
QUAL DOS DOIS?
CAPÍTULO PRIMEIRO
A Rua do
Ouvidor é a gazeta viva do Rio de
Janeiro. Ali se fazem planos políticos e candidaturas eleitorais; ali correm as
notícias; ali se discutem as grandes e
as pequenas coisas: o artigo de fundo dá o braço à mofina, o anúncio vive em
santa paz com o folhetim.
Não é,
pois, de admirar que ali comece este romance, que é ao mesmo tempo o romance do Dr. Daniel E...,
rapaz de vinte e oito anos, formado aos
vinte e dois, e regressado há pouco da Europa. Daniel é formado em direito, mas
até a idade em que o vemos aparecer não
pleiteou um só processo, e, a julgar pelo gênero de vida que leva, não promete
ser coisa que preste na ordem judicial. E, no entanto, não lhe falta talento, nem amigos,
nem protetores, três elementos capazes
de levantar um homem quando ele não tem má estrela. Mas apesar de todas essas
vantagens, Daniel não tinha nem gosto nem profissão de advogado, e estava mais
longe dela do que o pólo ártico está do pólo antártico.
Falemos
verdade: o grande obstáculo que havia em Daniel, não só para a vida forense
como para qualquer outra vida ativa, era a preguiça, o poderoso móvel do espírito humano
descoberto por La Rochefoucault, isso que Madame de Schönberg dizia ser — “um sentiment
si cachê et si véritable”. A preguiça quebrava-lhe os arrojos,
como lhe arrancava as paixões; e como felizmente ele possuía bens de fortuna, podia afoitamente
dispensar-se de tentar qualquer carreira trabalhosa, ou que simplesmente lhe
exigisse atenção.
Indiferente
ao movimento público, a queda de um ministério valia para ele tanto como a
extinção de um charuto. Nunca lera um discurso
parlamentar. Conhecia a Constituição por tê-la lido na academia. Não votava
nunca, nem tinha disposição de fazê-lo.
Nenhuma
grande ordem de idéias chamava a sua atenção; tinha em pouco as fadigas do gênero humano por bens que
lhe pareciam nulos, sem que desse a razão por quê, operação que lhe exigiria
certa atividade, que não tinha.
— A vida é
um ônibus, dizia ele; cada um paga a sua passagem e desce do veículo na
primeira cova que encontra. Ora, num ônibus, anda-se quieto; deixem-me andar
quieto.
Vê-se que
o sentimento da preguiça aliava-se um pouco a certa filosofia apática,
resultando deste consórcio a mais perfeita tranqüilidade de ânimo que jamais
entrou num peito daquela idade.
A sua vida
era, pois, serena, plana e uniforme. Nem tinha as grandes tempestades que
agitam o mar, nem os aspectos sombrios de um terreno cercado de montanhas. Era
a quietação do lago e a regularidade da
planície. Pode ser que houvesse dentro dele o germe das grandes paixões, mas
faltava fecundá-lo.
Vivia
Daniel na Rua do Ouvidor; os seus horizontes não passavam da casa do Bernardo
ou da livraria Garnier. Fazia algumas excursões a Andaraí, a Botafogo ou à
Tijuca, do mesmo modo que se faz a viagem a Buenos Aires ou a Lisboa; mas o seu
país natal era a Rua do Ouvidor. Se a Rua do Ouvidor não existisse, dizia ele,
era preciso inventá-la. Depois da Rua do Ouvidor, só uma coisa lhe merecia cultos:
a alcova em que dormia.
Era
elegante por indiferença; vestia o que lhe davam os alfaiates. Ia ao teatro por matar o tempo; entrava sem
curiosidade e saía sem comoções.
Não havia
memória de que se houvesse zangado alguma vez, nem com os escravos, nem com os
amigos, que ele aliás confundia até ao ponto de dizer que via um amigo em cada
escravo e um escravo em cada amigo.
Não consta
que depois de formado concluísse a leitura de um livro, qualquer que fosse, nem que soubesse o título
dos que lia à noite para chamar o sono.
Tinha,
entretanto, talento, como disse, e podia ser alguma coisa, na política, no
foro, nas letras e até no amor, porque era um tipo singularmente belo, um
desses rapazes com que sonham as meninas de 15 anos. Mas não amava, nem era
amado.
Vivia com
o pai; e completavam ambos toda a família. O contraste era expressivo; tão
apático era um, quão ativo era o outro. O velho Marcos era negociante desde
longa data; ganhara no comércio todos os seus cabedais; agora, trabalhava para
não vadiar. Entendia que o trabalho não era um meio, mas um fim. Quando o filho
se dava algumas vezes ao trabalho de provar o contrário, o bom do velho limitava-se a sorrir e a responder:
— Tens
razão, meu peralta; tens razão, porque eu não posso admitir que não tenhas
razão, mas deixa-me continuar no erro.
Outro
contraste: Marcos era sempre folgazão; Daniel ria poucas vezes, menos por
misantropia que por indolência. Mas, como não se zangava, também não
apresentava nenhum contraste.
Tinha ido
a dois ou três saraus em toda a sua vida; não dançou, nem jogou, nem ceou; limitou-se a olhar, a fumar e
a trocar algumas palavras. Não se demorou em nenhum deles mais de uma hora.
Tal é o
Dr. Daniel a quem os leitores vão ver na Rua do Ouvidor, à porta de uma loja de
modas.
CAPÍTULO II
Era há
cinco anos, e na época das câmaras. A Rua do Ouvidor é nessa época o grande
pasmatório da capital; ali vão ter os deputados e os curiosos, os políticos por ofício e por
devoção. À porta da loja em que vemos Daniel estão dois deputados conversando;
trata-se de uma interpelação para o dia seguinte. Daniel, encostado ao
mostrador, do lado da rua, fuma negligentemente um charuto, e olha distraído algumas
mulheres que vão passando.
De quando
em quando lhe chega aos ouvidos algumas palavras truncadas da conversa política; a única
impressão que produz no rapaz é um sorriso.
No fim de
algum tempo, parou diante de Daniel um rapaz baixinho, representando ter trinta anos,
nem bonito nem feio, mas
elegantemente vestido. Eu diria que era um dandy, se a
novíssima expressão francesa petit crevé não correspondesse melhor ao
tipo do recém-chegado.
— Adeus,
Daniel! disse este.
— Como
estás, Valadares? Que fazes?
— Faço
horas para jantar. São três e meia, não? Queres tu vir jantar comigo?
— Pois
sim.
Valadares
encostou-se também ao mostrador, cavalgou o pince-nez, e pôs-se a olhar para
quem passava. Houve entre ambos um silêncio de alguns minutos.
No
entanto, a conversa dos deputados tornara-se animada, a ponto que Daniel voltou rapidamente a cabeça,
justamente na ocasião em que um deles tirava do bolso um papel que ia ler ao
outro.
Daniel
sorriu.
— Quem são
estes dois sujeitos? perguntou Valadares.
—
Deputados.
Novo
silêncio, interrompido por Valadares:
— Sabes
que o Abreu fugiu? disse ele.
— Por quê?
— Achou-se
alcançado na caixa do patrão; e não querendo expor-se a alguma vergonha, achou
mais prudente retirar-se da cena.
A resposta
de Daniel foi sacudir a cinza do charuto.
Valadares
continuou:
— Nem
sabes a causa disto?
— A
Mariquinhas?
— Justo.
— Era
previsto. Quando fugires também...
— Eu?
— Tu.
— Mas se
eu tenho caixa à minha disposição...
— Não se
foge só do Rio de Janeiro, foge-se também do mundo.
— Um
suicídio?
— Isso
mesmo.
— Assim
era eu tolo!
— Quando
fugires do planeta, eu saberei logo que é por causa da Luisinha.
— Não
digas mal da pequena...
— Bem sei
que é um anjo, disse Daniel; mas isso não impede que lhe sacrifiques a vida;
acho até natural...
— Com que
cara ficarás quando eu te der uma notícia...
— Que
notícia?
— Vou
casar-me.
— Com ela?
— Pateta!
vou casar com uma conhecida nossa: uma das Seabra.
— Qual
delas?
— A
Amélia.
— Creio
que são minhas primas remotas.
— Vê lá se
um homem, às portas do casamento, pode lá matar-se por...
Daniel
sorriu batendo com a bengala na ponta do pé, e replicou:
— Mas isso
e o que eu digo é a mesma coisa. Casar é fugir ao mundo; a bênção nupcial não é
mais do que uma encomendação em regra. Ora, se tu te metes na sepultura do
casamento, é justamente por causa da
Luisinha, cujos caprichos já não estão de acordo com os teus sentimentos.
Pode-se
afirmar que esta meia dúzia de palavras produziu o maior discurso que Daniel
fez em toda a sua vida. Por isso mesmo, apenas as proferiu, recolheu-se ao silêncio e não
respondeu mais às mil razões que
Valadares lhe dava relativamente ao casamento com a Amélia e ao rompimento com
a Luísa.
Desculpem-me
se resumo no mesmo período estes dois nomes: o de uma noiva e o de uma cortesã. Estavam unidas
também na memória do rapaz, andam por aí ligados na vida; eu não faço mais do
que copiar.
Valadares
acabava de dar as mil razões do seu casamento, quando à porta da loja parou um
carro; o lacaio foi abrir a portinhola e saíram de dentro duas senhoras: uma
velha, ainda conservada, e uma rapariga
de cerca de vinte anos.
Um dos
deputados que estavam à porta conhecera-as apenas parou o carro e foi
oferecer-lhes a mão. Saiu primeiramente a velha, e depois a rapariga; entraram ambas na loja.
Daniel
tinha, como um amigo meu, a mania de examinar os pés às mulheres.
— A
mulher, dizia ele, é um livro; o pé é o índice do livro.
E já por
aqui vê o leitor que Daniel tinha outra mania, que era a dos aforismos e
sentenças.
Com a
mania de examinar o pé às mulheres, Daniel não soube se a rapariga era bonita
ou feia, morena ou clara; soube, apenas, que tinha um bonito pé. Quando quis olhar-lhe para
a cara, já ela havia entrado na loja. Mas nem procurou vê-la através da
vidraça; limitou-se a voltar-se para Valadares e perguntar:
— Que
gente é esta?
— É da
família do B...
B... era
um deputado do Norte.
Valadares
olhou pela vidraça.
— Vê,
Daniel, vê, como é bonita!
Daniel
voltou o rosto e viu com efeito que a pequena era bonita; mas não soltou
nenhuma exclamação.
As duas
senhoras pouco tempo se demoraram; alguns minutos depois, chegaram à porta para entrar no carro.
A moça ficou justamente ao lado de Daniel. Este olhou para ela, a fim de
confirmar a primeira opinião, e deu com os olhos dela que, por acaso, se cravaram nele. À claridade, a moça pareceu-lhe
mais bonita do que a princípio; mas não teve tempo de admirá-la, porque ela,
fazendo com a boca um gesto de desdém, voltou-lhe as costas e encaminhou-se para o carro, cuja portinhola estava aberta.
A velha
entrou depois e o carro partiu logo; Daniel olhou para dentro: a moça ia conversando com a velha, e sem
prestar atenção a coisa alguma.
Toda esta
cena, aliás rápida, escapou a Valadares; Daniel, um pouco despeitado com o
gesto da moça, sorriu-se e tirou o relógio do bolso dizendo:
— Vamos
jantar?
— Vamos,
disse Valadares.
Na ocasião
em que iam descer para o Hotel Inglês (onde Valadares jantava habitualmente), Daniel viu na calçada
uma liga, abaixou-se e apanhou-a.
— Será a
liga da pequena? perguntou Valadares.
— Honny soit qui mal y pense! respondeu Daniel sorrindo e guardando a liga no bolso.
Foram
jantar.
Durante o
jantar, não se conversou mais no episódio da liga, nem da moça do Norte.
Apenas, quando veio o café, Daniel perguntou onde morava aquela família, e soube que em
Mata-cavalos. A conversa não passou
disso.
A verdade
histórica pede que se diga que ainda durante essa tarde a lembrança da dona da
liga perturbou um pouco o espírito de Daniel; mas posso afirmar que à noite já ele de nada
mais se lembrava.
Quando
voltou à casa, atirou a liga para dentro de uma secretária, e nisto ficou tudo.
CAPÍTULO III
As
senhoras do carro moravam em Mata-cavalos.
A velha
era irmã de um deputado do Norte; chamava-se Madalena e era viúva de um oficial
do exército. Augusta, sua filha, contava perto de vinte anos, e era, no dizer dos que a
conheciam, a mais bela cara da província. Mas não se lhe notavam somente as
feições; Augusta distinguia-se principalmente pela graça e elegância das
maneiras, a que dava realce um certo ar de altivez.
Tendo sido
eleito deputado, o Dr. B..., irmão da velha e tio da moça, entendeu que aproveitaria o ensejo de ver a
capital do império trazendo consigo as duas senhoras. A proposta foi aceita com
entusiasmo por Madalena e simples agrado
por Augusta.
Efetuou-se
a viagem, e na época em que começa esta narrativa já eles aqui se achavam havia dois meses, tendo
vindo um mês antes da abertura das câmaras.
