domingo, 25 de agosto de 2013

Fialho de Almeida: "O Tio da América"

O TIO DA AMÉRICA

«Há  tempos —  escrevia  Sabino  de Sousa  Pancada,  comerciante  de secos e  molhados  no Pará,  ao seu único sobrinho  e futuro herdeiro,  Alfredo Carvalhosa, já naquele tempo pai de dois pequenitos e esposo da boa Maria  do Resgate —, há tempos que medito uma viagem à Europa, com residência  demorada no meu país natal. Vai em trinta anos que aqui estou e nem uma só  vez tornei a ver Lisboa. A velhice traz-me saudades. De forma que por estes  três ou quatro meses mais próximos aí me tens, prezado sobrinho. Arranja-me  quarto ao pé dos teus pequenos, de quem me lembro tanto como se os tivesse  visto alguma vez. O Artur, principalmente, é a minha paixão. A fotografia que  me mandaste ultimamente pinta-mo como um querubim, pobre criança! ...»  

— Aquilo  é homem d'ouro!  —  ponderava  o  Carvalhosa  para  a  esposa,  mignonne  sadia  e fresca,  que tornava  o ninho  sonoro da  música  dos  seus  risos. — Honrado a mais não! E homem inteligente! Quando daqui saiu não  passava de um pobre rapaz sem proteções e sem chelpa, infeliz no ofício de  seleiro  que lhe  mandaram  ensinar  e devorado de febre e desgostos.  Isto  contava o meu pai que Deus tem. de uma vez aparece-nos em casa, de chapéu  à brasileira e xale-manta, a pedir a bênção aos tios e declarando que se partia  para o Pará, na barca Ligeira, do Neves. Cada qual fez por tirar-lhe semelhante  mania dos cascos. «É morte certa!» dizia a minha mãe. «É tolice de meter os  tampos dentro!» ponderava o meu pai, que fora da alfândega de consumo.  

Apesar de tudo,  o  tio  Sabino  abalou.  Quatro anos  depois tinha o  estabelecimento na Rua de Gonçalves Dias, e hoje é rico como os primeiros  negociantes do Pará, despacha gomas, jinguba e óleo de palma, negoceia em  velames e cabos, tem fazendas no interior e dinheiro nos bancos, subscreve  com grandes quantias para os monumentos e obras úteis do seu país, socorre  os parentes, estudou nas horas vagas e sabe onde tem a cabeça, coitado!

—  E homem de sessenta anos! — juntou Maria do Resgate, afagando os  cabelos loiros do Artur..  

—  Deus lh e acrescente a vida, que por me julgar habilitado à herança e não esqueço da amizade com que o bom velho me tem recebido.  

—  Nem eu!

—  Nem eu! —  gritou o  Artur,  que era  tido em casa  como um  precoce  extraordinário, e já tocava no piano pedacinhos da Madame Angot.

—  São  horas, vou-me  para  o  serviço —  disse o  Carvalhosa  dando nas  testas da família os três beijos sacramentais.

Era do correio havia dez anos, vida trabalhosa mas sofrivelmente paga. Nessa  noite tinha  de seguir  para  Elvas em comissão de serviço.  Estava-se em  Fevereiro, tempo húmido  e lamacento.  O  Carvalhosa  andava  um  pouco  encatarroado. À porta do correio tirou o lenço para se assoar,  e à volta para  casa, caminho do jantar, notou que perdera a carta do tio Sabino. Não lhe deu  aquilo  grande cuidado,  a  falar verdade.  Tinha-a  metido no  bolso da  inglesa  provavelmente e, ao sacar o lenço, caíra-lhe. Nunca Deus lhe desse maiores  cuidados!  Esteve até  à  noite  com a  família,  rindo  das doidices  do  Artur e  contemplando,  com deliciosa  emoção de pai,  o soberbo  grupo de Maria do  Resgate com  o mais  pequenino ao peito.  Tivera  sempre  pelo lar aquela  adoração lírica e sã que o devotava corpo e alma à família, e o parecia guiar no  trabalho como  essas grandes  estrelas cujo deslocamento conduz  através  do  deserto as pobres caravanas melancólicas. Era feliz, realmente. Nunca passara  os tempos maus de certos desgraçados surpreendidos no berço pela pobreza  árida ou pela desolada orfandade. Perdera o pai quando o emprego lhe rendia  quinhentos mil réis, já o Artur era nascido. Anualmente, nos meados de Julho,  o tio Sabino presenteava o aniversário do pequeno com uma inscrição de cem   mil réis, várias latas de doce de tijolo, uma dúzia de cuias pintadas a escarlate e  branco, e basta coleção de plumas e cofres com embutidos Índios.  

