domingo, 22 de setembro de 2013

Virgílio Várzea: "Supremo Adeus"

SUPREMO ADEUS
À senhorita Elvira Remédios Monteiro

Desde que pisara o paneiro do bote, que a devia conduzir ao steamer fumegante que esperava lá embaixo na barra, Sofia Prevalsky, sentada à popa, ao lado de seu pai, velho conde da alta nobreza polaca, não cessara um instante de fitar mudamente a linha afastada do cais, onde o bando das amigas queridas ficara a olhar tristemente, agitando os lenços claros.

Vivera ali oito anos de bela e doce tranquilidade, numa risonha vivenda campestre, naquela florida cidade da América Meridional, no seio da terra catarinense, sob o encanto do céu azul, neste Brasil bem-amado. E fora tal a afeição que a cercara nesse exílio suave, que o pai voluntariamente escolhera, que, apenas uma ou outra vez, vagamente, sentira gemer o coração na nostalgia da pátria. Depois, fora ali igualmente que a sua meninice enflorara, desabrochando em corolas de beleza que eram a magnificência de sua mocidade. Franzina e triste que viera, sob o luto lacrimoso de uma desolada orfandade de mãe, trazendo n’alma infantil a impressão aterradora das cenas sangrentas dessa revolução temerosa que os arrojara àquelas plagas — voltava agora forte e moça, no esplendor dos seus vinte anos dourados.

Por isso, abatida e soluçante, sob a vela branca enfunada, descendo as águas mansas do rio cercado de altas ervagens, fixava ainda vivamente, e pela vez derradeira, a curva larga do cais, cumulada de telhados vermelhos e torres alvas faiscantes, marcando além, com tristeza, entre renques de eucaliptos verdes, a fugidia cidade.

Mas, em pouco, os telhados e torres desapareceram para sempre na espessura das árvores. Pelas faces de Sofia as lágrimas corriam, fluindo seguidamente de seus olhos azulados; e só cessaram um momento, quando a embarcação, ajudada pelo vento da tarde, caiu no imenso estuário que ia dar ao oceano, cujas ilhas rendilhadas começaram a destacar, graciosas na sua cinta de espuma, sobre a planície ondulada.

O panorama da baía, no entanto, não conseguiu dissipar-lhe os pesares: o novo fluxo de pranto tomou-a, fazendo-a sofrer mais fortemente, agora, abraçada ao velho pai. E Sofia soluçava como nunca, porque, nesse instante, seu espírito se voltava totalmente para a sua paixão, abalando-a e torturando-a como numa desgraça. Amava, mas amava loucamente, com todo o ardor dos seus vinte anos, a um desses rapazes vigorosos do sul, de tez queimada e suave, os olhos negros e lânguidos, os cabelos anelados, cujas linhas esculturais e cuja virilidade soberba fazem a atração e o encanto dessas louras raparigas do norte, filhas das raças fortes do Báltico.

Ele idolatrava-a também com fervor, num afeto austero e másculo. E desde o primeiro encontro que tiveram, numa igreja católica, jamais a deixara, seguindo-a sempre devotadamente, e com fidelidade amorosa, quando os vagares da sua vida marítima lhe permitiam errar docemente pela terra natal. Um embaraço surgira, porém, entre ambos: a oposição do velho emigrado polaco, que, havia dois anos, ao perceber aquela grande paixão, entrara a retrair-se com a filha, ameaçando a todo o momento regressar à Polônia — agora que o tzar Alexandre os anistiara.

Apesar disso, o velho não partia e lá ia gozando alegremente, no sul, as delícias do seu chalé entre árvores, quando a morte de um irmão, rico industrial na Alemanha, o levara de repente à viagem. E como estava a chegar a S. Francisco um paquete da linha de Hamburgo, preparara tudo, e, fretada uma embarcação, depois de longas despedidas, nas vésperas, embarcara com a filha, nessa manhã radiosa.

