatino,   resolveu   mandá-lo   para   o   Rio   de Janeiro, onde ele chegou meses antes do casamento de Ritínha.

* * *

Naquela noite o Flores, quase qüinquagenário, chefe de repartição, lembrava-se das palavras maternas e reconhecia quanta verdade continham.

Ainda naquele momento sua mãe, que há tantos anos estava morta, parecia falar-lhe, parecia dizer-lhe:

- Não te dizia eu?

- E que impressão receberia Ritinha se me visse? pensou ele. Também eu sou uma ruína...

* * *

O Flores apagou a vela, adormeceu e sonhou com ambas as Ritinhas, a do passado e a do presente.

Dali por diante, todas as vezes que encontrava esta última, dizia consigo:

- Olhem se eu a tivesse matado!


---
 
Nota:
Texto-fonte: Arthur de Azevedo: “Contos Possíveis”, de 1889

Artur de Azevedo: "O Gramático"


O GRAMÁTICO 


Havia   na   capital   de   uma   das   nossas   províncias   menos   adiantadas   certa   panelinha   de gramáticos, sofrivelmente pedantes. Não se agitava questão de sintaxe, para cuja solução não fossem   tais   senhores   imediatamente   consultados.   Diziam   as   coisas   mais   simples   e rudimentares num tom pedantesco e dogmático, que não deixava de produzir o seu efeito no espírito das massas boquiabertas.

Dessa aluvião de grandes homens destacava-se o Dr. Praxedes, que almoçava, merendava, jantava e ceava gramática portuguesa.

Esse ratão, bacharel formado em Olinda, nos bons tempos, era chefe de seção da Secretaria do Governo, e andava pelas ruas a fazer a análise lógica das tabuletas das lojas e dos cartazes pregados nas esquinas. "Casa do Barateiro, - sujeito: esta casa; verbo, é; atributo, a casa; do barateiro, complemento restritivo." O Dr. Praxedes  despedia um criado,  se o infeliz, como  a soubrette das Femmes Savantes, cometia um erro de prosódia.

E quando submetia os transeuntes incautos a um exame de regência gramatical?

Por   exemplo:   encontrava   na   rua   um   menino,   e   este   caía   na   asneira   de   perguntar   muito naturalmente:

- Sr. Dr. Praxedes, como tem passado?

- Venha cá, respondia ele agarrando o pequeno por um botão do  casaco: "Sr. Dr. Praxedes, como tem passado?" - que oração é esta?

- Mas... é que estou com muita pressa...

- Diga!

- É uma oração interrogativa.

- Sujeito?

- Sr. Dr. Praxedes.

- Verbo?

- Ter.

- Atributo?

- Passado.

- Bom. Pode ir. Lembranças a seu pai.

E, com uma idéia súbita, parando:

- Ah! venha cá! venha cá! Lembranças a seu pai - que oração é esta?

- É uma oração... uma oração imperativa.

- Bravo! - Sujeito?

- Está oculto... é você... Você dê lembranças a seu pai.

- Muito bem. Verbo?

- Dar.

- Atributo?

- Dador.

- Lembranças é um complemento...?

- Objetivo.

- A seu pai...?

- Terminativo.

- Muito bem. Pode ir. Adeus.

* * *

Depois de aposentado com trinta anos de serviço, o Dr. Praxedes recolheu-se ao interior da província, escolhendo, para passar o resto dos seus gloriosos dias, a cidadezinha de ***, seu berço natal. Aí advogava por muito empenho, continuando a exercer a sua missão de oráculo em questões gramaticais.

Raramente   saia  à   rua,   pois   todo   o   tempo   era   pouco   para   estar   em   casa,   respondendo   ás
numerosas consultas que lhe dirigiam da capital e de outros pontos da província.

* * *

A cidadezinha de *** dava-se ao luxo de uma falha hebdomadária, o Progresso, propriedade do Clorindo Barreto, que acumulava as funções de diretor, redator, compositor, revisor, paginador, impressor, distribuidor e cobrador.

