
NA ARCA
TRÊS CAPÍTULOS INÉDITOS DO GÊNESIS
CAPÍTULO A
1. — Então
Noé disse a seus filhos Jafé, Sem e Cam: — “Vamos sair da arca, segundo a
vontade do Senhor, nós, e nossas mulheres, e todos os animais. A arca tem de
parar no cabeço de uma montanha; desceremos a ela.

2. —
“Porque o Senhor cumpriu a sua promessa, quando me disse: “Resolvi dar cabo de
toda a carne; o mal domina a terra, quero fazer perecer os homens. Faze uma arca de madeira; entra nela tu, tua mulher
e teus filhos.
3. — “E as
mulheres de teus filhos, e um casal de todos os animais.
4. —
“Agora, pois, se cumpriu a promessa do Senhor, e todos os homens pereceram, e
fecharam-se as cataratas do céu; tornaremos a descer à terra, e a viver no seio
da paz e da concórdia.”
5. — Isto
disse Noé, e os filhos de Noé muito se alegraram de ouvir as palavras de seu pai;
e Noé os deixou sós, retirando-se a uma das câmaras da arca.
6. — Então
Jafé levantou a voz e disse: — “Aprazível vida vai ser a nossa. A figueira nos
dará o fruto, a ovelha a lã, a vaca o leite, o sol a claridade e a noite a tenda.
7. —
“Porquanto seremos únicos na terra, e toda a terra será nossa, e ninguém perturbará
a paz de uma família, poupada do castigo que feriu a todos os homens.
8. — “Para
todo o sempre.” Então Sem, ouvindo falar o irmão, disse: — “Tenho uma idéia”.
Ao que Jafé e Cam responderam:— “Vejamos a tua idéia, Sem.”
9. — E Sem
falou a voz de seu coração, dizendo: — “Meu pai tem a sua família; cada um de
nós tem a sua família; a terra é de sobra; podíamos viver em tendas separadas. Cada um de nós fará o que lhe
parecer melhor: e plantará, caçará, ou lavrará
a madeira, ou fiará o linho.”
10. — E
respondeu Jafé: — “Acho bem lembrada a idéia de Sem; podemos viver em tendas
separadas. A arca vai descer ao cabeço de uma montanha; meu pai e Cam descerão
para o lado do nascente; eu e Sem para o lado do poente. Sem ocupará duzentos
côvados de terra, eu outros duzentos.”
11. — Mas,
dizendo Sem: — “Acho pouco duzentos côvados” —, retorquiu Jafé: “Pois sejam quinhentos cada um. Entre a minha
terra e a tua haverá um rio, que as divida no meio, para se não confundir a
propriedade. Eu fico na margem esquerda
e tu na margem direita;
12. — “E a
minha terra se chamará terra de Jafé, e a tua se chamará a terra de Sem; e
iremos às tendas um do outro, e partiremos o pão da alegria e da
concórdia.”
13. — E
tendo Sem aprovado a divisão, perguntou a Jafé: “Mas o rio? a quem pertencerá a água do rio, a corrente?
14. —
“Porque nós possuímos as margens, e não estatuímos nada a respeito da corrente.” E respondeu Jafé, que podiam pescar
de um e outro lado; mas, divergindo o irmão, propôs dividir o rio em duas
partes, fincando um pau no meio. Jafé, porém, disse que a corrente levaria o
pau.
15. — E
tendo Jafé respondido assim, acudiu o irmão: — “Pois que te não serve o pau, fico
eu com o
rio, e as
duas margens; e para que não haja
conflito, podes levantar um muro, dez ou doze côvados, para lá da tua margem
antiga.
16. — “E
se com isto perdes alguma coisa, nem é grande a diferença, nem deixa de ser
acertado, para que nunca jamais se turbe a concórdia entre nós, segundo é a
vontade do Senhor.”
17. — Jafé
porém replicou: — “Vai bugiar! Com que direito me tiras a margem, que é minha,
e me roubas um pedaço de terra? Porventura és melhor do que eu,

18. — “Ou
mais belo, ou mais querido de meu pai? Que direito tens de violar assim tão
escandalosamente a propriedade alheia?
19. —
“Pois agora te digo que o rio ficará do meu lado, com ambas as margens, e que
se te atreveres a entrar na minha terra, matar-te-ei como Caim matou a seu
irmão.”
20. — Ouvindo
isto, Cam atemorizou-se muito, e começou a aquietar os dois irmãos,
21. — Os
quais tinham os olhos do tamanho de figos e cor de brasa, e olhavam-se cheios de cólera e desprezo.
22. — A
arca, porém, boiava sobre as águas do abismo.