O asseio e o bom gosto de Maria do Resgate rebrilhavam na disposição dos  móveis, de uma conservação viçosa, na simetria dos quadros de gravuras ou  oleografias, na brancura dos umbrais, na nitidez dos papéis, na graça simples  dos reposteiros de cretone e das cortinas de cassa, na harmonia impagável dos  bouquets de rosas e dálias cortadas no quintal e radiantes à vista em jarras de  porcelana  esmaltada,  sobre a  cimalha  do velho  aparador  de  carvalho, a  preciosidade da casa, que a esposa trouxera.  

Desde os quinze anos que tinha sonhado o futuro assim — uma casa limpa,  uma mulher fresca e risonha, bons dentes e hálito suave, dois pequenos fortes,  braços brancos  e olho ingênuo,  em cujo  azul cerúleo  revisse,   como num  espelho, a  sua  ventura  pacífica  e doce,  de  casado.  E  mais  tarde a  riqueza  bafejá-lo-ia, trazida pelo tio Sabino, bom velho cuja solicitude lhe dava uma  comoção. Poderia ver o Artur num palacete de jardins umbrosos e rumores de  cascatas,  médico  ou engenheiro,  e de bigode,  com um  coupé  bem polido e  uma  parelha  bem gorda.  E  o mais pequenino, também,  de militar,  com  prêmios e galões atravessando ao entardecer a Baixa sobre um cavalo branco,  no meio dos suspiros das herdeiras ricas. Por esse tempo seria ele um velho e  Maria do Resgate também. Vinha-lhe um pena sincera de não ter vinte anos  quando os pequenos  os  fizessem,  uma' espécie  de ciúme da  intimidade que  eles viessem  a  dispensar aos amigos,  e  do  amor que prodigalizassem  infrutífero a qualquer dos alegres pecados mortais de Espanha, que a matilha cerca de um prestígio canaille de bacantes.  

Às quatro horas jantaram.  Era  uma  quinta-feira  fria, sol  límpido e grande  pureza de ares. Ao largo o rio, visto daquela altura, tinha um espanejamento  de enseada,  em  leque.  Um pano  de fundo,  de cordilheiras e  nuvens  às  camadas, caía de cima, fechando o horizonte. Os barcos corriam à vela no rio,  e o fumo dos vapores da carreira enodoava o azul plácido. — Subia o pregão  das ovarinas descalças e o rumor  dos  trens,  circulando.  Uma  espécie  de  bondade despregava  bênçãos,  de cima  do  azul em cúpula,  que  as pombas  cortavam de adejos castos,  como  lenços saudosos  que palpitam, fazendo  adeuses à terra.  

Abriram uma  garrafa  de  porto,  à  sobremesa.  O  Carvalhosa  quis  saber se  estava o farnel aviado — partia às oito horas no comboio de Santa Apolônia,  e demorava-se três dias. — Escusava de gastar no bufete.

—  Tanto tempo! — disse amuada Maria do Resgate.  

—  Mas é serviço, que remédio, senão obedecer...

—  E eu que fique sozinha para aqui!

—  Manda chamar a  tia  Prazeres —  aconselhou o marido.  —  Já  te fica  companhia.

—  Não está em Lisboa. Foi acompanhar o genro a Vila Franca.  

—  Ora! três dias correm num momento. Deixa lá, filha.  

Bebiam a pequenos goles aquela alegria cor de opala, que polvilhava carmins  de vida nas faces e reluzia nos olhos com uma cintila garota.  

—  Quando chegará o tio Sabino? — perguntou o Carvalhosa.  

—  Tem tempo — respondeu a mulher.  

—  Damos-lhe o nosso quarto, quando ele vier. É o mais espaçoso e o que  tem melhor papel. Demais fica ao pé da sala...  

—  Exato.  É preciso  comprar dois  metros  de alcatifa, que a  nossa  está  velha. E outro candeeiro, de globo.  

—  Isso depressa se faz. Estava-me agora a lembrar de uma coisa, que tinha  imensa graça.

—  Que é?  

—  Se ele  chegava  por  aí amanhã  ou no outro dia;  enfim,  quando  eu  estivesse fora.

—  Mas nunca o vi! — disse Maria do Resgate.  

