
AYRES E VERGUEIRO
Era muito alva, cheia de corpo, assaz
bonita e elegante, a esposa de Luís Vergueiro. Chamava-se Carlota. Contava
vinte e dois anos e parecia destinada a envelhecer muito tarde. Não sendo
franzina, não tinha nenhuma ambição de parecer vaporosa, pelo que era dada à
boa mesa, e detestava o princípio de que uma moça para parecer bonita deve
comer pouco. Carlota comia sofrivelmente, mas em compensação só bebia água, uso
que, na opinião do marido, era causa de se lhe não afoguearem as faces como
convinha a uma beleza robusta.
Requestada
por muitos rapazes no ano da Maioridade, deu ela a preferência ao Sr. Luís Vergueiro
que, posto não fosse mais bonito que os outros, tinha qualidades que o punham
muito acima de todos os rivais. Destes se podia dizer que os movia a ambição;
tinham geralmente pouco mais de nada; Vergueiro não era assim. Iniciava um
negociozinho de fazendas que lhe ia dando esperanças de enriquecer, ao passo
que a amável Carlota apenas tinha aí uns dez contos, dote feito pelo padrinho.
Caiu a
escolha em Vergueiro, e o casamento foi celebrado com alguma pompa, sendo
padrinhos um deputado maiorista e um coronel do tempo da revolução de Campos.
Nunca
houve casamento mais falado que aquele; a beleza da noiva, a multiplicidade dos rivais, a pompa da
cerimônia, tudo deu que falar durante uns oito dias antes e depois, até que a
vadiação do espírito público achou novo alimento.
Vergueiro
alugou a casa que ficava por cima da sua loja, e para lá levou a mulher, satisfazendo
assim as obrigações públicas e privadas, consorciando facilmente a bolsa e o coração. A casa era na Rua de S.
José. Daí a pouco tempo comprou a casa, e isto fez dizer que o casamento, longe
de lhe pôr um cravo na roda da fortuna, veio antes ajudá-lo.
Tinha
Vergueiro uma irmã casada no interior. Morre-lhe o marido, e a irmã veio para o Rio de Janeiro onde foi recebida pelo
irmão com todas as demonstrações de
afeto. As duas cunhadas simpatizaram logo uma a outra, e esta presença de uma
estranha (para recém-casados todos são estranhos) não alterou a felicidade doméstica
do casal Vergueiro.
Luísa
Vergueiro não era bonita, mas tinha uma graça especial, uns modos todos seus,
uma coisa que se não explica, e esse misterioso dom, essa qualidade indefinível
encadeou para sempre o coração de Pedro Ayres, rapaz de trinta anos perfeitos,
morador na vizinhança.
Digam-lhe
lá o que pode fazer uma pobre viúva ainda moça, que apenas esteve casada dois
anos. Luísa não era da massa das Artemisas. Tinha chorado o esposo, e se tivesse talento, podia escrever uma
excelente biografia dele, honrosa para ambos. Mas isso era tudo que se podia
exigir dela; não possuía um túmulo no coração, possuía um ninho; e um ninho
deserto é a coisa mais triste deste mundo.
Não foi
Luísa insensível aos olhares requebrados de Pedro Ayres, e serei justo dizendo
que ocultou quanto pôde a impressão que o moço fazia nela. Ayres pertencia
àquela raça de namoradores que não abatem armas logo à primeira resistência.
Insistiu nos olhares entremeados com alguns sorrisos; chegou a interrogar
miudamente um moleque da casa, cuja discrição não pôde resistir a uma moeda de
prata. O moleque foi além; aceitou uma carta para a viuvinha.
A viuvinha
respondeu.
Daqui em
diante correram as coisas com aquela celeridade natural entre dois corações que
se querem, que são livres, que não podem viver um sem o outro.
Carlota
percebeu o namoro, mas respeitou a discrição da cunhada, que nenhuma confissão
lhe fez. Vergueiro estava no extremo oposto da perspicácia humana; e além disso
as suas ocupações não lhe davam tempo para perceber os namoros da irmã.
Não
obstante, sorriu complacentemente quando Carlota lhe disse o que sabia.
— Pensas
que eu ignoro isso? perguntou o marido brincando com a corrente do relógio.
— Alguém
to contou? perguntou a mulher.
