sábado, 31 de agosto de 2013

Antônio de Alcântara Machado: "O Monstro de Rodas"

O MONSTRO DE RODAS

O Nino apareceu na porta. Teve um arrepio. Levantou a gola do paletó.

— Ei, Pepino! Escuta só o frio!

Na sala discutiam agora a hora do enterro. A Aída achava que de tarde ficava melhor. Era mais bonito. Com o filho dormindo no colo Dona Mariângela  achava também. A fumaça do cachimbo do marido ia dançar bem em cima do
caixão.

— Ai, Nossa Senhora! Ai, Nossa Senhora

Dona Nunzia descabelada enfiava o lenço na boca.

— Ai, Nossa Senhora! Ai, Nossa Senhora.

Sentada no chão a mulata oferecia o copo de água de flor de laranja.

— Leva ela pra dentro!

— Não! Eu não quero! Eu... não... quero!...

Mas o marido e o irmão a arrancaram da cadeira e ela foi gritando para o  quarto. Enxugaram-se lágrimas de dó.

— Coitada da Dona Nunzia!

A negra de sandália sem meia principiou a segunda volta do terço.

— Ave Maria, cheia de graça, o Senhor...

Carrocinhas de padeiro derrapavam nos paralelepípedos da Rua Sousa Lima. Passavam cestas para a feira do Largo do Arouche. Garoava na madrugada  roxa.

— ... da nossa morte. Amém. Padre Nosso que estais no Céu...

O soldado espiou da porta. Seu Chiarini começou a roncar muito forte. Um bocejo. Dois bocejos. Três. Quatro.

— ... de todo o mal. Amém.

A Aída levantou-se e foi espantar as moscas do rosto do anjinho.

Cinco. Seis.

O violão e a flauta recolhendo de farra emudeceram respeitosamente na calçada.

Na sala de jantar Pepino bebia cerveja em companhia do Américo Zamponi (SALÃO PALESTRA ITÁLIA — Engraxa-se na perfeição a 200 réis) e o Tibúrcio (— O Tibúrcio... — O mulato? — Quem mais há de ser?).

— Quero só ver daqui a pouco a noticia do Fanfulla. Deve cascar o  almofadinha.

— Xi, Pepino! Você é ainda muito criança. Tu é ingênuo, rapaz. Não  conhece a podridão da nossa imprensa. Que o quê, meu nego. Filho de rico manda  nesta terra que nem a Light. Pode matar sem medo. É ou não é, Seu Zamponi?

Seu Américo Zamponi soltou um palavrão, cuspiu, soltou outro palavrão, bebeu, soltou mais outro palavrão, cuspiu.

— É isso mesmo, Seu Zamponi, é isso mesmo!

O caixãozinho cor-de-rosa com listas prateadas (Dona Nunzia gritava) surgiu diante dos olhos assanhados da vizinhança reunida na calçada (a molecada pulava) nas mãos da Aída, da Josefina, da Margarida e da Linda.

— Não precisa ir depressa para as moças não ficarem escangalhadas.

A Josefina na mão livre sustentava um ramo de flores. Do outro lado a Linda tinha a sombrinha verde, aberta. Vestidos engomados, armados, um branco, um amarelo, um creme, um azul. O enterro seguiu.

O pessoal feminino da reserva carregava dálias e palmas-de-são-josé. E na calçada os homens caminhavam descobertos.

O Nino quis fechar com o Pepino uma aposta de quinhentão.

— A gente vai contando os trouxas que tiram o chapéu até a gente chegar  no Araçá. Mais de cinqüenta você ganha. Menos, eu.
  
Mas o Pepino não quis. E pegaram uma discussão sobre qual dos dois era o melhor: Friedenreich ou Feitiço.

— Deixa eu carregar agora, Josefina?

— Puxa, que fiteira! Só porque a gente está chegando na Avenida Angélica. Que mania de se mostrar, que você tem!

O grilo fez continência. Automóveis disparavam para o corso com mulheres  de pernas cruzadas mostrando tudo. Chapéus cumprimentavam dos ônibus, dos bondes. Sinais-da-santa-cruz. Gente parada.

Na Praça Buenos Aires, Tibúrcio já havia arranjado três votos para as  próximas eleições municipais.

— Mamãe, mamãe! Venha ver um enterro, mamãe!

Aída voltou com a chave do caixão presa num lacinho de fita. Encontrou Dona Nunzia sentada na beira da cama olhando o retrato que a Gazeta publicara. Sozinha. Chorando.

— Que linda que era ela!

— Não vale a pena pensar mais nisso, Dona Nunzia...

O pai tinha ido conversar com o advogado.


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Nota:
Alcântara Machado: "Brás, Bexiga e Barra Funda" (1927)

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