—  Era por isso que tinha graça. As dúvidas em que havias de ficar!...  Mas  espera. E o  retrato que vinha dentro daquela maldita carta, que perdi? lá se foi  também, com os demônios!

—  Deixa. Não se perca o tio, o mais não faz transtorno.  

—  Egoísta!  

—  Tens os olhos luzidios, agora reparo.  

—  E tu as fazes tão coradas, menina!  

O Carvalhosa tornou a encher os cálice s. E, tomando o seu, tocou-o com o de Maria do Resgate, para uma saúde.  

—  Pela felicidade dos nossos pequenos! — disse o marido.  

—  Vá lá — acrescentou Maria do Resgate —, pela felicidade dos nossos  pequenos!  

Beberam.  Então o Carvalhosa  mudou de  lugar para  vir  sentar-se  entre a   mulher e o Artur. E baixando a voz disse:  

—  Sabes que falta uma menina no nosso rancho. Não gostavas?  

Ela corou toda, e baixou a vista, rindo com os seus dentinhos gulosos.  

—  Toleirão — murmurou, torcendo-lhe a orelha.  

—  Artur! — disse o Carvalhosa.  

—  Papá!  

—  Ficavas muito contente se eu te desse uma irmãzinha, meu filho?  

—  Oh papá, eu antes queria um cavalinho. Dê papá dê...  

—  Que destempero! — fez Maria do Resgate com riso doce.  

Eram seis e meia da tarde, noite já.

—  Vou vestir-me —  disse o Carvalhosa.  —  Pois  não sabes? Tenho a  cabeça leve.

O corredor estava às escuras, e os passos do Carvalhosa soavam, já no quarto.  Maria do Resgate acendeu uma vela e entrou com o pardessus de viagem. O  marido assoprou a luz, e ergueu-a ao colo, vigorosamente.  

—  Não faças bulha, que a rapariga está na casa de jantar — segredou-lhe  ela, toda trêmula.

Às sete horas, o Carvalhosa beijou os pequenos e partiu.  

—  Ó papá! — gritou da janela o Artur.

—  Que é isso?

—  Não se esqueça da manazinha, não?

—  Já a encomendei, descansa.

No dia seguinte,  quase duas  horas da  tarde,  bateram à porta e a  criada veio dizer que estava  um  senhor de idade.  Maria  do Resgate foi  ver.  Apenas ela apareceu, um homem já ruço depôs no corredor uma pequena mala de couro, e abrindo os braços  estreitou com a  maior  franqueza  a  pobre rapariga, pespegando-lhe três beijos muito repenicados nas bochechas.

—  Querida sobrinha! querida sobrinha! — fazia ele . repetindo os abraços,  com uma ternura que os seus cabelos brancos tornavam honesta. E detendo-se a notar o embaraço. e o rubor da pobre mãe, observou:

—  Tu não me conheces, hem? E toda espantada a olhares para mim? Eh! Sou o tio Sabino Pancada, o do Pará, o que escreveu há duas semanas. Não te mandei um retrato? Vê lá se estava parecido olha bem.

Mais risonha já, Maria do Resgate levou-o para a saleta, bem ao pé da janela e esteve a mirá-lo. Era homem alto e magro, maçãs salientes e enormes suíças em cipreste,  óculos escuros e cabelo à  escovinha. Tinha as grossas  mãos de um trabalhador, dedos nodosos e unhas chatas, o olho sereno dos fortes e a pele requeimada.

—  Pois é o tio? — disse ela adoravelmente. — Ah, como estou contente em o ver, não faz ideia! Tanto que lhe devemos tanto! Sucedeu justamente o que o Alfredo pensava... justamente! Uma coisa assim, não.

—  Então que pensava o meu sobrinho ?

—  Ontem à noite, antes de partir...

—  Quê? — fez ele com espanto, penalizado — partiu?

—  Às oito da noite de ontem para Elvas, em serviço do correio. Que ele é do correio, há mais de dez anos. O tio deve saber.

—  Sim, sim, é do correio. Mas que pensava o excelente rapaz?

—  Disse-me assim;  muito havia  de rir se por  estes  dias,  enquanto eu andava por fora, te aparecia aí o tio Sabino.

—  A passagem tem graça; palavra que tem!

—  E vai, disse-lhe: «Oh filho, mas eu nunca o vi mais gordo!» Modos de dizer! «Pois era por isso mesmo que tinha graça. A cara com que tu ficavas! ...» Porque na  verdade não o fazíamos em Portugal tão  cedo.  A carta  dizia  por estes meses. Já o tio vê ...