CAPÍTULO B
1. — Ora,
Jafé, tendo curtido a cólera, começou a espumar pela boca, e Cam falou-lhe
palavras de brandura,
2. —
Dizendo: — “Vejamos um meio de conciliar tudo; vou chamar tua mulher e a mulher
de Sem”.
3. — Um e
outro, porém, recusaram dizendo que o caso era de direito e não de persuasão.
4. — E Sem
propôs a Jafé que compensasse os dez côvados perdidos, medindo outros tantos
nos fundos da terra dele. Mas Jafé respondeu:
5. — “Por
que me não mandas logo para os confins do mundo? Já te não contentas com quinhentos
côvados; queres quinhentos e dez, e eu que fique com quatrocentos e noventa.
6. — “Tu
não tens sentimentos morais? não sabes o que é justiça? não vês que me esbulhas
descaradamente? e não percebes que eu saberei defender o que é meu, ainda com
risco de vida?
7. — “E
que, se é preciso correr sangue, o sangue há de correr já e já,
8. — “Para
te castigar a soberba e lavar a tua iniqüidade?”
9. — Então
Sem avançou para Jafé; mas Cam interpôs-se, pondo uma das mãos no peito de cada
um;
10. —
Enquanto o lobo e o cordeiro, que durante os dias do dilúvio, tinham vivido na
mais doce concórdia, ouvindo o rumor das vozes, vieram espreitar a briga dos dois
irmãos, e começaram a vigiar-se um ao outro.
11. — E
disse Cam: — “Ora, pois, tenho uma idéia maravilhosa, que há de acomodar tudo;
12. — “A
qual me é inspirada pelo amor, que tenho a meus irmãos. Sacrificarei pois a
terra que me couber ao lado de meu pai, e ficarei com o rio e as duas margens,
dando-me vós uns vinte côvados cada um.”
13. — E
Sem e Jafé riram com desprezo e sarcasmo, dizendo: — “Vai plantar tâmaras!
Guarda a tua idéia para os dias da velhice”. E puxaram as orelhas e o
nariz de Cam; e Jafé, metendo dois dedos na
boca, imitou o silvo da serpente, em ar de surriada.
nariz de Cam; e Jafé, metendo dois dedos na
boca, imitou o silvo da serpente, em ar de surriada.
14. — Ora,
Cam, envergonhado e irritado, espalmou a mão dizendo: — “Deixa estar!” e foi
dali ter com o pai e as mulheres dos dois irmãos.
15. — Jafé
porém disse a Sem: — “Agora que estamos sós, vamos decidir este grave caso, ou
seja de língua ou de punho. Ou tu me cedes as duas margens, ou eu te quebro uma
costela.”
16. —
Dizendo isto, Jafé ameaçou a Sem com os punhos fechados, enquanto Sem, derreando
o corpo, disse com voz irada: “Não te cedo nada, gatuno!”
17. — Ao
que Jafé retorquiu irado: “Gatuno és tu!”
18. — Isto
dito, avançaram um para o outro e atracaram-se. Jafé tinha o braço rijo e
adestrado; Sem era forte na resistência. Então Jafé, segurando o irmão pela cinta,
apertou-o fortemente, bradando: “De quem é o rio?”
19. — E
respondendo Sem: — “É meu!” Jafé fez um gesto para derrubá-lo; mas Sem, que era
forte, sacudiu o corpo e atirou o irmão para longe; Jafé, porém, espumando de
cólera, tornou a apertar o irmão, e os dois lutaram braço a braço,
20. —
Suando e bufando como touros.
21. — Na
luta, caíram e rolaram, esmurrando-se um ao outro; o sangue saía dos narizes,
dos beiços, das faces; ora vencia Jafé,
22. — Ora
vencia Sem; porque a raiva animava-os igualmente, e eles lutavam com as mãos,
os pés, os dentes e as unhas; e a arca estremecia como se de novo se houvessem
aberto as cataratas do céu.
23. —
Então as vozes e brados chegaram aos ouvidos de Noé, ao mesmo tempo que seu
filho Cam, que lhe apareceu clamando: “Meu pai, meu pai, se de Caim se tomará
vingança sete vezes, e de Lameque setenta vezes sete, o que será de Jafé e
Sem?”
24. — E
pedindo Noé que explicasse o dito, Cam referiu a discórdia dos dois irmãos, e a
ira que os animava, e disse: — “Correi a aquietá-los”. Noé disse: — “Vamos”.
25. — A
arca, porém, boiava sobre as águas do abismo.
CAPÍTULO C
1. — Eis
aqui chegou Noé ao lugar onde lutavam os dois filhos,
2. — E
achou-os ainda agarrados um ao outro, e Sem debaixo do joelho de Jafé, que com
o punho cerrado lhe batia na cara, a qual estava roxa e sangrenta.