Mas Sofia, alguns dias antes, sem que o pai sequer de leve suspeitasse, e auxiliada pelas amigas, passara um telegrama ao noivo, então comandante de um pequeno cruzador, estacionado em Santos. O rapaz não mandara resposta, e ela, acreditando-se já abandonada, caíra numa grande tristeza. E ali, sobre o bote, na planura radiante, desfazia-se em lágrimas, o coração despedaçado, só entregue ao seu amor e àquele desamparo...

Entretanto, quando o escaler ia atracar ao vapor, no meio da balbúrdia de muitas embarcações, a adorável rapariga polaca teve um doce grito de júbilo, ao descobrir, de repente, na água azul cheia de sol, o pequeno cutter de Afonso, o noivo querido, que demandava o steamer, velejando a todo o pano.

Momentos após, num enleio, sob o toldo fresco de popa, no vasto convés asseado do Golden Kaiser se encontraram os dois amantes — o coração aos saltos, os olhos úmidos de emoção, numa dessas horas de alada mas contraditória ventura, em que a alegria da boa vinda é ao mesmo tempo empanada pela amargura do adeus!

Longo tempo então, num recanto isolado da borda, se fizeram confidencias, desfiando tristemente recordações e saudades, onde doces cenas passadas reviviam vagamente de envolta à irradiação inolvidável dos dias felizes em que se tinham dado. E a voz de ambos, fugindo em murmúrio nas azas do vento do mar, nessa funda expansão íntima — talvez a última que trocavam — tornava, por vezes, uma inflexão ansiosa, como sob um peso de lágrimas...

O velho conde, no entanto, magro e alto, no seu luto perpétuo de viúvo e de conjurado, com as bastas suíças alvíssimas moldurando-lhe o rosto fidalgo, de nobres linhas augustas, onde se desenhava firmemente o cunho superior de uma raça — vigilante e severo, não cessava de os olhar fixamente com os seus vivos olhos septuagenários, que pareciam dois miosótis inquietos, na sua face de pergaminho rosado.

Mas a hora da partida chegava. Por todo o vapor, no convés, passageiros afamados cruzavam, por entre grandes rumas de caixotes e malas, que marinheiros hercúleos e louros, os largos peitos descobertos pela aberta da camisa azulada, moviam de uni pata outro bordo com enorme atividade.

Na baía, em redor, coalhava já a superfície cerúlea a imensa frota graciosa dos escaleres do tráfego, rumando, numa alvura de velas, em direção à cidade.

Subitamente, nesse instante, um silvo grosso de basso rasgou o ar, para a proa, a bordo do Golden Kaiser. As raras embarcações retardadas, que ainda cercavam o costado, largaram logo, às remadas. E os primeiros movimentos das hélices bateram a água, fazendo trepidar o colosso e retesando as amarras.

Afonso então apressou-se. Correu para o velho conde polaco e deu-lhe um forte shake-hands. Depois, voltando-se para Sofia, que chorava já loucamente, quase desfalecida contra a balaustrada, o rosto afogado no seu lenço branco lavorado, onde buscava abafar os soluços — tomou-lhe as mãos, muito pálido, cobriu-as de beijos ardentes, e, com os olhos marejados de lágrimas, abraçou-a longamente, sem uma palavra.

Em seguida, deixando-a quase desmaiada entre os braços carinhosos do pai, dirigiu-se para a escada, em demanda do cutter, que já arfava lá em baixo, nas ondas, preso aos croques reluzentes, o alto latino caçado.

O transatlântico poderoso entrou então a virar, barrando de giz a baía buscando as vagas da barra.

E como a marcha era lenta pelo extenso canal, que altos bancos ladeavam, o jovem oficial de marinha resolveu acompanhar o paquete, no seu cutter velejante, até a linha do mar alto. Emparelhou-se com o steamer e começou a voar ao seu lado à aragem fresca do largo, enquanto a amada querida, debruçada tristemente à borda do Golden Kaiser, agitava para ele, em adeuses repetidos, o seu lenço de cambraia.

Seguiu assim muito tempo, e só volveu para terra, quando o enorme casco fumegante se sumiu pela proa, perdido na noite densa e nos grandes balanços do mar alto mar...

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Nota:
Virgílio Várzea: "Contos de Amor" (1901)

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