Augusta
fez sensação nas salas em que apareceu; a beleza, a graça, as maneiras da moça a todos impressionavam e
todavia eram comuns essas coisas na vida fluminense; mas em Augusta tudo isso
trazia um ar característico, um cunho pessoal, que distinguia a moça das demais
mulheres.
Impressionado
pela distinção de Augusta, um desalmado rapaz disse-lhe uma noite que não
supunha a província capaz de produzir obra tão prima, e que ela era com certeza
a fênix das provincianas.
— A
natureza compensa tudo, respondeu Augusta; é possível que na província as
senhoras como eu sejam raras, mas os homens como o senhor com certeza são
raríssimos.
Esta
resposta foi ouvida por um amigo do rapaz, que não tardou em espalhá-la, e dentro de pouco tempo foram
comentadas as palavras da bela provinciana.
— De mais
a mais tem espírito, observou um sujeito.
— Parece.
A vítima
do dito estava presente, e disse:
— É pena,
porque é bem bonita.
— É um realce,
acudiu o primeiro; e para resumir na mesma designação as suas graças e as suas
arranhaduras, chamar-se-á a onça de Médicis.
O nome não
pegou, porque dos cinco rapazes então presentes, apenas o autor da idéia sabia
da existência de uma Vênus de Médicis, condição essencial para compreender o
dito; contudo, foi este acolhido com o riso dos circunstantes, um desses risos
esquerdos que não querem dizer coisa
nenhuma.
A
reputação de Augusta ficou firmada com mais um ou dois repentes iguais ao
primeiro, de maneira que quando a gente a encontrava, se sentia tomada por dois sentimentos diversos: a
fascinação e o temor. Admirava-se a moça como se admirava uma bela pantera.
Nenhum
destes antecedentes era conhecido pelos dois rapazes com quem travamos conhecimento na Rua do Ouvidor;
Valadares, o único que conhecia a família, só a conhecia de vista, por tê-la
encontrado em casa de terceiro.
Mas, se em
vez de seguirem para o Hotel Inglês tivessem entrado na loja, depois da partida do carro, ouviriam
este diálogo dos dois deputados a meia voz:
— Como vão
os seus negócios com a Augusta? perguntou o mais velho dos dois.
— Na
mesma, respondeu o mais moço.
— Então,
nenhuma esperança?
—
Esperança sempre. Já lhe disse uma vez e repito: eu tenho a ambição de ser Ministro
de Estado, ou Embaixador ou qualquer outra coisa por este gênero; não tanto porque esses
cargos pudessem legitimamente seduzir a ambição política; mas principalmente
porque talvez assim obtenha as boas graças de Augusta.
— Disse-me
isso uma vez, respondeu o outro; mas cuidei que fosse simplesmente gracejo; há
de lembrar-se que o disse rindo. Desta vez, fala-me com seriedade. Será certo
que as suas ambições têm por principal esse motivo?
— Estou
apaixonado.
O
interlocutor sorriu e replicou:
— Espécie
nova: político por amor. Há de ser bonito num romance, mas no Parlamento é...
—
Ridículo, bem sei.
—
Justamente.
— E, no
entanto, é verdade.
Houve um
instante de silêncio.
— Luiz,
disse o interlocutor do namorado, deixe-me dar-lhe este nome: tenho o direito
da idade. Como contaremos com você, se o seu
procedimento depende todo do capricho de uma moça?
— Nem por
isso deixei de ser até hoje aliado fiel e ativo. Cuida que quando subo à tribuna não vou levado por uma
convicção sincera? Vou; mas, se emprego às vezes demasiado ardor, confesso que
uma parte dele é o resultado da intenção em que estou de fundar uma posição dominante... por causa dela.
— Mas não
vejo...
— Vejo eu.
Cuido que desse modo poderei vencer-lhe o orgulho.
O velho
abanou a cabeça e franziu os lábios com um gesto de desagrado.
Mas a
conversa parou aqui.
Luís saiu
para o hotel em que morava; o velho foi jantar com um dos chefes da oposição.
Ao
despedirem-se, disse o velho ao rapaz:
— Então,
amanhã é a interpelação.
— Amanhã.
CAPÍTULO IV
Oito dias
depois destas cenas, estando Daniel almoçando em casa, e
só, porque
eram 11 horas e o velho Marcos almoçava às 8, apareceu Valadares alegre e
rubicundo.
Daniel
ofereceu-lhe o almoço.
— Aceito,
porque ainda não almocei, e confesso que não pretendia fazê-lo por não ter
vontade nenhuma. Mas pode ser que a tua companhia me abra o apetite. O velho
está cá?
— Não.
Valadares
sentou-se à mesa e começou a almoçar.
Durante os
primeiros minutos, apenas trocaram raros monossílabos.
Daniel
acabou primeiro e acendeu um charuto.
— Que
novidade há? perguntou ele.
— Uma
grande novidade, respondeu Valadares.
— Imagino.
— Verás:
uma novidade incrível e entretanto verdadeira, uma novidade, que não é para ti, porque já te dei
parte dela, mas então foi um pouco vagamente.
— Vamos
ver o que é.
— Caso-me.
— Ah!
— Caso-me
daqui a um mês.
— Estimo
muito.
Valadares
cruzou o talher e recebeu a xícara de café que lhe ofereceu o servente.
— Caso-me
com a Amélia Seabra, e deste modo fico aparentado contigo. Ora, queres que te diga? por muito
superior que seja um homem, esta idéia de casamento é sempre uma grande
preocupação. De cada vez que me levanto da cama pergunto a mim mesmo se é certo que dentro de pouco tempo estarei
eternamente unido a uma mulher. Eternamente! eu que nunca dei ao amor mais de
dois meses de vida. Que te parece?
— Nada.
Valadares
engoliu rapidamente o café, recuou a cadeira, e acendeu também um charuto.
— Dou um
baile, sabes? disse ele a Daniel; e peço-te por especial obséquio que assistas
a ele.
Daniel fez
um gesto de assentimento.
— Creio
que terei muita gente, continuou Valadares; conto já com dois ministros e
quatro senadores; são convites de meu sogro. Eu apenas me encarrego de convidar
os rapazes. A propósito, lá teremos a pequena da liga.
— Que
pequena?
— Ora,
aquela que deixou cair a liga na Rua do Ouvidor... não te lembras?
— Ah!
Daniel
recordou-se então do incidente da Rua do Ouvidor.
— Que
fizeste da liga? perguntou Valadares.
— Creio
que a pus na secretária.
Levantaram-se
da mesa.
Indo para
o seu gabinete, Daniel abriu a secretária e encontrou ainda a liga perdida por Augusta.
— Maganão!
disse Valadares, guardaste-a!
— Por
distração... respondeu Daniel.
E tornou a
fechar a secretária.
Depois do
encontro com Augusta, era a primeira vez que ela lhe voltava ao pensamento.
Daniel recordava-se do gesto de supremo desdém e indiferença com que ela
desviara os olhos e entrara no carro.
Se a
preguiça, como quer o moralista, destrói todas as paixões, confessemo-lo que o faz lentamente e não de um
lance. Daniel ainda tinha em si uma boa dose de orgulho que resistia à ação do
elemento dissolvente. A lembrança de Augusta foi de orgulho ofendido. O seu amor-próprio sofreu naquele momento com a
evocação da cena da Rua do Ouvidor.
— Com que
então a moça da liga vai ao teu baile...
— Vai; é
também convite de meu sogro. Sogro! Acho uma novidade nisto; parece-me que vou
mudar da terra. Meu sogro! não pensei nunca que tivesse de dar este nome a
alguém. E no entanto... É o que te há de acontecer.
Daniel
levantou os ombros.
— A mim?
disse ele; se toda a humanidade esperar por mim para casar, podemos dar por
extinta a raça humana.
— Era
justamente o que eu dizia...
—
Importa-me pouco o que tu dizias...
— Verás...
verás...
Valadares
saiu pouco depois e foi direitinho, não para a casa da noiva, mas para a casa
de alguém já indicada neste romance.
Hão de ter
notado que Valadares em toda a conversa sobre casamento só de passagem aludira
à mulher. Contrário a todos os noivos, a futura esposa não lhe merecera cinco
minutos de atenção nas suas expansões
com um amigo. Nem mais nem menos, tratava-se de um desses mercados a que, por
cortesia, se chama —
casamento
de conveniência, — dois vocábulos inimigos que a civilização aliou.
Valadares
tinha chegado naquele ponto em que se bifurca a estrada da vida de um estróina:
de um lado, o casamento de conveniência, do outro a perdição completa. É
difícil naquela situação encontrar uma mulher
que se disponha a dar a mão ao estróina; achou-a Valadares.
Estas
mesmas reflexões fê-las consigo Daniel, apenas se separou do outro, e, fazendo-as, comentou-as por modo que
eu estenderia muito estas páginas se quisesse desenvolver as suas reflexões.
Não se
davam com Daniel as circunstâncias de Valadares. Daniel era mais que tudo um
homem extremamente pessoal. O casamento impor-lhe-ia uma preocupação que ele
não queria ter; quanto aos prazeres do lar doméstico, eram coisa frívola para
ele.
Quando o
velho Marcos, ouvindo dele a notícia de que Valadares se ia casar, insinuou ao filho que o exemplo era bom
de seguir:
— Pois não
fosse! respondeu Daniel, oferecendo um charuto ao pai.
CAPÍTULO V
O
casamento de Valadares produziu grande impressão dans un certain monde, não acreditaram
nele à primeira notícia, mas afinal não havia contestação que o boêmio, o
estróina, o desalmado Valadares ia tomar estado.
A alguns
parecia um sacrilégio, outros acharam que era simplesmente um milagre.
— Com que
direito, dizia a Luisinha já citada, com que direito nos arrancam as pérolas do nosso adereço?
Havia um
adereço em que Valadares era pérola.
Os rapazes
já enraizados no país de Citera davam o noivo por maluco, posto que, no ânimo
de alguns, o casamento era natural à vista dos bens da noiva.
Enfim,
apesar de mil comentários e algumas apostas, Valadares casou.
Foi
excelente a reunião em casa do sogro. Lá se achou, como prometera, o misantropo
Daniel e mais o pai, que foi um dos padrinhos do casamento.
A noiva de
Valadares era uma rapariga bonita, mas extremamente faceira, e apesar da
especialidade do dia, em que todas as mulheres se parecem, era fácil adivinhar nela uma
casquinha de primeira ordem. Via-se que era uma menina que casara para adquirir
a liberdade de arruar. Caía em boas mãos.
Daniel,
segundo o seu costume, não dançava; divertia-se em ver dançar os outros.
A família
do deputado B... entrou às 10 horas; acompanhava-a Luís, o interpelante oposicionista que já encontramos
na Rua do Ouvidor.
Augusta
estava radiante; a sua beleza, que reunia magnificamente a graça e a
severidade, era dessas que centuplicam com as luzes da sala e perdem com a luz
do dia. Quer isto dizer que, se Daniel a achara bonita na Rua do Ouvidor,
achou-a divinamente bela no salão dos
Seabras.
Quando ela entrou, fez sensação. Todos se curvavam
involuntariamente por onde ela passava, semelhante à Vênus clássica, cuja
divindade se percebia simplesmente pelo andar. Daniel achava-se encostado a uma
porta por onde Augusta entrou na sala da dança. Não se curvou, nem deu sinal de si. Augusta
pareceu recordar-se das feições do rapaz, e demorou-se alguns segundos a olhar
para ele, mas para logo retirou os olhos, repetindo o mesmo gesto de desdém que
tanto impressionara o filho do velho Marcos.
— Por que
este gesto?
Perguntava
Daniel a si mesmo. Nunca a tinha visto, nem pretendido. De onde vinha essa
espécie de prevenção contra ele? A curiosidade e o amor-próprio do rapaz estavam sofrivelmente
aguçados.
Augusta
entrou na sala pelo braço do tio; Luís dava o braço a Madalena.
Quando
Valadares a viu entrar, foi ter com Daniel.
— Tive uma
idéia, disse ele ao amigo.
— No dia
de hoje, nenhuma idéia pode ser boa.
— Pois é.
Casa-te com Augusta.
A dança
interrompeu o diálogo.
Daniel
colocou-se de modo que visse Augusta; esta dançava com Valadares.
Durante a
maior parte da quadrilha, os olhos de Daniel não se encontraram com os de
Augusta; mas no fim, por simples acaso, a moça olhou para o rapaz, e sustentou
por alguns instantes o olhar dele. Pareciam interrogar um ao outro. Desta vez,
foi Daniel o primeiro que afastou os olhos, e retirou-se.
Saiu dali,
foi para uma sala intermediária, e ali atirou-se a um divã.
Estava só.
Consultou
o relógio, olhou para o teto, examinou as luvas, concertou a gravata,
levantou-se, deu alguns passos, e tornou a sentar-se até que a quadrilha acabou.
A sala foi
invadida por alguns pares.
Posto que
fosse perfeito homem de sociedade, nada o aborrecia mais que o frufru das
sedas, o estalar dos leques, o murmúrio das conversações, todos esses rumores
de uma festa alegre, que destoavam com o seu espírito reservado e solitário.