— Ninguém
me contou nada, mas para que tenho eu olhos senão para ver o que se passa à
roda de mim? Sei que esse rapaz anda cá a namorar a Luísa, estou a ver em que
param as coisas.
— É fácil
de ver.
—
Casamento, não?
— Que
dúvida!
Vergueiro
coçou a cabeça.
— Nesse
caso, disse ele, acho bom indagar alguma coisa da vida do pretendente; pode ser
algum tratante...
— Eu já
indaguei tudo.
— Tu?
Carlota
passou-lhe os braços à roda do pescoço.
— Eu, sim!
As mulheres são curiosas; vi o Tobias entregar uma cartinha à Luísa; interroguei o Tobias, e ele disse-me que o
rapaz é um moço sério e tem alguma coisa de seu.
— Tem,
tem, disse Vergueiro. Que achas?
— Que os
devemos casar.
—
Entende-te tu com ela, e conta-me o que souberes.
— Bem.
Carlota
cumpriu fielmente a ordem do marido, e Luísa nada lhe ocultou do que se passava
em seu coração.
— Queres
então casar com ele?
— Ele
deseja isso mesmo.
— E estão
calados! Parecem-me aprendizes.
Carlota
era sincera no prazer que tinha em ver casada a irmã do marido, sem se preocupar
com o resultado disso, que era tirar-lhe a companhia a que já se acostumara.
Vergueiro
refletiu na inconveniência de confiar nas informações de um moleque ignorante,
que devia ter a respeito da probidade e da distinção idéias sumamente vagas.
Para suprir esta inconveniência, lembrou-se de ir em pessoa falar com Pedro
Ayres, e assentou que o faria no domingo próximo. A mulher aprovou a resolução,
mas o pretendente cortou-lhe as vazas, indo ele mesmo no sábado à casa de
Vergueiro, expor os seus desejos e títulos.
Pedro
Ayres era homem bem apessoado; tinha grandes suíças e um pequeno bigode. Vestia
com certa elegância, e tinha os gestos desembaraçados. Algum severo juiz podia
achar-lhe um inexplicável horror à gramática; mas nem Vergueiro, nem Carlota,
nem Luísa, estavam em melhores relações com a mesma senhora, de maneira que
este pequeno senão passou completamente despercebido.
Ayres
deixou a melhor impressão em toda a família. Desde logo ficou assentado que se
esperasse algum tempo, a fim de completar o prazo do luto. Isso, porém, não embaraçou as vindas de Ayres à casa da
noiva; começou indo lá três vezes por
semana, e acabou indo todos os dias.
Ao cabo de
poucas semanas, já Vergueiro dizia:
— Ó Ayres,
queres mais açúcar?
E Ayres
respondia:
— Dá cá
mais um pouco, Vergueiro.
Estreitou-se
a amizade entre ambos. Eram necessários um para o outro.
Quando
Ayres não ia à casa de Vergueiro, este passava a noite mal. Ayres detestava o
jogo; mas a amizade que tinha a Vergueiro bastou para que depressa aprendesse e
jogasse o gamão, a ponto que chegou a vencer o mestre. Nos domingos, Ayres
jantava com Vergueiro; e dividia a tarde e a noite entre o gamão e Luísa.
As duas
moças, longe de se zangarem com este namoro dos dois, pareciam contentes e felizes. Viam nisso uma fiança de
futura concórdia.
Um dia
entrou Ayres na loja de Vergueiro e pediu-lhe uma conferência particular.
— Que
temos? disse Vergueiro.
— Daqui a
dois meses, respondeu Ayres, é o meu casamento; vou ficar indissoluvelmente
ligado à tua família. Tive uma idéia...
— Uma
idéia tua deve ser excelente, observou Vergueiro abaixando o colete que havia
fugido insolentemente do seu lugar.
— Tenho
uns contos de réis. Queres-me para sócio? Ligaremos deste modo o
sangue e a bolsa.
sangue e a bolsa.
A resposta
de Vergueiro foi menos circunspecta do que convinha em casos tais. Levantou-se e caiu nos braços do amigo,
exatamente como faria um sujeito falido a quem lhe oferecessem uma tábua de
salvação. Mas nem Ayres teve semelhante suspeita, nem acertaria se a tivesse.
Vergueiro nutria pelo futuro cunhado um sentimento de entusiástica amizade, e
achou naquela idéia um documento da afeição do outro.
