sábado, 21 de setembro de 2013

Hugo de Carvalho Ramos: "Mágoa de Vaqueiro"

MÁGOA DE VAQUEIRO
A Eduardo Tourinho 

Como os galos viessem amiudando e fora andasse a garoa fria de inverno que precede as  primeiras horas do amanhecer, o Zeca Menino, largando num tamborete o par com quem dera a  última volta da catira, esgueirou-se pelo corredor, atravessou sorrateiramente a varanda de terra  batida, onde a mesa posta ostentava ainda os sobejos da ceia – frascos de licor e o doce de buriti
esparramando-se na toalha besuntada – e saiu pelos fundos da casa.

No terreiro, encolhido ao aconchego da fogueira, gemia ainda àquela hora o tio  Ambrosino, viola ao peito, respontando na prima:

A florzinha do pau-d'arco

É da cor do entardecer,

Traz tristeza, traz quebranto,

Tu, que não hás de trazer...

Em pontas de pé, dissimulando o tilintar das rosetas no cachorro das esporas, Zeca  Menino alcançou o alpendre à banda, desamarrou a mula estradeira e voltou montado ao oitão  da casa, raspando-se no peitoril duma janela, que arranhou suavemente com o cabo da açoiteira.  Os tampos descerraram-se sem rumor; um vulto esquivo deixou-se escorregar para a garupa  roliça da besta, e o estrépito abafado do animal, que ganhara a porteira e se afastava na cerração,  misturou-se perdido aos zangarreios da sanfona, reavivando dentro a animação dos comparsas.

Junto ao fogo semi-extinto, cabeceando de sono, farto da queimada engolida aos  gorgolões, o tio Ambrosino interrompera o curso de suas divagações e cachimbava distraído:

– Homem, a modo que já vão andando... Ah, meu tempo, agüentava firme no sapateio até  pegar o sol com a mão!...

E caducou em solilóquio, levado de novo pelo curso da borracheira: 

Lá na serra dos Angicos

Quanta flor anda a brotar!

Assim também são teus olhos

Quando pões-me a namorar...

Despertado, um galo cacarejou no poleiro ao pé, num grande grito de alarma.

– Carijó que assim canta, é que fugiu moça de casa.

Mas o frio apertava, a lua ia a perder-se por detrás das serranias; e tio Ambrosino  recolheu-se tropeçando ao abrigo da varanda, a espertar o corpo perrengue num último  gargarejo da queimada.

E só quando as barras vinham quebrando e era manhã feita nas morrarias do nascente e o  último convidado, que morava mais chegado, se despedia do festeiro – num salamaleque  derreado onde havia ainda bifadas de cachaça e licor de jenipapo – que este deu pela ausência  da filha, chamando-a para a bênção do padrinho.

Houve um rebuliço. O vaqueiro gritava para dentro, supondo-a recolhida; e o Ambrosino,  escarranchado na pileca manca, atalhou com voz pachorrenta:

– Ora, não se afobe, compadre, a afilhada já dorme, moída da festança; também,  requebrou-se a noite toda com o manhoso do Zeca Menino, agora dorme...

E partiu, no passo ronceiro da mula cambeta, pendependendo no arção, as pálpebras  inchadas, num sono invencível de sapo borracho.

O outro, porém, mal o viu desaparecer no cotovelo do atalho, embarafustou pelo rancho,  andou lá por dentro remexendo, repondo os trastes em seus lugares; e, num pressentimento,  chamou junto ao quarto da filha:

– Ó Maria!...

Mas um silêncio angustioso pairou após o brado do velho; e ele, resoluto, meteu ombros à  porta, cuja tranca cedeu sem dificuldade.

A cama estava como na véspera a vira, quando lá entrara para apanhar a bandeira do  santo; a colcha de chita bem esticada, fronhas dos travesseiros intactas, sem vinco ou ruga duma  cabeça que ali repousasse alguns instantes; e o rosário das orações como sempre, dependurado  na cabeceira. Da Mariazinha, porém, nem vestígio.

Ele olhava apatetado, sem compreender; foi à cozinha, na esperança de encontrá-la  dobrada sobre o jirau de mantimentos, quando lá fora talvez buscar a candeia de azeite e se  deixara ficar, vencida do sono; foi, e apenas o bichano, mui gordo e ronronento, abriu para ele  da trempe do borralho onde se aboletara, uns grandes olhos deslavados de espanto e ronronando  ficara de novo a dormitar, no calor brando das cinzas.