O fastio
começou a invadi-lo; dentro de uma hora, se lhe não tivessem mão, estaria entre
os lençóis.
Levantou-se
e ia dirigir-se para a outra sala, quando lhe apareceu o pai, dando o braço a
Madalena. Marcos chamou-o. Daniel aproximou-se; o velho apresentou o filho à
mãe de Augusta.
Daniel
recebeu a apresentação com frieza; porém, Madalena foi tão amável que era
impossível esquivar-se-lhe. Conseqüentemente, conversaram os três durante algum
tempo.
O grupo
foi aumentado daí a alguns minutos com a chegada de Valadares que trazia Augusta pelo braço. Nova
apresentação e desta vez mais solene para os dois apresentados. Nenhuma palavra
foi trocada além do simples cumprimento que Daniel dirigiu a Augusta e que esta
ouviu inclinando levemente a cabeça e olhando-lhe para os pés.
Não tinha
que ver: aquelas duas criaturas antipatizavam um com o outro. Não se casava a
altivez de uma com o orgulho do outro. Era o caso do provérbio: duro com
duro...
Mas se
ambos antipatizavam a tal ponto, nem por isso Daniel deixava de admirar a
beleza de Augusta, e Augusta a desdenhar a severidade de Daniel; e essa mesma admiração os afastava
mais; porque a admiração é um preito; e nas poucas e curtas vezes que se haviam
encontrado, claramente se percebia em
cada um deles a consciência da superioridade.
Não era
entretanto do mesmo modo que Augusta olhava para Luís; para este olhava com
certa compaixão. Parecia ter pena dele. Quando este lhe falava, ela respondia
com bondade e doçura, mas a doçura e a bondade de quem trata com um inferior, o
que contrastava com o respeito do namorado político. E, no entanto, o crime
dele era simplesmente gostar dela, e havê-la pedido em casamento, ao que ela se
escusou, dizendo que era melhor ficarem simples amigos.
Luís não
dançava; tinha como Daniel, a opinião de que a dança é um prazer dos olhos.
No fim,
porém, de meia hora, Valadares foi ter com Daniel insistindo para que ele dançasse ao menos uma quadrilha,
ao que ele recusou. Como estivessem a discutir este importantíssimo ponto,
passou Augusta, e Valadares
interrompeu-a para dizer-lhe oficiosamente:
— O Dr.
Daniel incumbiu-me de lhe pedir esta quadrilha para ele.
Daniel
mordeu os beiços.
Augusta respondeu
olhando para Valadares.
— Mas eu
não danço mais.
— Por quê?
— Estou
cansada.
Daniel
interveio.
— O
Valadares, disse ele, pediu-lhe espontaneamente uma honra que eu não ousava desejar, nem esperar.
— Estou
cansada, repetiu secamente Augusta, a quem Valadares deu o braço, escapando
assim a uma repreensão do amigo.
Daí a um
quarto de hora, Daniel desapareceu do baile.
CAPÍTULO VI
Despontava-lhe
já uma espécie de ódio contra Augusta. Seria esse o caminho do amor?
Quinze
dias depois dos acontecimentos que acabamos de narrar, achava-se Augusta
sentada ao piano, na casa de Mata-cavalos, quando lhe entrou pela sala a dentro
a mulher de Valadares.
Começava a
moça a usar da liberdade que procurara no casamento.
— Tua mãe?
perguntou ela a Augusta, depois dos primeiros beijos.
— Está lá
dentro; vou mandá-la chamar.
— Creio
que o moleque já lhe foi dizer que eu estava aqui.
— Anda
sentar-te.
Amélia
sentou-se e disse sorrindo para Augusta:
— Não me
perguntas por meu marido?
— Ia
fazê-lo.
— Está na
repartição. A primeira coisa em que concordamos, é que eu saísse a passeio quando me parecesse. Eu não
sou criança para andar agarrada a meu marido. Na Europa, não se usa isso.
Demais, tenho toda a
confiança nele. Acho-te pálida hoje...
— Dormi pouco.
— Alguma
preocupação?
— Uma
enxaqueca.
— Que
calor!
— Com
efeito, o dia está quente.
Amélia
agitou o leque lançando pelos móveis da casa esse olhar de curiosidade indiscreto que tanta gente emprega
numa casa onde entra pela primeira vez, sintoma de uma grosseria sem-par.
Augusta
olhava para ela sorrindo.
Nesse
momento, entrou Madalena.
— Já de
passeio! disse ela, beijando a mulher de Valadares.
— Não é
cedo.
— Seu
marido está bom?
— Está.
— São
felizes, creio.
—
Completamente. Ah! o casamento foi a melhor invenção deste mundo. Por que razão não casa sua filha?
— Porque
não encontrou noivo.
— Isso é
fácil.
— Não
tanto, acudiu Augusta; além de que não tenho pressa.
— Pois
quanto mais cedo melhor, disse Amélia.
— Augusta,
disse Madalena, terá um noivo quando quiser. Agora
mesmo...
— Ah!
algum apaixonado?...
Augusta
levantou-se e foi buscar o lenço ao piano.
— Não
falemos nisso, disse ela.
Amélia
levantou-se também.
— Já se
vai? perguntou Madalena.
— Já;
tenho de ir escolher uns vestidos. Quer D. Augusta ir comigo?
— Não
posso.
— Então,
adeus. Olhe, dou-lhe um conselho: não seja cruel.
— Por que
não vem tomar chá conosco esta noite? Perguntou Augusta.
— Não
posso, respondeu a moça, tenho de ir com meu marido visitar o velho Marcos. Conhece, não?
— É aquele
homem que me apresentou na noite do seu casamento? perguntou Madalena.
—
Justamente; somos parentes. Está muito mal.
— Parecia
vender saúde.
— O filho
foi lá hoje à nossa casa dar-nos parte da moléstia do pai.
— O Dr. Daniel?
— Sim.
Adeus!
Amélia
saiu.
Depois do
baile, era a primeira vez que Augusta ouvia o nome do rapaz, e qualquer que fosse a razão, não pôde
ouvi-lo sem algum abalo.
Ficando só
na sala, Augusta foi sentar-se ao piano e começou a dedilhar não sei que composição alemã. Mas
evidentemente o seu pensamento estava ausente. Algum tempo depois, entrou em
casa o tio, acompanhado de Luiz.
Depois da
recusa que fora dada na província, era a primeira vez que Luís aceitava um
convite de B... para jantar em casa dele. Era um escrúpulo pueril, se querem; mas o moço tinha
esse escrúpulo e obedecia-lhe involuntariamente. Mas, como resistir às
instâncias do velho? E sobretudo como
recusar o prazer de respirar o mesmo ar que a moça?
Quando os
dois deputados entraram na sala, Augusta levantara-se do piano.
O jantar
foi imediatamente posto na mesa.
Depois do
jantar, Luís esteve algum tempo a sós com Augusta. Conversaram de coisas
indiferentes. A moça felicitou-o pelos aplausos que lhe deram como orador. Luís
recebia-os com um ar de modéstia que não
escondia completamente o sentimento de satisfação que lhe dava aquele elogio
vindo da boca de Augusta.
Depois,
acrescentou:
— Todos
esses aplausos têm para mim uma única vantagem: adiantar a minha posição.
— Tem
ambição política?
— Não; bem
sabe qual é a minha ambição.
A moça
ficou séria.
Luís
contemplou-a com um sorriso de dor; depois procurou pegar-lhe na mão, que ela
retirou apressada, dizendo:
— Perdão!
tenho que fazer...
E como
desse um passo para fora, Luís adiantou-se e disse-lhe:
—
Engana-se, D. Augusta, eu não venho falar-lhe de coisas em que não posso tocar.
Queria simplesmente pedir-lhe desculpas se alguma vez a ofendo com alusões a um
sentimento de que não tenho culpa.
— Nem eu,
creio.
—
Voluntariamente, não.
A moça
recuou e foi sentar-se.
— Olhe,
disse ela; disse-lhe uma vez que podíamos ser bons amigos. Quer assim?
— Aceito,
e já é muito; mas creio que me é lícito esperar o seu amor.
—
Esperança inútil.
— Inútil?
será, mas espero.
Augusta
sorriu.
—
Ambiciosa, disse consigo Luís.
Mas ao
mesmo tempo, como que arrependido desta exclamação interior, o namorado entrou a sorrir para
ela, — sorriso de súplica e de contrição.
Augusta
não reparou nisso.
No
entanto, a tarde caía, e a melancolia da hora servia de fundo àquele quadro
já de si
tão triste: um
coração de fogo
ao pé de um coração de rocha, um destino inteiro nas mãos
de uma mulher indiferente, a vida ou a morte de um homem dependente do olhar compassivo
de uma mulher.
Uns terão
simpatia pela posição de Luiz; outros tédio. Depende dos caracteres. Os altivos julgarão que nenhum
homem deve aspirar à mão de uma mulher, quando esta lha recusa. São leis boas
para o papel. Quem conhece o coração humano compreende, lastimando embora,
essas situações humilhantes em que o amor pode colocar um homem, aliás brioso e digno de si.
Não poucas
vezes, Luís discutira consigo mesmo a situação em que se achava, e nunca o seu
espírito lavrou uma sentença de abandono que lha não reformasse o coração, juiz em última
instância nestas matérias de amor.
Todavia, a
cena daquela tarde impressionara singularmente o moço. Pareceu-lhe que a
insistência seria já degradação; resolveu lutar e esperar.
Despediu-se
de Augusta pouco depois e saiu.
Augusta,
quando se achou só, respirou; era evidente que a presença de Luiz a
importunava.
CAPÍTULO VII
A doença
de Marcos foi mortal; dois dias depois da visita de Amélia o bom velho faleceu,
deixando saudades a todos quantos o conheciam.
Na vida de
Daniel foi um vácuo. Não se costumara à idéia de que viria a perder o pai; era
a única família que tinha, e provavelmente o único ente a quem estimava neste
mundo.
Os amigos
deram-lhe as consolações do costume; alguns discursos foram proferidos na ocasião de dar-se o
cadáver à sepultura; mas discursos, nem consolações podiam distrair o moço da
dor que acabava de sofrer.
Para os
outros pais foi um fausto acontecimento; era o noivo rico que convinha prender de algum modo. Por isso foi
grande a afluência de senhoras à missa do sétimo dia.
Lá estavam
Madalena e Augusta.
Quando no
fim da missa, começou a cerimônia dos pêsames, Daniel recebia-os maquinalmente e sem dar sinal de
si. Não aconteceu o mesmo, quando
Augusta se aproximou dele e murmurou algumas palavras de consolação; não contava que ela
estivesse na igreja.
Todavia,
nem o estado dele, nem o lugar eram próprios para maiores espantos. A moça
seguiu a mãe, e Daniel ouviu as consolações do resto dos assistentes.
Valadares
convidou Daniel para ir passar alguns dias em casa dele; apesar das recusas,
tanto instou que Daniel cedeu, e para lá foi mesmo dali.
A morte do
velho Marcos punha nas mãos de Daniel uma magnífica fortuna. Não contando com
ela tão cedo, o rapaz não sabia em que empregá-la.
A mulher de Valadares era da opinião que se casasse; Daniel abanou a cabeça;
Valadares aconselhou-lhe uma viagem à Europa
como coisa de maior proveito. Este conselho provocou entre o marido e a mulher
uma pequena discussão que ia terminando por um ataque de nervos, desenlace
seguro de muitas tragédias domésticas.
A idéia de
viagem também não agradou a Daniel.
— Afinal,
disse ele, a minha situação é a mesma, a diferença é que eu hoje administro aquilo que outrora fruía
simplesmente.
— Por
isso, digo eu, atalhou Amélia, como os trabalhos de administração são
enfadonhos, procure uma companheira. Olhe, eu creio que tenho uma... que não se lhe dava
de...
— Quem é?
perguntou Daniel.
— A
Augusta B...
Daniel
franziu a testa. Acreditou que a solicitude da moça, indo à missa, era
simplesmente um cálculo. Figurava-lhe um espírito altivo, e saía-lhe uma mulher interesseira. Acaso a
mulher de Valadares adivinhou esta impressão de Daniel? O certo é que
imediatamente acrescentou:
— Mas
repare que isto é lembrança minha; ela não me disse coisa alguma. Creio que até
não seria coisa fácil; porque me parece orgulhosa
demais...
—
Parece-lhe isso?
— Sim. No
entanto, se quiser que eu lhe fale...
— Oh! não!
não tenho vontade de me casar.
De casar,
creio que Daniel não tinha vontade nenhuma, mas nem por isso a lembrança de
Augusta deixava de preocupá-lo. Havia naquela moça um mistério que ele queria aprofundar. A
ocasião era boa para aproximar-se dela.
Já haviam decorrido vinte dias depois da missa fúnebre. Daniel resolveu ir visitar
a família de Augusta para agradecer-lhe a presença no ato religioso, tanto mais
de agradecer quanto não se ligavam por
estreitos laços de amizade.