—  Decerto, decerto.  Mas uma  pessoa  não faz  sempre as coisas como as premedita,  filha.  Às vezes pensa-se assim,  e sai assado.  Principalmente no comércio!  De modo que recebi  um  telegrama do meu correspondente em Paris e tive de  embarcar no paquete  mais  próximo.  Cheguei  agora  mesmo. Venho enjoado do mar e  aborrecido da  vida  a  bordo.  Que maçada,  não imaginas! Vocês dão-me cá cômodo em casa, como eu lhes mandava pedir? Apesar de viver só  no  Pará,  tenho  sempre pena  de não haver arranjado família.  É como  um  homem  vive feliz.  Eu fico em  qualquer canto,  não se incomodem vocês.

—  Eu mando arranjar o  quarto num momento.  E venha o tio ver os pequenos,  o seu afilhado e  a  casa.  E tomar alguma  coisa,  que deve trazer vontade.

—  Não será mau, não será mau.

—  Artur! — chamou toda radiante a Maria do Resgate.

Uma criança apareceu de bibe curto às preguinhas, todo garrido de rendas e entremeios. Era forte e vermelha, de grandes olhos' e boca pequenina. Tinha uma barretina de cartão na cabeça e uma espada na mão, meias de lã às riscas, ares de guerreiro vitorioso.

—  Eh  maroto! —  fez o  tio  Sabino com um  movimento  para  agarrar o pequeno.

—  Quem é, mamã?

—  O  teu padrinho, pateta;  pede-lhe a  bênção  e dá-lhe  um  beijo.  —  O pequeno obedeceu.

—  Gostas de mim, gostas? — inquiria, fazendo inflexões ternas de voz, o velho comerciante. E para o entreter prometia-lhe caixas e caixas de bonitos que trouxera na bagagem, para ele só. Cobria-lhe as faces de beijos, dizendo: — Pareces-te com o teu pai, tens o ar e os olhos da nossa gente, marotinho. E loiro e valente, eh!. .

Maria do Resgate dava ordens na casa de jantar, revolvia as gavetas do linho rico para a cama do hóspede; ia-se estrear a colcha de damasco amarelo, com pássaros,  que o Carvalhosa  adquirira  num leilão.  E dos guarda-louças saía  a melhor  porcelana  inglesa,  quase transparente,  com filetes  delgados,  de caros esmaltes em mosaico. Quando tio Sabino entrou na casa de jantar teve como um deslumbramento. As crianças saltavam-lhe nos joelhos fazendo perguntas sobre tudo; as cortinas de cassa, afastadas para a banda, deixavam entrar o sol tépido de Inverno e a pureza incomparável do ar. Pelas janelas, abrangia-se o panorama mais  vasto  e pitoresco da  cidade e do rio;  os  canários  cantavam celebrando  a  alegria  da  hora e comendo a  alface fresca  e tenra  presa  nos arames das gaiolas; no aparador de carvalho, de ferrarias cinzeladas, as frutas e as passas, às pinhas nos açafates das Caldas e umas fruteiras de vidro, sorriam em disposições simétricas; tinham posto flores frescas nas jarras e descoberto a face de cristal polido do faqueiro de prata em estojo de veludo cereja. Um gesto,  um  conforto e um  asseio aromáticos  pareciam cristalizar naquele interior a  felicidade doméstica,  como um  diamante  nos três dentes de um engaste.  Havia  um  só talher,  mas as crianças pediram mais lanche  e foi preciso, para as satisfazer e agradar ao tio Sabino, sentá-las à mesa, aos lados  do velho, doido de alegria e cheio de comoções de ventura.

—  Vocês aqui devem ser muito felizes — dizia ele mirando tudo. — Vê-se de tudo isto que devem ser bem  felizes. Ah!.  .  eu nunca  tive família, senão criança. Que bem que isto faz!

E dilatado referia  a  sua  história,  os  contratempos dos  primeiros anos,  a  avareza  febril  com que são contadas,  embrulhadas e adoradas  as primeiras  economias,  a  cidade  de projetos  construída à  medida  que se  avança  no  negócio,  a  doida  embriaguez com que  se  recebem as primeiras felicitações  quando nos pressentem ricos.  Que mundo de aéreas fantasias,  que  titilamentos de ambição sem termo!.. 