No dia
seguinte deram os passos necessários para organizar a sociedade, e dentro de pouco tempo foi chamado um pintor
para traçar nos portais da loja estes dois nomes, já agora indissoluvelmente
ligados: Ayres & Vergueiro.
Vergueiro
insistiu em que o nome do amigo estivesse antes do seu.
No dia
desta pintura, houve jantar em casa, e a ele assistiram algumas pessoas íntimas,
todas as quais ficaram morrendo de amores pelo sócio de Vergueiro.
Estou a
ver o meu leitor aborrecido com esta singela narração de ocorrências prosaicas
e vulgares, sem nenhum interesse romanesco, sem que apareça nem de longe a
orelha de uma peripécia dramática.
Tenha
paciência.
É verdade
que, feita a sociedade, e casado o novo sócio, a vida de toda esta gente não
poderá oferecer interesse nenhum que valha dois caracóis. Mas aqui intervém uma
personagem nova, a qual vem destruir tudo o que o leitor pode imaginar. Não é
só uma personagem; são duas, irmãs ambas, ambas poderosas: a Doença e a Morte.
A doença
entrou por casa de nosso amigo Vergueiro e prostrou na cama durante dois longos
meses a viúva-noiva. Não se descreve o desespero de Ayres vendo o estado grave
daquela a quem ele amava mais que tudo. Esta circunstância de ver o amigo
desesperado aumentou a dor de Vergueiro, que já devia sentir bastante com os
padecimentos da irmã.
Do que era
a moléstia, divergiram os médicos; e todos eles com sólidas razões. O que não
provocou nenhuma divergência da parte dos médicos, nem das pessoas da casa, foi
o passamento da moça que se verificou às 4 horas da madrugada de um dia de
setembro.
A dor de
Ayres foi tremenda; atirou-se ao caixão quando os convidados o vieram buscar
para o coche, e não comeu um pedaço de pão durante três dias.
Vergueiro
e Carlota recearam pela saúde e até pela vida do malfadado noivo, pelo que foi
assentado que ele se mudaria para a casa de Vergueiro, onde seria vigiado de
mais perto.
Seguiu-se
à expansão daquele imenso infortúnio um abatimento prolongado; mas a alma
readquiriu as forças perdidas, e o corpo com ela se foi restabelecendo. No fim
de um mês já o sócio de Vergueiro assistia ao negócio e dirigia a escrituração.
Com
verdade se diz que é nos grandes infortúnios que se conhecem as verdadeiras
amizades. Ayres encontrou da parte do sócio e da mulher a mais sublime dedicação. Carlota foi para ele uma
verdadeira irmã; ninguém levou mais longe
e mais alto a solicitude. Ayres comia pouco; arranjou-lhe ela comidas próprias
para lhe vencer o fastio. Conversava com ele longas horas, ensinava-lhe alguns
jogos, lia-lhe o Saint-Clair das Ilhas, aquela velha história de uns desterrados da ilha da Barra.
Pode-se afiançar que a dedicação de Carlota foi o principal medicamento que
restituiu à vida o nosso Pedro Ayres.
Vergueiro
aplaudia in petto o procedimento de sua mulher. Quem meu filho beija, minha boca
adoça, diz um adágio; Vergueiro tinha para com o sócio extremos de pai; tudo o
que se fizesse ao Ayres, era agradecido por ele do fundo da sua grande alma.
Nascida da
simpatia, criada no infortúnio comum, a amizade de Ayres e Vergueiro assumiu as proporções do ideal. Na vizinhança,
já ninguém recorria às expressões proverbiais para significar uma amizade
íntima; não se dizia de dois amigos: são unha e carne; dizia-se: Ayres com
Vergueiro. Diógenes teria achado ali um homem,
e realmente ambos formavam uma só criatura.
Nunca mais
sucedeu andarem com roupa de cor, fazenda ou feitio diferentes; vestiam-se
igualmente, como se até nisso quisessem mostrar a perpétua aliança de suas
nobres almas. Faziam mais; compravam chapéus e sapatos no mesmo dia, ainda que
um deles os houvesse estragado menos que o outro.
Jantar,
baile ou passeio a que um fosse havia de ir o outro por força, e ninguém se animava a convidá-los separadamente.
Não eram,
pois, dois sócios simples que procuravam dos seus esforços juntos obter cada qual a sua riqueza.
Não.