Só as duas
senhoras estavam em casa, quando se anunciou a visita de Daniel.
Augusta
desapareceu da sala pouco antes de entrar o rapaz, que apenas encontrou
Madalena, com quem travou uma conversa de cerca de meia hora. Durante esse
tempo todo, Augusta não apareceu na sala.
O rapaz esperou ainda alguns minutos, mas vendo que não chegava, levantou-se
para sair.
— Espero,
disse Madalena, que não será esta a última vez que nos honre com a sua visita.
Daniel
curvou a cabeça, agradecendo.
Depois
apertou a mão de Madalena e dirigiu-se para a porta, justamente no momento em que Augusta entrava
na sala.
Cumprimentaram-se
friamente.
Daniel
saiu.
CAPÍTULO VIII
— Por que
não vieste à sala mais cedo? perguntou Madalena a Augusta.
— Tive uma
vertigem; não podia vir, respondeu a moça.
— Foi
pena, porque este moço é muitíssimo amável; passei meia hora agradavelmente.
— Foi
pena! murmurou a moça, disfarçando um sorriso que lhe estava a brincar nos
lábios.
Não
disfarçou tanto que a mãe o não percebesse.
— Há
alguma coisa, pensou ela.
Augusta
não lhe disse mais nada; mas quem pudesse penetrar no seu espírito, ouviria a seguinte reflexão:
— São
todos os mesmos!
Reflexão
que aliás não esclarece muito a situação. É provável que pelo romance adiante
compreendamos essas palavras interiores de Augusta.
CAPÍTULO IX
O
casamento é a perfeita união de duas existências; e mais do que a união, é a
fusão completa e absoluta. Se o casamento não é isto, é um encontro fortuito de
hospedaria; apeiam-se à mesma porta, escolhem o mesmo aposento, comem à mesma
mesa, nem mais, nem menos.
Este é o
casamento mais comum. O outro, o legítimo, o raro, esse é outra coisa que não
isto. A religião santifica o casamento, mas supõe sempre a existência anterior
de um elo tão sagrado como o do altar.
Não se
parecia com este o casamento de Valadares. Casou o rapaz por motivos alheios ao
coração: primeiramente por interesse, depois por novidade. O casamento foi para
ele uma espécie de passeio ao Corcovado.
Ora, todos são de acordo que do Corcovado se goza uma vista magnífica, mas a ninguém lembrou ainda a
idéia de lá fundar uma cidade. Ninguém lá fica; sobe-se, goza-se, desce-se.
Valadares
começava a sentir a necessidade de descer do Corcovado; a idéia de que estava
ligado para sempre era um verdadeiro pesadelo que lhe sufocava o espírito. Verdade é que a
sua liberdade não estava tolhida; os boudoirs célebres
que freqüentara outrora começaram a festejar a volta do filho pródigo. Mas era
sempre um vínculo, o pobre já sentia que este o apertava. Podia ser de rosas;
mas achou-o de ferro.
Amélia
casara com Valadares como casaria com outro qualquer; simples mudança de estado. Comprou a liberdade
sob a forma de uma prisão. Contratou um braceiro para os dias em que lhe
conviesse sair a pé; e um protetor para abrigar a sua existência, a sua reputação.
Com estas condições, qualquer noivo lhe servia. O que estava mais à mão foi o
escolhido.
Imaginem
já por aqui qual era a alegria conjugal daquelas duas criaturas.
Não tardou
que o aborrecimento viesse sentar-se no lugar que o amor não ocupava; em vez de dois entes unidos por
um grande sentimento achavam-se como dois condenados ligados pela mesma
calceta, com a diferença que a comunhão do infortúnio e do crime estabelece
certa simpatia entre os dois condenados, a qual debalde se procuraria entre Valadares
e a filha de Seabra.
Começava a
dissolver-se a forma conjugal; não se precisava ser águia para adivinhar que,
dentro de pouco tempo, a casa liquidaria e os dois achariam na separação um remédio aos seus
males.
Ora, este
espetáculo e esta previsão desagradavam profundamente a Daniel, que morava com
os dois, segundo se disse acima. Um dia de manhã, resolveu mudar-se, e assim o declarou
aos donos da casa.
—
Mudar-se? exclamou Amélia. E por quê?
— Porque
devo morar só; além disso, está com o meu gênio.
— Se assim
é, observou Valadares, não te obrigo ao contrário. Mas hás de vir jantar comigo
todos os dias...
— Todos os
dias, não sei, respondeu Daniel.
— Já tem
casa? perguntou Amélia.
— O meu
procurador, respondeu Daniel, disse-me ter encontrado uma em Mata-cavalos.
— Ah!
A mulher
de Valadares sorriu maliciosamente; o marido, por imitação, sorriu também.
Daniel viu
os sorrisos e pareceu-lhe compreender.
— Mas que
tem isso? perguntou ele.
— Nada,
acudiu Amélia, quer dizer que está mais perto.
— De quem?
— Ora de
quem! dela!
— Não conheço!
— Augusta.
— Ora!
Daniel
respondeu com uma expressão que simulava indiferença; mas, se devo confessar a
verdade, não o era. Quando o procurador lhe trouxe a notícia de que havia casa
na Rua de Mata-cavalos, o rapaz estimou a notícia e aceitou a casa.
— O fato
é, disse Amélia, que ela pensa no senhor.
— Em mim?
— Cuido
que sim, porque há dias, indo eu lá, duas vezes me perguntou se estava bom.
Quando me perguntou a segunda vez sorri, como há pouco fiz, e ela protestou
calorosamente, mas debalde; via-se que era um protesto aparente.
Daniel
ouviu atento as palavras de Amélia.
— E que
não fosse! disse ele; como eu não vou para lá por causa dela...
— Creio,
respondeu Amélia, mas o fogo ao pé da pólvora...
— Eu não
sou pólvora, nem fogo...
A conversa
ficou aqui. Daniel, daí a dias, estava completamente mudado.
A casa de
Daniel ficava do lado oposto ao da casa de Augusta, e um pouco distante, mas
ainda assim podiam ver-se de uma janela; e ele a viu no primeiro dia, depois,
nunca mais a viu. Seria fortuito ou expressivo?
Não sabia.
CAPÍTULO X
No fim de
quinze dias, recebeu Daniel um bilhete do tio de Augusta convidando-o a ir
passar a noite com ele.
Deveria
ir? Sem dúvida que sim. Não queria parecer que se metia à cara da moça. O
orgulho lutava nele por dois modos; lutava, retendo-o para não parecer que a
adulava; lutava impelindo-o para lá, a ver se triunfava dela. É difícil que, de uma luta
colocada neste terreno, venha bom
resultado.
Daniel só
pela tarde adiante resolveu ir à casa de Augusta.
Era uma
reunião íntima; conversou-se e tocou-se; não se dançou.
O tio de
Augusta desejou que Daniel considerasse a casa como sua; que se não prendesse
por simples consideração de cerimônias enfadonhas.
Posto que Daniel tivesse em pouco a conversa das salas, não por desprezo
refletivo, mas por gênio e educação, todavia não ficava na sombra desde que lhe
fosse necessário desempenhar-se como
cavalheiro polido. Tinha natural espírito; sua conversa era fácil, brilhante,
sem ser profunda, coisa que agrada absolutamente às mulheres. Além disso, o rapaz queria impor-se
no espírito da moça; e como fazê-lo senão por meio desses triunfos de
eloqüência familiar?
Mas
Augusta parecia conhecer todas essas armas e a intenção com que eram manejadas; tratou Daniel como a todos
os outros, em perfeito pé de igualdade.
Nem lhe concedeu desta vez a distinção do desdém, que tanto agrada a certos caracteres;
nivelou-o com as demais pessoas.
Numa
ocasião, pediu um dos amigos da casa que a moça cantasse a cavatina da Norma, justamente na ocasião em
que Daniel, por entabular intimidade, lhe pedia um pedaço de Lúcia.
Colocada
entre os dois pedidos, Augusta observou:
— Não
posso executar ambas as coisas ao mesmo tempo. Uma há de ser primeira. Qual
delas? Resolvam entre si.
Enquanto o
sujeito que pedira a Norma inclinava-se diante de Daniel, cedendo-lhe a vez, Augusta com ar
distraído e indiferente brincava com as tranças de uma amiga que se lhe
aproximara e que ia acompanhá-la ao piano.
Arranjara
as coisas de modo que, nem mostrava preferência, nem desdém por Daniel, o que aconteceria (pensava
ela) se cantasse primeiro ou depois o
trecho reclamado pelo rapaz.
Estes e
outros incidentes produziram em Daniel o efeito natural; o orgulho foi-se pouco
a pouco transformando; quando dali saiu, naquela noite, já se pode dizer que no
coração do rapaz rompia a aurora do amor.
E, coisa
singular, esse amor não era, como em outros casos, um resultado de simpatia,
mas sim da antipatia de duas criaturas, que, se se odiassem alguma vez, seriam mortais
inimigos.
CAPÍTULO XI
Não é
minha intenção apresentar Augusta como um caráter excepcional, nem como um
espírito superior. Os sentimentos da moça eram, em resumo, os mesmos das outras
mulheres. O que a dominava, porém, era uma certa frieza de temperamento que a tornava
incompetente para os grandes afetos. Acrescente-se a isto uma tal ou qual
vaidade de sua beleza, e aí temos o que era a filha de Madalena.
Educada
pela mãe com uma perfeita independência de espírito, Augusta adquiriu certa
aspereza que lhe fazia o caráter antipático. Era imperiosa, altiva, às vezes
bondosa, mas bondosa por orgulho, não acreditando
muito nem pouco na violência dos sentimentos; o amor para ela era simplesmente uma coisa que ela
não compreendia, nem desejava compreender. Parecia-lhe melhor o triunfo numa
sala que num coração.
Nem Luiz
nem Daniel compreendiam isto; a indiferença da moça era apreciada por eles
diversamente do que cumpria ser, e daí vinha a esperança de um e o capricho de
outro. O verdadeiro triunfo seria abandonar o campo; talvez que o despeito
produzisse nela o resultado favorável. Quem sabe? seria talvez a primeira a dar
um passo para o esquivo namorado.
Luiz
supunha que podia fascinar a moça pela grandeza de posição; algumas circunstâncias
lhe davam razão para crer assim; mas eram simples circunstâncias.
Quanto a
Daniel, um pouco picado em seu amor-próprio, assentou que de uma luta pertinaz
poderia resultar proveito. Pareceu-lhe que era preciso ser um bom general em
vez de diplomata fino. Afigurava-lhe que a espada de Condé tinha para o caso
mais virtude que a pena de Metternich.
Com estas
impressões saiu da casa de Augusta.
Era a
primeira vez que no espírito do moço a vontade anunciava um papel ativo. Não era decerto o amor, senão o
amor-próprio que o inspirava assim. Mas
neste caso, amor-próprio já não era um sintoma do próprio amor? Daniel não percebeu isto;
atirou-se à luta.
Começou a
freqüentar a casa de Augusta na qualidade de amigo e vizinho. A moça foi com
ele e com todos os outros atenciosa e polida, mas fria; distribuía a sua
atenção com igualdade. Não dava direito a queixas nem esperanças; valia tanto
para ela Daniel como Luiz.
Luiz
freqüentava pouco a casa; nem se podia dizer que a freqüentava; ia lá de longe
em longe; conversava meia hora e saía logo.
Posto que
Daniel não entrasse nunca nas campanhas do namoro, e apenas contasse em toda a
vida alguns fáceis triunfos do tempo da academia, todavia houve-se desde
princípio como um verdadeiro cabo de
guerra.
Foi difícil
à moça resistir aos primeiros ímpetos da força arregimentada do rapaz. Aos tiros de
artilharia, isto é, os olhares, resistiu ela com facilidade; ninguém tinha
maior expressão de desdém do que ela quando se tratava de repelir os olhares de
um cortesão.
Mas
quando, depois de seus primeiros tiros, Daniel aproveitou uma situação adequada e atirou contra a fortaleza
as massas compactas da infantaria, isto é, quando ele fez uma declaração em
regra, Augusta não foi tão fácil na defesa, e, se repeliu o inimigo, foi com sensíveis
perdas de sua parte.
Daniel
acabava de declarar que a amava.
— Não
creia, disse ele, que se trata de um amor de poeta. Eu não tenho nada de poeta; nem é coisa que me
penalize. O meu amor vem um pouco da razão. Sou um homem temperado. Confesso
que as suas graças me impressionaram bastante; mas creia que, se não a achasse digna de ser minha mulher, não lhe
falava nisso. Estou que o amor duraria
pouco mais que as rosas de Malherbe. Quer ser minha mulher?
Esta
declaração, em que misturava a sinceridade com a insolência, foi dita com
volubilidade, sem fogo nem lágrimas na voz, no meio de tudo com certa graça. Augusta, tão fácil em
responder, se encontrasse um homem louco de amores, não achou logo uma palavra
para opor à pergunta e pedido de Daniel.
A moça
tinha encontrado um sapato para o seu pé.
A conversa
que estou mencionando dava-se a um canto da sala; as demais pessoas estavam
entretidas em grupos distintos.