Por três ou quatro felizes, sessenta e mais partidos da pátria com entusiasmo, saúde e esperanças, e cedo entregues à miséria, ao envilecimento e à morte. — E referia as casas de malta das cidades americanas, onde numa promiscuidade ignóbil apodrecem dezenas e dezenas de pessoas; os miasmas das respirações acumuladas e dos  corpos  sem higiene;  as  ásperas fadigas sem  paga,  dos miseráveis sem proteção!

O seu ideal fora sempre um ninho como aquele de Maria do Resgate, no meio  da  família  e  entre  crianças loiras.  —  Maria  do Resgate sorria  às expansões  calorosas do velho, satisfeita de o ver contente e comovida da história daquele  trabalhador  infatigável,  que só captara  as simpatias da  riqueza  ao cabo  de  trinta ou quarenta anos de labuta. Sem querer, tinha reparado numa coisa — o tio  Sabino  não oferecia  na pronunciação  o menor ressaibo brasileiro.  O  Alfredo apontara-lho como homem inteligente e amigo de leituras; bem podia  ser por conseguinte  que aquela  correção  no dizer,  um  pouco  lisboeta  porventura,  fosse  esforço  de estudo e evidente  resultado da  resistência  ao  contágio. Não pensou mais em tal, dali em diante. O chapéu do Chili, as botas  de  larga  tromba,  a  pele  seca  e trigueira,  a  longa  barba  corredia e os dentes  encravados em gengivas fofas de cárie, atestavam de sobejo o negociante do  Pará,  enriquecido pelo trabalho de toda a  ordem,  e filtrado durante longos  anos, através as gradações que vão da miséria ao conforto. A refeição durou  muito,  porque o tio  Sabino era  falador,  e a  cada  passo  interrompia  a   mastigação para fazer festas aos pequenos ou dar palestra à Maria do Resgate.

Quando se ergueu da mesa, um rubor se lhe alastrara na pele. Pediu licença  para acender o velho cachimbo de cipó, representando um tigre cingido por  uma  boa,  coisa,  segundo afirmava,  sem que não podia  passar  depois da  comida.  Foi  até à  janela,  e esteve largo tempo  debruçado ante o panorama  magnífico da  cidade  cheia  de sol.  Tinha  nos dedos enormes  anéis de  brilhantes, e um grosso cordão de ouro lhe servia de corrente de relógio. Os  cabelos, um tanto raros nas fontes, arrepiavam-se-lhe para trás, descobrindo   os ângulos de uma testa abaulada, de teimoso. O nariz astuto e cartilagíneo era  móvel nas asas,  caindo aduncamente  em gancho. Sorrindo,  uma contração  franzia-lhe as comissuras da boca roxa. Era antipático à primeira vista, mas a  voz e a palestra insinuavam-se, agradando. Maria do Resgate foi dar a última  vista de olhos pelo quarto que a criada acabara de arranjar, e voltou dizendo:  

— Que estava pronto e quando o tio quisesse...

O negociante não se fez demorar. Ia mudar de roupa e saía até ao jantar a fim  de conduzir as bagagens,  e encomendar camisas no  Leão da  Europa,  mais  modernas.

—  Pois, vá, vá — dizia a Resgate, de aventalinho branco. E tagarelando:  

—  O tio desculpa-me a desordem que vai por essas casas, sim? Como não esperávamos ..  E demais tenho uns engomados.