3. —
Entretanto, Sem, alçando as mãos, conseguiu apertar o pescoço do irmão, e este
começou a bradar: “Larga-me, larga-me!”
4. —
Ouvindo os brados, as mulheres de Jafé e Sem acudiram também ao lugar da luta,
e, vendo-os assim, entraram a soluçar e a dizer: “O que será de nós? A maldição caiu sobre nós e nossos maridos.”
5. — Noé,
porém, lhes disse: “Calai-vos, mulheres de meus filhos, eu verei de que

se trata,
e ordenarei o que for justo.” E caminhando para os dois combatentes,
6. —
Bradou: “Cessai a briga. Eu, Noé, vosso pai, o ordeno e mando”. E ouvindo os dois irmãos o pai, detiveram-se
subitamente, e ficaram longo tempo atalhados e mudos, não se levantando nenhum
deles.
7. — Noé
continuou: “Erguei-vos, homens indignos da salvação e merecedores do castigo
que feriu os outros homens”.
8. — Jafé
e Sem ergueram-se. Ambos tinham feridos o rosto, o pescoço e as mãos, e as
roupas salpicadas de sangue, porque tinham lutado com unhas e dentes,
instigados de ódio mortal.
9. — O
chão também estava alagado de sangue, e as sandálias de um e outro, e os cabelos de um e outro,
10. — Como
se o pecado os quisera marcar com o selo da iniqüidade.
11. — As
duas mulheres, porém, chegaram-se a eles, chorando e acariciando-os, e
via-se-lhes a dor do coração. Jafé e Sem não atendiam a nada, e estavam com os
olhos no chão, medrosos de encarar seu pai.
12. — O
qual disse: “Ora, pois, quero saber o motivo da briga”.
13. — Esta
palavra acendeu o ódio no coração de ambos. Jafé, porém, foi o primeiro que
falou e disse:
14. — “Sem
invadiu a minha terra, a terra que eu havia escolhido para levantar a minha
tenda, quando as águas houverem desaparecido e a arca descer, segundo a promessa
do Senhor;
15. — “E
eu, que não tolero o esbulho, disse a meu irmão: “Não te contentas com quinhentos
côvados e queres mais dez?” E ele me respondeu: “Quero mais dez e as duas margens do rio que há de dividir a
minha terra da tua terra”.
16. — Noé,
ouvindo o filho, tinha os olhos em Sem; e acabando Jafé, perguntou ao irmão:
“Que respondes?”
17. — E
Sem disse: — “Jafé mente, porque eu só lhe tomei os dez côvados de terra,
depois que ele recusou dividir o rio em duas partes; e propondo-lhe ficar com as duas margens, ainda consenti que ele
medisse outros dez côvados nos fundos das terras dele,
18. —
“Para compensar o que perdia; mas a iniqüidade de Caim falou nele, e ele me
feriu a cabeça, a cara e as mãos”.
19. — E
Jafé interrompeu-o dizendo: “Porventura não me feriste também? Não estou
ensangüentado como tu? Olha a minha cara e o meu pescoço; olha as minhas faces, que rasgaste com as tuas unhas
de tigre”.
20. — Indo
Noé falar, notou que os dois filhos de novo pareciam desafiar-se com os olhos. Então disse: “Ouvi!” Mas os dois
irmãos, cegos de raiva, outra vez se engalfinharam, bradando: — “De quem é o
rio?” — “O rio é meu”.
21. — E só
a muito custo puderam Noé, Cam e as mulheres de Sem e Jafé conter os dois combatentes, cujo sangue entrou a
jorrar em grande cópia.
22. — Noé,
porém, alçando a voz, bradou: — “Maldito seja o que me não obedecer. Ele será
maldito, não sete vezes, não setenta vezes sete, mas setecentas vezes setenta.
23. —
“Ora, pois, vos digo que, antes de descer a arca, não quero nenhum ajuste a
respeito do lugar em que levantareis as tendas.”
24. —
Depois ficou meditabundo.
25. — E
alçando os olhos ao céu, porque a portinhola do teto estava levantada, bradou com tristeza:
26. —
“Eles ainda não possuem a terra e já estão brigando por causa dos limites O que será quando vierem a Turquia e a
Rússia?”
27. — E
nenhum dos filhos de Noé pôde entender esta palavra de seu pai.
28. — A
arca, porém, continuava a boiar sobre as águas do abismo.
---
Nota:
Nota:
Texto-fonte: Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II, Nova
Aguilar, Rio de Janeiro, 1994. Publicado originalmente por Lombaerts & Cia,
Rio de Janeiro, 1882. Disponível
digitalmente no site: Domínio
Público
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