Augusta desejou que ali chegasse alguém, cuja presença
interrompesse a conversação; mas ninguém apareceu.
— Que me
responde? perguntou Daniel.
—
Respondo, disse Augusta, que não posso aceitar o seu amor, nem o seu pedido.
— Por quê?
Augusta
olhou para ele espantada com a pergunta; mas como visse o olhar do moço, sereno
e fixo, respondeu sorrindo:
—
Formalmente, porque o não amo.
— Isso não
é razão muito forte...
— No
entanto...
— O amor
viria com o tempo; bastava que me tivesse alguma afeição. Não tem?
— Não
tenho.
— Que é
preciso fazer para vir a tê-la?
— Isso não
sei, respondeu Augusta.
Daniel
tirou o relógio do bolso e depois de consultá-lo, tornou a guardá-lo silenciosamente. Na indiferença do
rapaz, havia um tanto de cálculo, mas um tanto de sincero. Apenas guardou o
relógio:
— Pois eu
acho, D. Augusta, disse ele, que dificilmente poderia encontrar marido mais
conveniente do que eu.
— Tem boa
opinião em si, disse a moça sorrindo.
— A melhor
opinião deste mundo, acudiu Daniel. Convencido de que os outros homens hão de
ter sempre a meu respeito uma péssima opinião, eu compenso esse juízo
infundado, pensando a meu respeito as melhores coisas possíveis. Por exemplo, a
sua observação quer dizer que me julga
fátuo; eu penso justamente o contrário a meu respeito.
— É uma
compensação, observou Augusta.
— Então
confessa?...
— Confesso
que estou com muito calor, disse Augusta, levantando-se.
Daniel
mordeu os beiços; mas levantou-se e ofereceu-lhe o braço.
— Vamos
para a janela?
Augusta
aceitou sem repugnância, nem vontade.
— Com
efeito, aqui faz menos calor, disse Daniel apenas chegara à janela. E a noite
está bonita.
— Está
bonita, repetiu Augusta; mas se lá está calor, aqui está frio.
— Não
tanto, não tanto. Estou a ver uma coisa, D. Augusta.
— O que é?
— É que
tudo lhe parece exagerado. Nem lá faz tanto calor, nem aqui tanto frio. Por que
esta maneira de apreciar as coisas? Não lhe parece que isso há de levá-la muita
vez a ser injusta?
— Quando
assim seja, disse Augusta, eu creio que a primeira vítima da injustiça serei eu.
— Perdão!
nem sempre assim acontece; e é justamente por isso que a justiça me parece uma
bela coisa. Queira meditar bem nestas palavras, D. Augusta: não julgue nunca
pelos olhos do seu capricho.
Daniel
dizia todas estas palavras com uma graça tão respeitosa que desarmava a moça; e
no entanto já tinha o direito de deixá-la à janela e voltar à sala.
Quando ele
lhe falou nos olhos do capricho, Augusta olhou espantada para ele; depois,
respondeu:
— Os olhos
do meu capricho podem ser maus; em todo caso, porém, não usarei dos óculos do
seu despeito.
A alusão
era clara; Daniel não contava com esta carga de baioneta.
— O meu
despeito? disse ele; já sei ao que alude. Eu poderia calar-me, mas acaso é
digno de nós deixar sem resposta uma alusão tão graciosamente feita? D.
Augusta, eu repito o que lhe disse; amo-a, quisera recebê-la em casamento; mas
a sua recusa é para mim tão sagrada que eu nem quero discuti-la; e inspira-me o
mesmo sentimento que inspiraria a Virgem Maria se eu lhe pedisse uma graça e
ela ma negasse; resigno-me sem pensar mais nisto.
Foi uma
felicidade que entrassem neste momento Valadares e a mulher. Augusta foi
abraçar Amélia, enquanto Daniel adiantou-se para ir apertar a mão a Valadares.
CAPÍTULO XII
Protestos
de resignação em amor são como sentenças escritas na areia; desfazem-se ao primeiro vento. Daniel,
que era o tipo da indiferença, começava a sentir a dolorosa convicção de que
lhe seria difícil viver sem aquela mulher. Quando chegou a casa, recordou todos os episódios da noite, repetiu entre si
as palavras trocadas com Augusta,
arrependeu-se das que proferira; por um instante, teve idéia de ir-lhe pedir
perdão. O tiro da peça ainda o achou acordado.
Se durante
esse tempo, Daniel pudesse estar no quarto de Augusta, veria a luz da vela confundir-se com os raios
da manhã. A moça dormiu apenas duas horas e ainda o seu sono foi sobressaltado.
Seriam as mesmas impressões? Eu poderia, no interesse do romance, deixar em
claro este ponto; mas prefiro dizer francamente aos leitores os sentimentos dos meus personagens.
Augusta
não velara pelo mesmo motivo que Daniel. Era outro. Era despeito. A orgulhosa
Augusta sentia-se envergonhada com a cena que se passara durante a noite.
Humilhara-se com a fácil resignação de Daniel; era a sua primeira derrota.
O seu
primeiro pensamento foi um pensamento vulgar; lembrou-se de vingar-se do moço,
vendo-o a seus pés. Mas, para alcançá-lo, não seria preciso conceder-lhe esperanças, e estas
não exprimiam a confissão de um triunfo,
que lhe parecia odioso?
Cálculos
inúteis, dirá o leitor de boa fé, os desta moça provinciana, que fazia do amor
um jogo de xadrez. Que importa? eu narro a verdade. Confesso que era mais bonito, mais
juvenil, mais digno, resolver
simplesmente pelo coração, amar ou dar de tábua ao pretendente, conforme lhe
falasse o sentimento. Mas, se assim fosse, o romance acabaria e seria outra
coisa que não a história que estou relatando.
Quando
Augusta se levantou tinha os olhos pesados; a vigília deixara-lhe impressos os
seus vestígios. E eram belos os seus olhos, não sei até se mais poéticos, com a languidez do
cansaço, do que com a viveza natural. Direi mais: aquele aspecto tornara-a mais
mulher, porque Augusta tem no olhar e nas feições um quê de enérgico e severo, que indicava antes um caráter
masculino.
Passaram-se
dias sem que os dois se encontrassem: nem Daniel foi à casa de Augusta, nem
esta se mostrou à janela.
Numa
segunda-feira, apareceu Valadares em casa de Daniel.
Convidou-o
para um passeio à Tijuca em companhia de várias famílias.
— A
Augusta vai, disse ele,
— Que
tenho eu com isso? perguntou Daniel.
Valadares
sorriu.
— Que tens
com isto? cuidei que tinhas alguma coisa... Não se amam?
— Ela
tem-me ódio.
— É
caminho para o amor, ouvi dizer; e tu?
—
Desprezo.
— Dizem
que também é um atalho que vai ter à grande cidade do conjugo vobis.
— Para a
tua cidade! disse Daniel, sorrindo maliciosamente.
Valadares
suspirou.
— Para a
minha cidade, tens razão! Mas antes não fosse!
— A coisa
vai mal?
— Vai o
pior possível.
— Hão de
acomodar-se... Tu tratarás de ver uma compensação fora das fronteiras
conjugais; e ela contentar-se-á com as modas novas... Escusas de franzir a
testa; é esta a tua convicção e a minha. O casamento, meu caro Valadares, é uma
loteria; o teu bilhete saiu branco. É
dinheiro perdido, ou antes dinheiro ganho, porque ainda que percas tudo, ainda te fica o dinheiro...
Valadares
engoliu dificilmente a observação de Daniel, falou outra vez no passeio à Tijuca e assentou-se que Daniel
iria.
O passeio
fez-se daí a oito dias.
Entre
outras pessoas achavam-se lá Augusta e Luiz.
Daniel
ignorava os sentimentos de Luiz em relação a Augusta; demais, conhecia-o pouco.
Na
primeira ocasião que pôde alcançar, Daniel perguntou a Augusta se estava com a mesma resolução em relação a
ele.
— A mesma,
respondeu Augusta.
Daniel
inclinou-se e começou a falar da beleza do sítio em que se achava.
Augusta
ouviu-o não sem espanto.
— Tem
grande amor à natureza? perguntou ela.
— Imenso.
A natureza não fala.
— Os
poetas dizem o contrário, retorquiu a moça sorrindo.
— E dizem
bem; a natureza fala, mas fala como uma alma deve falar a outra, sem intermédio
dos lábios. Ora, eu tenho notado que o falar é perigoso para as nossas ilusões;
uma palavra destrói às vezes um mundo.
Augusta
mordeu os lábios.
— Veja,
disse Daniel, colhendo uma flor agreste que lhe ficava ao alcance
da mão. Há
nada mais do que
isto? Esta flor diz mil coisas justamente porque não pode articular o que me
diz: o perfume é a sua linguagem; esta cor branca ligada com esta cor azul
formam uma frase que eu compreendo sem
explicar. A coitadinha desta flor não pode
fazer mal; mas, se eu por um capricho qualquer, achasse na sua linguagem alguma coisa que me ofendesse, tinha
o remédio nas mãos; destruí-la-ia
assim...
E Daniel esmagou
a flor entre os dedos.
Augusta
olhou para a flor e para Daniel. Nem um gesto de surpresa ou de despeito;
apenas sorriu, dizendo:
— Mas,
ainda esmagada entre as suas mãos, essa flor vale mais que o senhor, porque...
Luiz
aproximou-se do grupo quando Augusta ia continuar.
— D.
Augusta, disse ele; sua mãe quer falar-lhe.
Augusta
foi ter com a mãe.
— Está um
bonito dia, disse Luiz a Daniel.
— Está,
respondeu o rapaz distraído.
E voltou
os olhos para Augusta que se afastava.
Luiz viu o
gesto e procurou adivinhar o olhar de Daniel. Palpitou-lhe o coração mais
fortemente; que haveria entre eles?
Alguns
minutos durou o silêncio; no fim deles, Daniel voltou-se para Luís e encetou
uma conversa; Luiz respondeu por monossílabos ao interlocutor, até que o jantar
veio pôr termo à situação esquerda em que
se achavam os dois.
CAPÍTULO XIII
Daniel
levantou-se um dia com a idéia de fazer uma viagem a Minas.
Sentia que
Augusta já o prendia mais do que convinha ao seu coração; nasciam-lhe forças
até então ignoradas. A indiferença da moça
fazia-lhe supor que lutava em vão; temia o desgosto. Resolveu viajar.
Valadares
recebeu uma manhã a seguinte carta:
“Valadares,
Vou para
Minas amanhã. Não sei se terei tempo de ir fazer-te as minhas despedidas.
Recomenda-me à tua senhora.
Teu do coração Daniel”
Apenas
Valadares recebeu a carta, foi imediatamente ter com o amigo.
— Vais
para Minas?
— É
verdade.
— Que
tempo te demoras lá?
— Uns
cinco meses. Queres alguma coisa?
— Estava
capaz de ir contigo.
— E tua
mulher?
— Fica.
— Pois
tens ânimo?
— Pois
então! Eu te digo; tenho até necessidade de ver-me livre por algum tempo de
semelhante algoz...
—
Valadares, isso não é bonito...
— Seja
bonito ou não, eu vou contigo; mas só te peço uma coisa.
— O que é?
— Que
adiemos a viagem para a semana que vem.
—
Impossível.
— Por quê?
— Tenho
minhas razões.
Valadares
fez uma careta de desgosto; insistiu, mas Daniel resistiu ao convite.
— Então,
não poderei ir, disse Valadares.
— Não sei
porquê.
— Ora! ir
só é aborrecido. Contigo, a coisa era outra. Olha lá; e se fôssemos a Paris?
— Isso
mais tarde.
A conversa
durou pouco mais. Valadares saiu desconsolado. Daniel continuou a dar as suas
ordens precisas para a viagem.
Foi nessa
mesma tarde à casa de Augusta despedir-se da família e oferecer-lhe os seus préstimos em Minas. A mãe
de Augusta agradeceu-lhos e ao mesmo tempo participou que, acabada a sessão do
Parlamento, partiriam para o Norte; e, portanto, só no ano seguinte se poderiam
encontrar.
— Até para
o ano, disse Daniel tranqüilamente.
Augusta
não manifestou surpresa, nenhum desgosto com a notícia da viagem de Daniel;
conversou alegremente com ele sobre coisas ínúteis; tocou um pouco de piano e despediu-se
dele como se tivesse de vê-lo no dia seguinte.
Às seis
horas estava Daniel em casa, de volta da casa de Augusta.
Mas daí a
cinco minutos, parava-lhe um carro à porta.
— Quem é?
perguntou ele ao criado.
O criado
foi ver e voltou dizendo:
— É uma
senhora, vem subindo.
Pouco
depois entrou-lhe na sala Amélia Valadares.
— Desculpe
se venho assim sozinha à casa de um homem solteiro.
—
Desculpar? disse Daniel, convidando Amélia a sentar-se. Não há que desculpar;
há que agradecer.
— Então,
como vai de saúde?
— Assim,
assim... creio que preciso fazer uma viagem a Minas Gerais, e já mandei fazer-lhe minhas despedidas por
intermédio de Valadares.