Eram dois
amigos íntimos, dois corações iguais, dois irmãos siameses, eternamente
vinculados na terra, labutando para alcançar os bens da sorte, mas sem nenhuma
idéia de os separarem jamais.
E a
fortuna os ajudou, por maneira que dentro de dois anos já havia idéia de liquidar
o negócio, e irem os dois e mais Carlota viver tranqüilamente em uma fazenda,
comendo o ganhado na graça de Deus e pleno esquecimento dos homens.
Que mau
demônio, que ruim espírito veio meter-se entre eles para lhes impedir esta
excelente idéia?
A fortuna
varia como a mulher; depois de os haver favorecido, começou a desandar.
Meteram-se eles em negócios arriscados e perderam alguma coisa. Todavia ainda tinham um bom pecúlio.
— Vamos
liquidar? perguntou um dia Ayres a Vergueiro.
— Vamos.
Inventariaram
as fazendas, cotejaram o seu valor com a soma das dívidas, e repararam que, se
pagassem integralmente aos credores, ficariam com uma soma mesquinha para
ambos.
—
Continuemos o negócio, disse Ayres; trabalharemos até resgatarmos a antiga posição.
— Justo...
mas eu tenho uma idéia, disse Vergueiro.
— E eu
tenho outra, respondeu o sócio. Qual é a tua?
—
Dir-ta-ei domingo.
— E eu
comunicarei nesse mesmo dia a minha idéia, e veremos qual delas serve , ou se
se combinam ambas.
Seria
coisa extremamente nova, e até certo ponto digna de pasmo, que aqueles modelos
da verdadeira amizade tivessem idéias divergentes. A idéia anunciada para o
domingo seguinte era a mesmíssima idéia, tanto no cérebro de Ayres, como no de Vergueiro.
Consistia
em liquidar à sorrelfa: iriam vendendo pouco a pouco as fazendas, e sairiam da
Corte sem dizer adeus aos credores.
A idéia
não era original; bonita parece que também não; mas era útil e praticável.
Ficou
assentado que esta resolução não seria comunicada à mulher de Vergueiro.
—
Reconheço, dizia Ayres, que é uma senhora de alta prudência e rara discrição...
— Não tem
dúvida.
— Mas o
espírito das senhoras é cheio de alguns escrúpulos, e se ela nos fosse à mão,
tudo ficaria perdido.
— Estava
pensando a mesma coisa, observou Vergueiro.
Concordes
na promessa, não menos o foram na infidelidade. No dia seguinte, Ayres ia
comunicar confidencialmente o plano à esposa de Vergueiro, e começou a dizer:
— Nós
vamos liquidar aos poucos...
— Já sei,
respondeu Carlota, ele já me disse tudo.
Façamos
justiça a esta distinta moça; depois de tentar dissuadir o marido do projeto,
tentou dissuadir o sócio, mas tanto um como o outro ostentaram uma tenacidade de ferro em suas opiniões.
Divergiam no modo de encarar a questão. Vergueiro não contestava a imoralidade
do ato, mas achava que o benefício compensava a imoralidade; reduziu a
dissertação a esta expressão popular: ande eu quente e ria-se a gente.
Ayres não
admitia que o projeto ofendesse as leis da moral. Ele começava separando a
moral e o dinheiro. O dinheiro é coisa de si tão mesquinha, que não podia
penetrar na região sublime da moral.
— Deus,
observava ele, não quer saber quanto pesam as algibeiras, quer saber quanto
pesam as almas. Que importa que as nossas algibeiras estejam pejadas de
dinheiro, contanto que as nossas almas estejam leves de pecados? Deus olha para
as almas, não olha para as algibeiras.
Carlota
alegou triunfalmente um dos dez mandamentos da lei de Deus; mas o sócio de
Vergueiro fez uma tão complicada interpretação do texto bíblico, e falou com
tanta convicção, que o espírito de Carlota não achou resposta suficiente, e aqui
parou a discussão.
A que se
não acostuma o coração humano? Lançada a má semente no coração da moça,
depressa germinou, e o plano secreto passou a ser assunto de conversa entre os
três conjurados.
A execução
do plano começou e prosseguiu com espantosa felicidade. A firma Ayres &
Vergueiro era tão honrada, que os portadores de letras e outros títulos, e até
os que não tinham títulos, foram aceitando todas as delongas que os dois sócios
lhes pediam.
As
fazendas começaram a ser vendidas a resto de barato, não por anúncio, o que seria
dar na vista, mas por informação particular que passava de boca em boca.