Ninguém se admire disso, porque o Barreto - justiça se lhe faça - dava mais uso à tesoura do que à pena. O vigário, que tinha sempre a sua pilhéria aos domingos, disse um dia que aquilo não era uma tesoura, mas um tesouro.

Entretanto, se no escritório do  Progresso  a goma-arábica tinha mais extração que a tinta de escrever, não se passava caso de vulto, dentro ou fora da localidade, que não viesse fielmente narrado na folha.

Por exemplo.

"O Sr. Major Hilarião Gouveia de Araújo acaba de receber a grata nova de que seu prezado filho, o jovem Tancredo, acaba de concluir os seus preparatórios na Corte, e vai matricular-se na Escola Politécnica, da referida Corte.

"Cumprimentamos cheios de júbilo o Sr. Major Hilarião, que é um dos nossos mais prestimosos assinantes, desde que fundou-se a nossa falha."

* * *

Em fins de maio de 1885, a notícia do falecimento de Victor Hugo chegou à cidadezinha de ***, levada por um sujeito que saíra da capital justamente na ocasião em que o telégrafo comunicara o infausto acontecimento.

O Barreto, logo que soube da notícia, coçou a cabeça e murmurou:

- Diabo! não tenho jornais... Como hei de descalçar este par de botas? A notícia da morte de Victor   Hugo  deve  ser   floreada,  bem  escrita,   e  não  me  sinto   com   forças  para   desempenhar semelhante tarefa!

Todavia, molhou a pena, que se parecia um tanto com a espada de certos generais, e rabiscou: Víctor Hugo.

Ao cabo de duas horas de cogitação, o jornalista não escrevera nem mais uma linha...

* * *

Mas, oh! Providência! nesse momento passou pela porta da tipografia o sábio Dr. Praxedes, a passos largos, medidos e solenes, e uma idéia iluminou o cérebro vazio de Clorindo Barreto.

- Doutor Praxedes! Doutor Praxedes! exclamou ele. Tenha vossa senhoria a bondade de entrar por um momento. Preciso falar-lhe.

O Dr. Praxedes empacou, voltou-se gravemente e, conquanto embirrasse com o Barreto, por causa dos seus constantes solecismos, entrou na tipografia.

- Que deseja?

O redator do  Progresso  referiu a notícia da morte do grande poeta, confessou o vergonhoso embaraço em que se achava, e apelou para as luzes do Dr. Praxedes.

Este, com um sorriso de lisonjeado, sorriso que logo desapareceu, curvando-se-lhe os lábios em sentido oposto, sentou-se a mesa com a gravidade de um juiz, tirou os óculos, limpou-os com muito vagar, bifurcou-os no nariz, pediu uma pena nova, experimentou-a na unha do polegar, dispôs sobre a mesa algumas tiras de papel, cujas arestas aparou cuidadosamente com a... com  o  tesouro, chupou  a pena, molhou-a três  vezes  no  tinteiro  infecundo,  sacudiu-a outras tantas, e, afinal escreveu:

"Falecimento. - Consta, por pessoa vinda de ~ ter falecido em Paris, capital da França, o Sr. Victor Hugo, poeta insigne e autor de várias obras de mérito, entre as quais um drama em verso, Mariquinhas Delorme (Marion Delorme) e uma interessante novela intitulada Nossa Senhora de Paris (Notre-Dame de Paris) -

"O ilustre finado era conde e viuvo.

"O seu falecimento enluta a literatura da culta Europa.

"Nossos sinceros pêsames à sua estremecida família."

* * * 
O Dr. Praxedes saiu da tipografia do  Progresso,  e continuou o seu caminho a passos largos, medidos e solenes.

Ia mais satisfeito e cheio de si do que o próprio  Sr. Víctor Hugo quando escreveu  a última palavra da sua interessante novela.

O   Barreto   ficou   radiante,   e,   examinando   a   tira   de   papel   escrita   pelo   gramático,   exclamou, comovido pela admiração:

- Nem uma emenda!


---
 Nota:
Texto-fonte: Arthur de Azevedo: “Contos Possíveis”, de 1889