— Ele me
disse isso, e é justamente por causa desta viagem que eu venho aqui.
Amélia
sorriu-se com ar sonso.
Daniel não
atinou com a ligação da viagem a Minas e a visita da mulher de Valadares.
— Venho
reforçar, disse Amélia, um pedido de meu marido.
Daniel já
se não lembrava que pedido era.
— Um
pedido? disse ele. Qual?
—
Valadares entrou agora lá em casa muito triste; perguntei-lhe o que tinha e contou-me que, desejando ir a
Minas com o senhor, não pudera obter que o senhor adiasse a viagem até a semana
que vem. Ora, é isso justamente o que
lhe venho pedir.
Desta vez
foi Daniel quem sorriu.
— Não
podia, respondeu ele, adiar a viagem há tanto preparada; mas, à vista do
pedido, não posso recusar o adiamento. Diga a Valadares que pode contar comigo.
—
Agradeço-lhe o obséquio, disse Amélia muito satisfeita, e creia que favorece a
meu marido.
— É
favorecer a V. Ex.ª, creio, interrompeu Daniel. Pode dizer que conte comigo.
A mulher
de Valadares levantou-se para se despedir, e nesse ato fez o que fizera ao princípio, segundo costumava,
correu por toda a sala olhos minuciosos.
—
Desculpe, disse Daniel, desculpe o desarranjo em que isto se acha... Estou em
véspera de viagem; e bem vê...
— Pois
não; desculpo tudo, disse Amélia aproximando-se de uma mesa. São lindos estes
objetos de bronze; são principalmente de bom gosto... O senhor tem bom gosto.
— Creio
que sim...
— Por
exemplo, a Augusta...
E calou-se.
— Que tem
a Augusta? perguntou Daniel.
— A
Augusta é bonita; e o senhor mostra que tem bom gosto...
—
Maliciosa! bem sabe que...
— Sei que
o senhor gosta dela.
— Perdão,
gostei dela.
Amélia
sorriu, mas não respondeu. Não teria acreditado? Daniel suspeitou-o; e quando
ia continuar a conversa para deixar-lhe bem claro no espírito que já nada havia
dele para com Augusta, a mulher de Valadares chamou a atenção para não sei que
volume que estava sobre a mesa.
Como ele
lhe explicasse o que era o livro, ela continuou no exame dos objetos que viu
sobre a mesa.
Amélia era
naturalmente indiscreta e leviana. A visita à casa de Daniel era já um ato de
sofrível leviandade; a demora, e a bisbilhotice com que examinava a sala tinha mais graves
conseqüências. Que pensaria Daniel se
não conhecesse o espírito frívolo da moça?
De
repente, Amélia, indo levantar um álbum, viu debaixo um objeto que lhe chamou a
atenção; era uma liga. Daniel estava voltado para um espelho e não viu o gesto da moça. Amélia
examinou a liga e viu duas iniciais; as
iniciais de Augusta.
O leitor
lembra-se do episódio da Rua do Ouvidor.
Quando
Daniel se voltou para Amélia, viu-a sorrir; aproximou-se e reparou que ela
estava com a liga nas mãos. Não lhe ocorrendo a circunstância das iniciais
(circunstância bem própria de romance), Daniel
arriscou a seguinte observação:
— Fez mal
em descobrir isso: é um despojo de vencido.
— Ah!
disse Amélia.
E mostrou
as iniciais de Augusta.
Daniel
empalideceu.
Amélia
olhou para ele, atirou a liga sobre a mesa, e disse, caminhando para o espelho:
— Não se
assuste; eu sou de segredo.
Daniel
tinha recobrado o sangue frio.
—
Assustar-me de quê? perguntou ele.
— Não sei,
respondeu Amélia, consertando o chapéu.
— Além de
que, não é segredo.
— Ah! não
é segredo ? Eu cuidei que era... Não me disse há pouco que já não gostava dela?
— Perdão,
disse Daniel aproveitando a aberta que lhe davam essas palavras; eu creio que
está enganada.
— Estarei
enganada, e o Luiz também.
— Quem é o
Luiz?
— O deputado,
respondeu Amélia rindo.
E
apertando a mão de Daniel acrescentou:
— Adeus,
adeus! tenho pressa. Tenho a sua palavra; só irá na semana que vem.
E antes
que Daniel lhe oferecesse o braço ou procurasse retê-la, saiu da sala e desceu
as escadas.
Daí a pouco,
partiu o carro.
CAPÍTULO XIV
Daniel não
pôde conter um gesto de despeito, apenas Amélia saiu.
Tinha
vontade de ir agarrá-la e castigá-la de toda a leviandade com que procedeu
entrando em sua casa. O incidente da liga, e as meias palavras com que ela o
encerrou, tudo estava fervendo no espírito até há pouco tranqüilo de Daniel.
— Que
leviana! dizia consigo. Vir à casa de um homem solteiro por um modo tão
singular; fazer-me o singular pedido de ir com o marido para fora; revolver os
meus móveis; caluniar pessoas a quem abraça...
Ai, Valadares, que mulherzinha te caiu nos braços!
CAPÍTULO XV
Valadares
era menos exigente que Daniel.
O que lhe
parecia mal em Amélia eram as impertinências da mulher faceira, os caprichos,
as imposições, de maneira que tudo acabaria se estivesse algum tempo fora
dela... a espairecer.
Cuidou que
a viagem a Minas era boa ocasião; mas Daniel não quis adiar a sua viagem para
esperá-lo. Amélia soube disso e foi ajudá-lo nos seus desejos pedindo esse favor ao próprio
Daniel.
Quando no
dia seguinte, de manhã, Valadares encontrou a mulher à mesa do almoço,
disse-lhe ela:
— Já
preparaste as malas?
— Para
quê?
— Para a
viagem a Minas.
— Só, não
vou.
— Vais com
o Daniel.
— Mas ele
não quer adiar...
— Quer.
— Como sabes?
— Pedi-lho
eu.
Valadares
tomou a liberdade de abraçar entusiasticamente a mulher diante da criada, cujo pudor lhe aconselhou
imediatamente uma excursão à cozinha.
— Não
sabes como te agradeço o que fizeste por mim.
— Ah! tens
muito prazer em ir a Minas? Queres esquecer-me?
— Eu,
lindinha? Nem por sombras. Quero estudar a província, e além disso preciso de tomar ares. O Valadão diz que
eu estou caminhando para a cova, e que
preciso reforçar a minha constituição. Sabe Deus que saudades levo de ti! Mas
tu não queres ir.
— Bem
sabes que não posso.
O almoço
terminou alegremente; parecia que aqueles dois galés já saboreavam a felicidade
de se separarem durante algum tempo.
Daniel
resolveu responder às tolices de Amélia com partida imediata, sem embargo da
promessa anteriormente feita. Ao princípio, repugnou-lhe o ato que era descortês; mas
venceu o aborrecimento que Amélia lhe causara na tarde em que foi visitá-lo.
E
justamente quando Valadares agradecia à mulher os esforços que fizera em favor dele,
estava Daniel em caminho para Minas, acompanhado
de um simples criado.
Valadares
saíra de casa para ajustar objetos de que precisava para a viagem. Às duas horas, lembrou-lhe ir ter com
Daniel.
— Onde
está o amo? perguntou a um criado que lá encontrou.
— Saiu,
respondeu o criado.
— Volta?
— Foi para
Minas.
— Para
Minas...
Valadares
ficou contrariadíssimo com a notícia.
— Parece,
disse o criado, que eu tenho aqui uma carta para o senhor.
— Para
mim? Dá cá.
O criado
foi buscar a carta e entregou-a a Valadares.
A carta
dizia assim:
“Valadares,
Prometi à
tua mulher que adiaria a viagem; mas sinto não poder cumprir a palavra
prometida a tão gentil senhora, porque entrou-me por casa uma fúria, uma bisbilhoteira,
uma mulher sem pinga de juízo que pôs a minha sala e o meu espírito em
desordem. Para esquecer esta hóspede
inesperada só me resta o recurso de
precipitar a viagem. Até lá ou até à volta.
Teu Daniel”.
Valadares
leu a carta e não a entendeu muito bem.
Quando
Amélia soube que Daniel, a despeito da promessa que lhe fizera, havia partido,
sentiu-se um pouco humilhada; mas como as impressões da moça eram passageiras, o
ressentimento não lhe durou mais de um
quarto de hora. Ficou, porém, despeitada com o bilhete de despedida de Daniel.
Aquilo que Valadares não compreendia, Amélia o compreendia demais. Achou-se
injuriada com as expressões da carta e mais ainda porque fora sem dúvida
escrita na previsão de ser lida por ela.
Valadares
resolveu seguir viagem na época escolhida por ele; mas um acontecimento estranho à nossa história
impediu que a viagem fosse executada. Achando-se numa ceia com rapazes e moças,
Valadares sentiu-se preso pelas algemas do amor, e sacrificou a viagem a Minas nas aras de uma Laís de contrabando.
Nunca mais
falou em viajar.
Amélia
ainda tentou mandá-lo tomar ares; e Valadares, que em todas as ocasiões, era o tipo do esposo maricas,
desta vez resistiu violentamente, prova de que amava profundamente... a outra.
CAPÍTULO XVI
Quando
Augusta soube realmente que Daniel partira para Minas, sentiu uma decepção; apesar da despedida
solene que este lhe fizera e à família,
Augusta acreditava que a viagem nunca seria executada.
Não
supunha, note-se, que Daniel estivesse a fazer comédia quando se despediu deles; mas acreditava que lhe
seria difícil deixar a corte. É que,
apesar de tudo, Augusta estava convencida de que Daniel amava-a
loucamente.
O advérbio
era demais.
Daniel
amava a rapariga, e justamente para acabar com esse germe, que já começava a desenvolver-se no coração, é
que ele fazia aquela viagem. Ouvira
dizer que as viagens são excelentes contra o reumatismo do coração.
Augusta
sentiu-se ferida; o despeito pôde muito naquela ocasião.
A sua
esperança foi que, demorando um último olhar na janela da casa dela, Daniel não
pudesse seguir viagem e tornasse a entrar para casa, dispondo-se a encadear a existência ali
a seus pés.
A
esperança foi iludida.
Mas para
que desejava Augusta isso, se o não amava?
Não sei;
desejava-o.
Madalena
procurou sondar o coração da filha depois da partida de Daniel.
— Que
sentes tu a respeito desta ida súbita do Dr. Daniel? perguntou-lhe uma tarde.
— Eu,
nada, respondeu Augusta. Acha que devo sentir alguma coisa?
— Não; era
simples pergunta. Sabes que ele gostava de ti.
Nenhuma palavra mais se conseguia
arrancar a Augusta relativamente a este negócio.
Um dia,
Luiz estando com ela anunciou que voltava para a província, e que estava
disposto a abandonar a carreira política. Acrescentou que até então tivera
alguma esperança, mas que essa mesma se desvanecera.
— Pensei,
disse Augusta, pensei que já não houvesse esperanças para o senhor.
— Havia
uma...
— Qual?
— A de ser
amado quando já todos se houvessem esquecido de mim!
— Perdeu
essa esperança? disse Augusta. Olhe que não perdeu grande coisa.
— Perdi,
porque ela era fundada numa base falsa. Eu acreditava até agora que o seu
coração era mudo.
— Ah!
— Mas sei
que não; o seu coração falou.
— Que
disse ele?
Augusta
estava disposta a gracejar; as suas últimas palavras foram ditas com um riso de escárnio cujo segredo só
ela possuía.
— Disse
que ama a um ausente...
Augusta
levantou-se ao ouvir isto; olhou fixamente para Luiz e disse:
— Que é
ilusão sua ou calúnia de alguém! Demais, creio que pouco lhe deve importar o sentimento do meu
coração...
—
Importa-me muito, D. Augusta. Não quero falar-lhe de amor, pois que já mo
proibiu; mas permita que lhe pergunte só por que razão eu...
Augusta
lançou-lhe um olhar de profundo escárnio e desprezo, voltou-lhe as costas e
saiu.
— É
demais! disse Luiz.
Pegou no
chapéu e retirou-se.
— Que é
isto? Por que motivo nutro eu uma esperança vã? Para ser insultado todos os dias? Aquela mulher é uma
estátua; não tem sangue nem alma. É
feita de um pedaço de mármore. Amar para quê? para ter neste amor o meu
tormento e a minha humilhação? Não! É demais! tudo precisa de um termo.
Desse dia
em diante, Luiz não voltou à casa de Madalena.
CAPÍTULO XVII
O
procedimento de Augusta era objeto da curiosidade de todos.
— Por que
motivo esta moça recusa todos os pretendentes? diziam as mães de família;
parece que não quer casar. Quererá ficar para tia?
O
argumento era singular; devia ocorrer a todos que Augusta recusava os pretendentes justamente porque não
gostava de nenhum.
Mas a reflexão
das mães de família era que um casamento nunca se recusa, salvo circunstâncias
especiais.
Madalena
respeitava os escrúpulos da filha; queria vê-la feliz e entendia que o melhor
meio era casá-la com quem lhe falasse ao coração.