O  quarto era a alcova  do  Carvalhosa,  forrada de branco,  frisos de ouro aos  cantos.  Ficava ao centro  o leito de ferro fundido,  ornado  da  colcha  de damasco  amarelo e envolto nas amplas asas de um  dossel de casquinha  dourada, onde dois pombos trocavam beijos. em frente da janela uma consola  com pedra branca sustentava um grande espelho oblongo, de moldura negra e   serpentinas aos  lados.  Do outro lado,  sobre a  banca  de noite havia  um  despertador de cristal e uma palmatória de prata dourada, com vela. O quarto  era  contíguo ao toilette de Maria  do Resgate,  e a  porta  aberta  permitia  observar a desordem daquele interior; frascos destapados, sabonetes úmidos  diluindo na água das bocetas de porcelana, água suja no lavatório, uma caixa  de prata fosca  representando um  pêssego, aberta,  com pó-de-arroz,  à  borda  do tremó  em ferradura;  ao  canto a  banheira  tépida  exalando perfumes de  Agua Farina  e vinagre de Lubin, uma  dúzia  de  anéis  sobre  um  cofre; escancarado, o guarda-vestidos, e uma gaveta aberta mostrando um cofre de  joias, lapidado, em que as pulseiras, as medalhas e os pingentes se enroscavam  tremeluzindo,  em volutas de serpente fantástica. Justamente, por instinto de  vaidade,  Maria  do Resgate não fechou  a  porta  que separava  daqueles  aposentos o quarto do tio,  querendo que  ele visse  a  sua  riqueza, pudesse  aspirar os perfumes de que ela fazia uso, ficando ciente dos mil cuidados em  que envolvia o corpo branco, de burguesinha garrida. Do toilette ia-se para a sala  e para  o escritório do Carvalhosa.  Havia  no escritório  um  contador  de  charão com ferrarias  maltesas que tinha abertas as portas e a  chave na  fechadura  —  era  onde se  guardava  o pecúlio  adquirido e acumulado.  O  tio  Sabino  percorreu rapidamente  os  três  compartimentos,  sala,  escritório e  toilette que comunicavam entre si, e por onde se podia entrar por duas portas,  pela  da  sala  que dava  para  a  escada,  e pela  da  alcova  onde ia  dormir.  Bem!  Lançou ruidosamente a água na bacia do lavatório, tirou o fraque de cheviote  cinza, arregaçou as mangas da camisa de chita, e atirou com as botas. Lavava  as ventas, bufando de satisfação. Dobrou cuidadosamente o fato que despira,  e meteu-o na  mala  donde  já fizera  sair  uma rica farpela  de  pano  preto. Pôs  camisa  lavada  e envergou a  farpela  nova.  Diante  do espelho apartou a  guedelha, e sacudiu a poeira das botorras, cantarolando:  

Ai — i — ó — ai!  

Quem escorrega também cai.  

E, paramentado de rico, fez ainda sair da maleta de couro uma espécie de saco  de lona com fechos de correias. Debaixo da cama, por esquecimento, tinham  ficado as alpargatas do Carvalhosa.  O  tio  Sabino  calçou-as,  as suas narinas  palpitavam. Correu o fecho da porta cautelosamente, foi até ao escritório do  Carvalhosa e sacou da gaveta do contador uns rolinhos de libras; de passagem  pelo toilette arrecadou o cofre de joias, os anéis e a caixa de pó-de-arroz; de  cima da banquinha de noite desapareceu a palmatória de prata dourada e tudo  foi arrecadado no saco.

Ai — i — ó — ai!  

Quem escorrega também cai.  

Fechou destramente o saco, tendo-lhe metido primeiro a camisa de chita que  despira,  a  fim  de não tinirem  dentro os metais. E de  chapéu  à  banda e  cachimbo  na boca  saiu, o  saco pendente,  fechando a  porta  e tirando-lhe  a  chave. Ninguém estava no corredor; Maria do Resgate engomava na saleta; as  crianças na cozinha cortavam papagaios, chilreando.  

—  Até logo, minha sobrinha, até logo.  

Ela veio correndo, com o seu riso afetuoso.  

—  O jantar é às cinco, sim? Mas, querendo, dá-se ordem para mais tarde.  

—  Qual! Não temos precisão de incômodos. Às quatro e meia estou.  

Deu-lhe  dois beijos  na  testa,  levantou ao colo os  petizes  dizendo-lhes  calinices. A moça abriu a cancela para ele sair.  

—  Tenho bem que dar às pernas ainda hoje — ia dizendo o tio Sabino. —  Ir à  alfândega, ir  ao  cônsul,  ir à  camisaria,  ir tomar medida  de roupa ao  alfaiate..  Até logo, até logo...

E com a mala pendente, o lenço escarlate fora do bolso do fraque e a bengala  debaixo do braço, desceu a escada, cantarolando:  

Ai — i — ó — ai!  

Eram seis horas da tarde e nada do tio Sabino.  

—  Talvez se demorasse na alfândega.  

Sete horas,  e Maria  do Resgate acaba  de  notar  a  porta  da  alcova  fechada.  Diabo...

No dia seguinte a polícia andava em campo para descobrir o larápio, que com  tamanha pilhéria roubara a família Carvalhosa. Nem o hábil Antunes, nem o  sagaz Castelo Branco, nem o astucioso Ferreira conseguiram coisa alguma.  

É necessário cuidado com os tios da América.  


---
Fialho de Almeida - Contos (1881)

Nenhum comentário:

Postar um comentário