O velho Tonico percorreu todas as dependências daquele pobre rancho de vaqueiro, a  sala, a varanda e sua própria divisão; saiu, foi ao alpendre e até o chiqueiro e o fundo do quintal  inquiriu ansiosa, inutilmente.

Veio ao terreiro da frente, o sol já nado; e só então a dor expluiu, numa crise de lágrimas  e recriminações.

Fugira, a malvada! E com quem, Santa Maria, com o Zeca Menino certamente, um  perdido de pagodeiras e do truque, brigão vezeiro nas redondezas, sujeito que além da garrucha  e da besta de sela, só tinha por si essa estampa escorreita de mestiço madraço e preguiçoso! E  por que, Virgem Maria, se ele nunca se intrometera no namoro, até satisfaria a vontade de  ambos, dando o consentimento; ele que, mal da idade, com tão pouco se contentava – vê-la  sempre de sorriso à boca ao batente da porta, quando viesse das malhadas, e a tigelinha de café  bem requentada, quando partisse pela manhã para as labutas do campo! Ele que, bom Deus dos  fracos, só tinha aquele mimo na sua velhice desamparada e solitária de viúvo, à beira dum  atalho sempre deserto e cujo vizinho mais próximo, o Ambrosino, ficava a duas léguas de  distância!

E arrepelava a grenha, num pasmo mudo agora, como se nem pensar naquilo valesse mais  a pena, tão absurda parecia a desgraça que se lhe abatera sobre o casebre.

Ah! não ter dez anos para menos, não virasse já os sessenta bem puxados, tivesse o pulso a rijeza de outrora e partiria sem detença, no rosilho troncho, pronto a tirar a desforra merecida  da afronta!

Mas o corpo já não dava de si e ele bem sabia quão boa estradeira era a mula ruana em  que haviam partido. Àquela hora, já transpunham a mata funda, rumo do Paranaíba e talvez das  terras mineiras do Triângulo, bem longe da sanha e da ojeriza impotente de seu amor paterno  ludibriado.

E num dasalento, amparou-se ao cupinzeiro que erguia o seu cone crivado à frente da  palhoça, a olhar emudecido, em desespero.

O sertão abria-se naquela manhã de junho festivo, na glória fecunda das ondulações  verdes, sombreado aqui pelas restingas das matas, escalonado mais além pelas colinas  aprumadas, a varar o céu azul com suas aguilhadas de ouro; batuíras e xenxéns chalravam nas  embaúbas digitadas dos grotões; e um sorvo longo de vida e contentamento errava derredor, no  catingueiro roxo dos serrotes, emperolado da orvalhada, a recender acre, e nas abas dos montes  e encruzilhadas, onde preás minúsculos e calangos esverdinhados retouçavam familiares, ao  esplendor crescente do dia.

Ele ficara mudo, olhos apalermados, virado o rosto para a volta da estrada, de cuja orla  subia um nevoeiro luminoso, que o mormaço solar irisava.

Ali permaneceu horas a fio, o sol já dardejando a prumo, indiferente à canícula, mãos  túrgidas engalfinhadas na barba intonsa, boca contorcida numa visagem estranha de mágoa, a  olhar longe, muito longe, para além das colinas longínquas e do céu anilado.

À tarde, o eco dum aboiado rolou pelo fundo da várzea, ondulando dolentemente de  quebrada em quebrada, num despertar intenso de saudade...

Eram boiadeiros que lá passavam, na estrada batida.

O vaqueiro velho não saiu então como de costume, ferrão em punho, perneiras e guardapeito,  escorreito e desempenado, no rosilho campeador, a dar a mão de ajuda àqueles forasteiros  que lá iam, demanda das terras distantes e das feiras ruidosas dos sertões mineiros d'além-  Paranaíba.

Continuava recostado no cômoro dos cupins, mão no queixo, olhando extático; somente,  agora, a cabeça bronzeada pendia mais flacidamente sobre o peito de vaqueano, e o olhar com  que via, era inexpressivo e desvidrado, desmedidamente aberto, estampando na retina empanada  a visão pungente do sertão em festa, todo verde, e a orelha à escuta, longe, das notas derradeiras  da canção nativa.

Morrera, ouvindo os ecos que lá iam do aboiado, a rolar, magoadamente, de quebrada em  quebrada...

Ao pé, na roupeta singela de algodão em que se enfatiotara, nas axilas, nos braços, pela  boca e orelhas, ia cerce a faina das térmitas em rasgar, picar, cortar e estraçalhar aquele estorvo  molengo que se lhes abatera desde cedo por cima da casa...

1914


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Nota:
Hugo de Carvalho Ramos: "Tropas e Boiadas" (1917) 

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