Mas onde
estava esse fênix, visto que nenhum até agora lhe agradara?
Augusta
conservava-se na sua torre de marfim, pouco disposta a ceder às instâncias, nem de Luiz, nem de
Daniel. Viu partir um e outro sem a menor emoção. Quem teria razão? Os que
esperavam que chegasse a Augusta a hora
do amor ou os que a julgavam uma simples estátua de mármore?
Tinham já
corrido dois meses depois da partida de Daniel para Minas Gerais, quando
Augusta encontrou Amélia na Rua da Quitanda, indo a primeira com a mãe ver umas
fazendas, e vindo Amélia de um passeio com Valadares. Era raro que os dois
andassem juntos; Valadares gracejara muito por essa circunstância, apenas
encontrou as duas senhoras.
— Não
repare, D. Madalena; o sol e a lua ao pé um do outro é sinal evidente de
eclipse.
Depois de
alguns minutos de conversa, Amélia seguiu com Madalena e a filha, ao passo que
Valadares foi a outras ocupações. Amélia jantara com as amigas e voltara à noite para casa.
Valadares escusou-se, dizendo que tinha um jantar diplomático. Com efeito, ao jantar
a que ele assistiu, estiveram presentes alguns secretários e adidos de legação;
mas o caráter do festim tinha mais de guerra que de diplomacia. Notas, se as
havia, não eram de embaixada.
— Já sabe
que a nossa partida está próxima? disse Madalena a Amélia, apenas chegaram à casa.
— Ah!
— Apenas
se fecharem as câmaras, continuou Madalena, vou deixar o seu Rio de Janeiro.
Amélia
olhou para Augusta com uma insistência que a moça não compreendeu.
— Vai
deixar o meu Rio de Janeiro, disse Amélia depois de alguns instantes. Não gosta dele?
— Muito,
decerto.
— É
magnífico, disse Augusta; mas a nossa província...
— Amor de
bairro, respondeu Amélia sorrindo.
— Será,
será, mas não somos todos assim?
—
Conforme. Às vezes, muda-se de sentimento, conforme os afetos que encontramos nos lugares novos.
— Isso não
sei.
— Não
achou cá alguma coisa?
— Coisa
nenhuma.
Augusta
disse isto com tanta frieza e firmeza, que Amélia não pôde reprimir um gesto de
espanto.
— Pois
olhe, disseram-me...
— O quê?
perguntou Madalena.
Amélia
hesitou alguns instantes.
— Estou
gracejando, disse ela.
Mas daí a
algum tempo, achando-se a sós com Augusta, disse-lhe:
—
Disseram-me que estavas apaixonada pelo Daniel.
— Eu?
Qual!
—
Disseram-me... Juras que não é verdade?
— Juro.
— Então,
toma cuidado!...
— Por quê?
— Porque
podem dizê-lo e então...
— Que
importa que o digam? disse Augusta.
— Perdão;
importa muito. Se disserem, por exemplo, que fizeste presente de uma liga ao Daniel, como se fosse
uma flor ou um botão de camisa...
— Dirão
uma tolice.
— Mas se
disserem que ele possui esse objeto?
— Que ele
possui? Ora essa! Estás brincando, Amélia.
Amélia
contou-lhe o episódio da casa de Daniel.
CAPÍTULO XVIII
No fim
de uma ausência
de quatro meses,
voltou Daniel ao
Rio de Janeiro.
A viagem
foi uma verdadeira restauração. Daniel achou-se como sempre fora, tendo perdido o menor vestígio do
parêntese que se dera em sua existência.
A falar
verdade, Daniel achava agora que fora ridículo durante os dias em que se sentiu apaixonado por Augusta. O
caráter indiferente do rapaz, por um
momento agitado, voltou a ser o que era.
Entrou em
casa de noite, e não tendo prevenido a ninguém, ninguém foi esperá-lo à
chegada.
Ao entrar
em casa, não pôde deixar de olhar para a casa de Augusta. Ignorava se ainda ali moravam ou se haviam
partido para a província. A casa estava
silenciosa.
O criado,
que o recebeu, deu-lhe notícia de que a família de Augusta ainda morava na mesma casa.
— Mas quem
te perguntou por isso? disse Daniel.
— Eu lhe
digo, meu amo; é que, de quando em quando, mandavam saber de lá quando é que meu amo chegava.
— Sim?
— É
verdade. E há coisa de três dias recebi uma carta com ordem de entregar-lha apenas chegasse.
— Uma
carta?
— Sim, senhor;
está no seu gabinete.
— Deixa-me
ir descalçar as botas.
Noutro
tempo, Daniel teria ido ver a carta primeiro; agora, preferia descalçar as botas. Sirva isto de termômetro;
quando um homem procura antes de tudo ler uma carta, ama; quando descalça as
bota antes, já não ama. É receita que lhes dou de graça.
Descalçadas
as botas, Daniel foi ler a carta.
Era de
Augusta.
Dizia
assim:
“Apenas
chegar, peço-lhe que venha à nossa casa. Desejo falar-lhe.
Augusta”.
— Olé!
disse Daniel em voz alta; dar-se-á caso que a menina mudasse de opinião? Que
diabo me quererá ela? Se vem falar de amores, estou disposto a não admitir
conversa neste ponto; é capítulo acabado. Amanhã veremos a coisa.
E
reparando que o criado ouvira este solilóquio, voltou-se para ele rindo:
— João,
ouviste o que eu disse agora?
— Eu só
ouço o que meu amo quiser; respondeu o criado sorrindo maliciosamente.
— Ainda
bem. Dá-me de comer.
Daniel
comeu tranqüilamente como um homem que chega de uma viagem de recreio.
— Veio
alguém procurar-me?
— Veio o
Sr. Valadares duas vezes. Parece que tem graves acontecimentos para
comunicar-lhe.
— A mim?
— Disse-me
isto.
— Vai
dizer-lhe que eu voltei e o espero hoje mesmo.
O criado
saiu.
Daniel
releu o bilhete de Augusta, e não podia furtar-se ao espanto que lhe causava a sem cerimônia da moça,
escrevendo e assinando um bilhete que podia comprometê-la.
— Tudo é
natural naquele gênio excêntrico, dizia ele consigo.
Cerca de
uma hora depois, chegou Valadares.
Depois de
um apertado abraço de boas-vindas, Valadares sentou-se e pediu a Daniel a sua
mais profunda atenção.
— Estava
ansioso por ver-te, disse ele.
— Aqui
estou. Tua mulher?
— Não me
fales dela.
— Por quê?
— Quero
propor ação de divórcio.
— Eu já
contava com isso, disse Daniel tranqüilamente. Dizem que dois gênios iguais não
fazem liga; parece que o adágio é certo, visto que vocês ambos eram o tipo da
frivolidade...
— Daniel!
— Desculpa
a franqueza; é um direito de amigo. Até hoje não descobri outro mérito num amigo senão o de
dizer coisas desagradáveis ao outro
amigo, sob pretexto de que a franqueza é um dever do coração. Portanto, sustento que vocês
dois não se podiam ligar, pois eram e
são dois espíritos frívolos.
— E tu,
queres passar por um homem grave?
— Deus me
defenda! Eu não sou grave, nem frívolo, sou indiferente. São dois extremos. Eu
estou entre estes dois pólos do espírito humano. O caráter é como a gravata; uns usam
por gravata uma fitinha preta, são os frívolos; outros um lenço de dois palmos
de altura, são os graves. A primeira
constipa, a segunda sufoca; eu uso gravata regular.
Valadares
soltou do peito um ruidoso suspiro.
— Bem;
esquece os meus defeitos para atender somente aos meus infortúnios... Não posso
viver com Amélia, devo separar-me a todo custo.
— É
resolução assentada?
— É.
— Então o
meu conselho é inútil.
— Nem eu
te peço conselho. Quero simplesmente que me defendas
quando me
acusarem.
— Isso
não!
— Por quê?
— Não
quero intervir em negócios de família.
A resposta
de Daniel foi tão fria que Valadares não achou objeção razoável.
— É a tua
última palavra? perguntou ele.
— A
última.
Seguiu-se
a isto um longo silêncio.
Valadares
levantou-se, deu alguns passos, acendeu um charuto enquanto Daniel punha em
ordem alguns papéis.
— Como te
foste de viagem? perguntou Valadares.
— Bem.
— E quando
eu penso que podia ter ido contigo... A propósito, continuou Valadares, que me
querias tu dizer na carta que me mandaste e que eu não entendi?
— Ah!
queria dizer que não podia esperar.
— Mas há
certas palavras...
— Isso não
vale a pena. Tua mulher leu a carta?
— Leu. Ah!
se eu tivesse ido contigo! Mas aquilo por lá é muito aborrecido?
—
Conforme, disse Daniel; para quem gosta da corte e da Rua do Ouvidor, deve ser aborrecido; eu acomodo-me
bem em toda a parte.
— É
verdade que se eu fosse perdia muita coisa.
— Sim?
— Coisas
do arco-da-velha. Sabes que temos gente nova?
— Onde?
— No
Alcazar. A rapaziada agora anda muito animada. Eu estreei ontem este paletó num
grande jantar na Tijuca... jantar de Citera. Como achas o paletó?
— Acho
bom.
— Manda
fazer um, porque a moda é isto agora. Tenho pena de não ter trazido os
figurinos; os cortes das calças são excelentes. Estas que eu tenho já passaram
da moda; trouxe-as, porque vim depressa e é noite. E os padrões?
Valadares
continuou neste gosto até que bateram dez horas. Daniel alegou que estava cansado e precisava dormir.
Valadares saiu, prometendo voltar no dia
seguinte, a fim de ver se obtinha uma resposta
dele.
— Sobre o
divórcio ou sobre as calças?
— Uma e
outra coisa, disse Valadares descendo a escada.
CAPÍTULO XIX
No dia
seguinte, à noite, Daniel foi visitar a família de Augusta.
O rapaz
tinha curiosidade de saber que impressão lhe produziria a moça. Posto que não
sentisse mais nada por ela, queria ver se o simples aspecto do rosto ex-amado
teria força de despertar as recordações extintas.
Entrou
firme e tranqüilo na sala.
Madalena
esperou-o à porta; Augusta estava no sofá, e levantou-se apenas Daniel
apareceu.
Feitos os
cumprimentos do estilo, depois de uma longa viagem, Daniel disse que não
cuidava encontrá-las no Rio de Janeiro, visto estarem fechadas as câmaras e ter
o irmão de Madalena necessidade de voltar à província.
— A
necessidade desapareceu por enquanto, disse Augusta; meu tio demora-se algum
tempo...
— O que é
um prazer para nós todos, disse Madalena.
Daniel
curvou-se em sinal de assentimento.
A conversa
tomou outra direção até que chegaram algumas visitas mais.
Daniel
pôde ficar algum tempo a sós com Augusta, no canto de uma janela.
— Recebeu
uma carta minha? perguntou a moça.
— Um
simples bilhete.
— Isso
mesmo. Não me julga leviana?
— Não;
apenas audaz.
— É um
sinônimo neste caso. Seja o que for; o certo é que recebeu a carta... e veio.
— Viria em
todo caso, observou Daniel; mas o seu bilhete apressou a minha visita.
— Sabe o
que lhe quero?
— Não
adivinho.
—
Lembra-se o que me disse há tempos?
—
Disse-lhe que a amava.
— Pois
bem, proponho-lhe uma coisa. Quer casar comigo?
Daniel
ficou espantado com a franqueza desta pergunta. Fez-lhe o mesmo efeito de uma
bala em cheio no estômago. Não atinando com a resposta, murmurou um monossílabo. Quem
visse os dois julgaria que os papéis estavam trocados. Daniel assemelhava-se a
uma donzela tímida, e Augusta a um cavalheiro amante e solícito, querendo
arrancar da amada a resposta decisiva.
No fim de
alguns segundos, disse Augusta:
— Não
responde?
— Quer que
lhe responda? perguntou Daniel, readquirindo o seu sangue frio. É tão singular
esta pergunta feita por V. Ex.ª.
—
Singular? Não acho.
— Singular
por dois motivos. O primeiro é que essa pergunta costuma sempre ser feita por
nós outros; aqui os papéis estão trocados; o segundo é que, depois do que me disse há
tempos, aí...
— Mudei de
opinião.
— De
opinião? perguntou Daniel, sorrindo.
— De
sentimento, queria eu dizer, respondeu Augusta. Não exijo a resposta imediatamente; basta que a mande
amanhã.
E
retirou-se da janela.
Daniel
ainda ali ficou algum tempo, aturdido com o que acabara de ouvir. Tudo lhe
parecia estranho naquela moça. Para supô-la leviana encontrava um desmentido no seu caráter, que
estudara outrora; seria o que ele lhe disse a ela mesma, apenas uma audaciosa?
Daniel
meditou nessa noite na resposta que lhe havia de dar, ou antes na forma de resposta, porque a resposta era
negativa. Consultou o coração e reconheceu que nada sentia por ela. Estava
frio. Enganá-la, seria baixeza; mais
valia ser franco.
Mas como
dizer-lhe, sem que lhe ofendesse os brios, esta revelação inesperada?