Nestas e
noutras ocupações se abismava o saudoso espírito de Pedro Ayres, já agora
deslembrado da desditosa Luísa. Que querem? Nada é eterno neste mundo.
Nada liga
mais fortemente os homens que o interesse; a cumplicidade dos dois sócios
apertou os vínculos da sua proverbial amizade. Era ver como eles delineavam
entre si o plano da vida que os esperava quando estivessem fora do Império.
Protestavam gozar do dinheiro sem recorrer às alternativas do comércio. Além
dos prazeres comuns, Vergueiro possuía os do coração.
— Tenho
Carlota, dizia ele, que é um anjo. E tu, meu Ayres? Por que te não casarás
também?
Ayres
desatou do peito um suspiro e disse com voz trêmula:
— Casar?
Que mulher há mais neste mundo que possa fazer a minha felicidade?
Ditas
estas palavras com outra sintaxe que eu não reproduzo por vergonha, o desditoso
Ayres sufocou dois ou três soluços e fitou os olhos no ar; depois coçou o nariz
e olhou para Vergueiro:
— Olha, eu
não me considero solteiro; não importa que tua irmã morresse; estou casado com
ela; separa-nos apenas um túmulo.
Vergueiro
apertou com entusiasmo as mãos do sócio e aprovou a nobreza daqueles
sentimentos.
Quinze
dias depois desta conversa, Vergueiro chamou Ayres e disse que era necessário
pôr termo ao plano.
— É
verdade, disse Ayres, as fazendas estão quase todas vendidas.
— Subamos.
Subiram e
foram ter com Carlota.
— Vou para
Buenos Aires, começou Vergueiro.
Carlota
empalideceu.
— Para
Buenos Aires? perguntou Ayres.
—
Crianças! exclamou Vergueiro, deixem-me acabar. Vou para Buenos Aires com o
pretexto de negócios comerciais; vocês demoram-se aqui um a dois meses; vendem
o resto, põem o dinheiro a bom recado, e partem para lá. Que lhes parece?
— A idéia
não é má, observou Ayres, mas está incompleta.
— Como?
— A nossa
ida deve ser pública, explicou Ayres; eu declararei a todos que tu estás doente
em Buenos Aires e que mandas buscar tua mulher. Como alguém há de acompanhá-la,
irei eu, prometendo voltar daí a um mês; a casa fica aí com o caixeiro, e... o
resto... creio que não preciso dizer o resto.
— Sublime!
exclamou Vergueiro; isto é que se chama estar adiante do século.
Assentado
isto, anunciou aos amigos e credores que uma operação comercial o levava ao Rio
da Prata; e tomando passagem no brigue Condor deixou
para sempre as plagas da Guanabara.
Não direi
aqui as saudades que sentiram aqueles dois íntimos amigos, quando se separaram,
nem as lágrimas que verteram, lágrimas dignas de inspirar mais adestradas penas do que a minha. A amizade não
é um nome vão.
Carlota
não menos sentiu aquela separação, posto fosse de pequeno prazo. Os amigos da
firma Ayres & Vergueiro viram bem o que era um quadro de verdadeira afeição.
Ayres não
era peco, apressou a venda das fazendas, realizou em boa prata o dinheiro da
caixa, e antes de seis semanas recebeu de Buenos Aires uma carta em que
Vergueiro dizia que estava de cama, e pedia a presença de sua querida mulher.
A carta
terminava assim: “Quem escreve esta é o criado da hospedaria onde eu me acho;
apenas tenho forças para deitar-lhe a minha assinatura.”
O plano
era excelente, e Vergueiro, lá em Buenos Aires, esfregava as mãos de prazer
saboreando os aplausos que receberia do amigo e sócio pela idéia de disfarçar a
letra.
Ayres
aplaudiu efetivamente a idéia, e não menos a aplaudiu a amável Carlota. Determinaram,
entretanto, não sair com a publicidade assentada no primeiro plano, em vista da qual o sagaz Vergueiro
escrevera a referida carta. Talvez mesmo já esse projeto fosse anterior.
O certo é
que daí a dez dias, Ayres, Carlota e o dinheiro saíram furtivamente... para a
Europa.
---
Nota:
Texto-fonte: Publicado
originalmente em Jornal das
Famílias, 1871. Disponível digitalmente no site: Domínio Público
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