No dia
seguinte, depois de muito meditar escreveu a carta seguinte:
“Minha
senhora,
A
singularidade da nossa situação só pode ter uma solução singular. Convidado a
casar por uma moça bonita, prendada, que a todos os respeitos é a ambição de um homem, é singular que esse homem, não
tendo outros compromissos, recuse o convite. Pois é justamente a minha resposta; tomo a
liberdade de recusar.
Não me
acuse, porém, antes de meditar bem nas considerações
que me obrigam a recusar o seu convite. Aceitá-lo-ia, quando eu a amava; hoje,
que o sentimento que lhe votava
desapareceu de todo, não posso fazê-la
feliz, porque casar sem amor é desgraçar uma senhora.
Tudo isto
é singular; a maior parte dos casamentos fazem-se independentemente do amor. Mas, que
quer? Eu, profundamente cético, a respeito de tudo, tenho a veleidade de crer no amor, ainda que raro, e
quero que o amor seja a única razão do casamento.
À vista
destas razões, o meu procedimento, recusando, é tão nobre e digno como vil seria se
aceitasse. Creia-me, entretanto, seu amigo e respeitador”.
Fechou a
carta e mandou-a.
Que
impressão produziria ela no ânimo de Augusta?
CAPÍTULO XX
Augusta
não se mostrou irritada com a resposta de Daniel; conteve a irritação;
revelar-se era contrário ao seu orgulho; não queria fazê-lo e não fez.
Mas,
poucos dias depois, notavam-se as visitas repetidas de Luiz à casa de Madalena; as pessoas que freqüentavam
a casa notavam também que as relações
entre o deputado e Augusta eram muito mais cordiais do que antes.
Madalena
quando percebeu isto, estimou muito que a situação tivesse tomado aquele
caráter; preferia vê-la casada com um homem que parecia merecer toda a
confiança.
E seria
namoro?
Alguns
afirmavam que sim; outros que não.
Todos
concordavam, porém, que a situação entre ambos tinha-se modificado muito.
Luiz, pela
sua parte, já se acreditava mais feliz; não é que ela lhe desse esperanças
positivas; mas todo o seu procedimento dava a entender isso mesmo.
Daniel,
depois da carta que escreveu a Augusta, hesitou em freqüentar a casa; mas, ao
mesmo tempo curioso por ver o efeito da carta, resolveu lá ir, e com efeito
apareceu ali quinze dias depois do último
em que lá estivera.
Como o
recebeu Augusta?
Daniel ia
atravessando um corredor e encontrou Augusta que vinha de uma sala interior. A moça apenas o viu foi
mais depressa para ele, com um sorriso nos lábios, a ponto que o rapaz,
contando com um gesto de despeito ou ao
menos de indiferença, ficou como dizem, desapontado.
Trocaram
alguns cumprimentos, depois dos quais Daniel perguntou a Augusta:
—
Perdoou-me?
—
Perdoei-o.
Augusta
disse estas palavras com tanta graça que Daniel sentiu-se arrependido de ter
mandado a carta.
Nessa
noite, lá esteve Luiz como de costume.
Madalena
recebeu Daniel com um sorriso de piedade. Ignorava a troca de cartas, mas o
sorriso queria dizer:
— O que
perdeu o senhor! Vai outro ser feliz!
Daniel
mostrou-se amável com todos. Augusta não demonstrou o menor sintoma de desagrado, em relação ao
rapaz.
— Será
isto natural? ou é simplesmente hipocrisia? perguntava Daniel consigo.
Luiz estava
radiante de amor.
Já para ele não havia dúvida de
que triunfava finalmente a sua perseverança.
A presença
de Daniel que, em outra época, o incomodara, já agora lhe era indiferente.
Por sua
parte, Daniel conhecia pelo ar de Luiz que a situação estava toda a seu favor.
Não quis
disputar-lha.
Somente,
refletiu um pouco sobre a facilidade com que Augusta passava de um a outro
namoro.
A coisa
não seria de admirar noutra mulher; mas na orgulhosa Augusta!
CAPÍTULO XXI
Daniel ao
entrar em casa recebeu uma carta que lá deixara Valadares.
Desta vez,
o janota ia divorciar-se da mulher.
Daniel
sorriu e atirou a carta a um lado; mas no dia seguinte de manhã, apenas saiu à rua, recebeu a notícia
como certa.
Tinham-se
finalmente separado aquelas duas almas que não foram feitas para ser unidas, apesar da conformidade
das tendências que se notava entre ambos.
O próprio
Valadares veio confirmar a notícia.
Daniel
encontrou-o no Rocio, junto à esquina do Clube Fluminense.
— Sabes,
meu rico Daniel?
— O quê?
— Que eu
vou pôr a sela à margem; a sela é minha mulher.
— Tu és o
burro, disse Daniel rindo.
— Com três
r r r.
— Mas eu
ouvi dizer que já estavam separados?
— Já me
mudei de casa; agora vamos tratar judicialmente do divórcio.
— Mas já
pensaste nisto maduramente?
— Já
pensei demais; se me não separo tão depressa, iria para o hospício.
— Se lá
estivesses há mais tempo, não te casavas.
— Isso é
verdade...
Despediram-se.
Daniel foi rindo interiormente da situação de Valadares.
Na
primeira vez em que se achou em casa de Augusta, encontrou lá Amélia.
A mulher
de Valadares estava alegre como se não se houvesse dado na sua vida
acontecimento de grande monta.
Daniel não
lhe disse nada; mas Amélia, na primeira ocasião em que se achou com ele mais separada dos outros,
contou-lhe a mesma coisa que o marido, com a diferença de que desta vez a
vítima era ela e não ele.
Daniel
ouviu como amigo a narração que Amélia lhe fazia, mas absteve-se de dar resposta
nenhuma.
— Tudo
isto, pensava ele consigo, voltando para casa, são argumentos para não casar
nunca!
Anunciou-se
um grande baile dado pelo tio de Augusta que se retirava com toda a família
para a província. O velho deputado não era dado a essas coisas; mas, a pedido
da sobrinha, fez tudo o que ela lhe indicou.
Augusta
queria ter na corte um último triunfo.
Com
efeito, na noite do baile esteve esplêndida. Ela tinha o condão de ser elegante, com simplicidade. Sobrava-lhe
gosto. E tudo quanto podia fazer, fê-lo para aquela noite, que devia ser a sua
última campanha.
Luiz ficou
deslumbrado quando a viu entrar na sala, e não menos deslumbrado ficou Daniel.
A moça
aceitou Daniel para seu primeiro par.
— Sabe que
está deslumbrante? disse-lhe o rapaz, tomando o lugar na quadrilha.
— Deveras?
— É o que
lhe digo. Demais, já todos os olhos lhe estão dizendo isto mesmo.
Depois dos
antecedentes havidos entre Daniel e Augusta, era impossível que fossem mais familiares.
Posto que
Luiz tivesse já grandes esperanças, com visos de certeza, de dominar
completamente o coração de Augusta, todavia estava um pouco incomodado com as
atenções que a moça tinha para com Daniel.
Sabia nada
existir; mas receava, e bastava isso para atormentá-lo.
Tudo,
porém, desapareceu, quando Augusta o aceitou para par da seguinte quadrilha.
— Não tive
a satisfação de dançar a primeira, disse Luiz, mas espero que me conceda a
segunda.
— Não nos
compromete isso? disse Augusta.
— Por quê?
— Dizem
que a segunda quadrilha é dos namorados.
Luiz
sorriu cheio de satisfação.
— Dizem, é
verdade, respondeu ele sem saber bem o que dizia.
No correr
da quadrilha, desapareceu a menor sombra de susto de Luiz. Augusta estava mais
do que nunca amável com ele.
CAPÍTULO XXII
Justamente no fim da
quadrilha, entrou na
sala Amélia Valadares, sem o marido.
Já sabemos
que Amélia era bonita; sabia vestir-se, exagerando um pouco as modas, é
verdade; naquela noite, vinha bem; não havia exageração e havia, portanto,
elegância.
Poucas pessoas,
duas outras, sabiam até então da resolução tomada entre ela e o marido para se separarem. Por
isso, foi-lhe fácil responder aos que lhe perguntavam por Valadares:
— Foi a um
jantar político. Virá logo.
Desculpem
a leviandade da rapariga; ela não dava mais de si.
Quando
Amélia entrou, viu Augusta pelo braço de Luiz, conversando amigavelmente com
ele; pela noite adiante reparou nessa intimidade maior que a que até então
existia.
— Será
amor? perguntou ela consigo.
Na
primeira ocasião que teve para conversar mais largamente com Augusta,
aproveitou-a. Foram para uma pequena sala de descanso, e aí, enquanto se dançava uma valsa, sentaram-se
as duas num sofá.
— Dou-lhe
os meus parabéns, disse Amélia.
— Por quê?
— Está de
namoro e casamento pronto.
— Nem
namoro, nem casamento, respondeu Augusta.
— Mas há
esperanças de união?
— Isso
sim.
— Logo...
— Quer que
lhe diga uma coisa? É natural que eu acabe casando com o Luiz, mas não é por
amor dele...
Amélia,
neste ponto, pensou em Valadares.
— Caso-me
por duas razões: a primeira é para acabar com os pretendentes à minha mão,
continuou Augusta.
— E os
pretendentes ao coração?
— Oh!
esses!
— A
segunda razão qual é?
— A
segunda razão, continuou Augusta, é que o melhor meio de esquecer...
A moça hesitou.
— Acaba!
disse Amélia.
— Escute,
minha amiga; é um segredo que só aqui ficará. Sabe a quem é que eu amava e amo
deveras?
— Ao
Daniel?
— Sim.
— Eu
desconfiava.
— Só
aquele orgulho misturado de indiferença podia domar a minha indiferença e o meu
orgulho.
— Mas
então?...
— Então, é
que tendo recusado sempre o que ele pediu, que era a minha mão e meu coração,
cheguei um dia a oferecer-lhos.
— E ele?
— Recusou.
—
Pelintra!
— Não; era
justo; a culpada fui eu. Mas agora é preciso carregar a minha cruz. Quero ir
para o Norte já e ver se esqueço isto...
— O Luiz
há de ajudá-la a esquecer o amor de Daniel.
— Qual!
disse Augusta com um gesto de tanta indiferença que seria capaz de gelar o
Vesúvio em horas de explosão.
—
Acabou-se a valsa, vamos passear, disse Amélia.
E saíram
da sala.
Apenas
transpuseram a soleira, saiu de um gabinete contíguo um homem que ali se achava, algum tempo antes de
lá entrarem as duas raparigas.
Era Luiz.
O gabinete
era o lugar em que trabalhava ou lia o tio de Augusta. Precisando escrever um bilhete, Madalena o
levou ali, onde se achava quando as duas moças chegaram.
Quando
entrou na salinha, estava lívido.
Tinha
ouvido a verdade mais cruel de todas; uma mulher que fingia gostar dele, sendo
indiferente; que se casaria com ele para escapar aos pretendentes, e que,
casando-se, levava no coração a lembrança e o amor de outro.
Luiz ficou
atordoado com o que ouvira; a sua primeira idéia foi aparecer no meio das duas
moças, quando elas confidenciavam; mas reconheceu que isso apenas o exporia ao
ridículo.
Quando
percebeu que elas tinham saído, fugiu do gabinete onde abafava. As duas moças,
como disse, tinham já saído; Luiz ainda viu de longe a formosa cabeça de
Augusta dominando as outras como a de uma rainha.
Deu alguns
passos cambaleando; depois atravessou a sala grande, e, sem que ninguém o
percebesse, foi-se embora.
Durante a
primeira meia hora não se reparou na ausência dele. Mas, afinal, descobriu-se
que Luís tinha saído.
— Sem
dizer-mo! pensou Augusta. É singular!
No dia
seguinte, Luiz amanheceu doente; uma febre grave se declarou que o prostrou de
cama oito dias. Mas era robusto e o organismo resistiu triunfante ao mal.
Quando se
levantou, escreveu o seguinte bilhete a Augusta:
“Minha
senhora
Ouvi tudo por simples acaso; é-me impossível satisfazer-lhe
o desejo de casar por esquecer. Adeus.
Luiz”.
A carta
não produziu grande comoção em Augusta; mas esta sentiu- se. Pela primeira vez,
achou-se humilhada; argüia-lhe a consciência.
CAPÍTULO XXIII
Repelindo
os que a amavam, leviana em suas ações, dotada de um caráter orgulhoso e altivo, Augusta teve o
castigo dos próprios erros.
A carta de
Luiz inspirou-lhe a idéia de não casar mais.
E cumpriu
a resolução.
Ninguém deve imitar
Augusta; é um desses tipos raros, extravagantes, que nunca podem
ser a esposa amante, nem a mãe carinhosa; em suma, é a mulher sem nenhum traço
augusto.
---
Nota:
Texto-fonte: Histórias Românticas, Machado de Assis, Rio
de Janeiro: Edições W. M. Jackson, 1938. Publicado originalmente em Jornal das
Famílias, agosto de 1872. Disponível digitalmente no
site: Domínio Público
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